Críticas

Foi Carmen

por Leca Perrechil

3 Comentários 03 June 2008

Manual Antunes Filho: módulo I
Como assistir a um espetáculo?

Antes do início da peça Foi Carmen, dirigida por Antunes Filho e com produção do CPT – Centro de Pesquisa Teatral do SESC São Paulo, o próprio Antunes entra no palco pra dar uma palavrinha (de uns 25 minutos) com os espectadores.

O público paulistano está preparado?
Ele explica que a peça é uma homenagem aos cem anos da imigração japonesa no Brasil, em especial ao artista Kazuo Ohno – um dos mestres do butô, que mistura teatro e dança – e que Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC em Sampa, praticamente o convenceu a remontar a peça na cidade. Afinal, Antunes achava que o espetáculo de 2005, apresentado apenas em festivais e no Japão, não daria certo por aqui. Ele diz que subestimou o público de SP e a si mesmo, mas mesmo assim apresentou praticamente uma aulinha de como assistir ao espetáculo na estréia do dia 20 de maio, no SESC Anchieta.

Pode-se até entender o porquê de Antunes ter aparecido para umas palavrinhas, afinal, Foi Carmen é, das últimas peças do diretor, a mais incomum, digamos assim: com mais experimentação, uso de simbolismos, quase sem falas e com quebra de espaço/ tempo/ritmo. Talvez seu público não compreendesse, né?

Antunes dá a dica: não se precipite, meu filho
O diretor explica que seu espetáculo é pra ser visto relaxadamente, sem conclusões precipitadas. O espectador tem que relaxar e deixar fluir o subconsciente e o consciente. Pela linha de raciocínio de seu discurso, Antunes diz que seu Senhora dos Afogados recebeu crítica de ser frio porque a pessoa veio esperando ver um tipo de Nelson Rodrigues e viu outro. Assim, para ele, elas deviam ter visto primeiro para depois tirar as conclusões e fazer a crítica.

(O diretor pede para acender mais a luz do palco)

Teatro com carinho
Depois de falar sobre inclusão social, sobre o interesse do SESC em ter uma programação popular, ele discursa sobre a qualidade do trabalho do CPT junto ao SESC, uma parceria que apresenta obras pensadas e trabalhadas, nunca em uma ou duas semanas, e feitas com carinho e amor (tipo o do sazon, sabe?).

Explica ser um teatro poético, no qual vão surgindo imagens a partir das quais o espectador vai criando significados. Assim, o espetáculo é feito pelo público. O palco é vazio para os atores preencherem e a platéia também, recurso já utilizado por ele em A Pedra do Reino e Senhora dos Afogados.

Você não vai entender, por isso vou te explicar
Também discursa sobre a linguagem de alguns trechos da peça, o fonemol  – não, não é remédio e nem alucinógeno, é a língua fictícia criada pelo grupo Macunaíma e já utilizada em outros espetáculos. (nesse momento, ele vai para o meio do palco, demonstrar a técnica) Com o fonemol, o ator usa voz de ressonância e não violenta a palavra.

Depois da “palestra Antunes Filho de como assistir à peça”, poderia discursar sobre o rigor técnico e a direção pulso firme, ou discorrer sobre partituras físicas e gestos extremamente coreografados, além da mistura de ritmos e climas destoantes na mesma cena. Mas já que o Antunes gastou quase meia hora para abrir nossos olhos e legendar tudo bonitinho pra não correr o risco de ninguém deixar de entender o recado, sigo a recomendação do mestre: que o público vá ver sem conclusões precipitadas… se isso for possível.

2,5 Carmens Mirandas com frutas na cabeça

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Ronaldo says:

    hehehehhehe

    Se eu fizer isso com quem for assistir o “Bi-do” (meu espetáculo de Butoh) vão me chamar de pedante e rídiculo (não necessariamente nessa ordem).

  2. astier basílio says:

    O sazon
    me ofereceu a minha primeira
    risada do dia,
    gosto do q tu escreve,
    lequícima

  3. Carlinhos says:

    Não pense no que os outros vão pensar, Ronaldo. Faça como o Antunes: faça.


E você, o que acha?

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