Esperando Brook

Foto: Pascal Victor.
27/6/2008, 14h15 – Esgotavam-se os ingressos para as quatro sessões de Fragments, que aconteceriam na semana seguinte. Muito antes do início das vendas (às 14h), muita gente já formava filas nas unidades do SESC. Sem ter conseguido ingressos nas filas, a Bacante só conferiu o espetáculo graças a uma sessão extra que aconteceu numa ensolarada tarde de sábado para as centenas de convidados que certamente ficariam de fora das apresentações programadas – e ainda assim a sessão estava lotada.
O motivo para tamanha demanda é uma espécie de “grife” que se criou em torno do diretor do espetáculo, o bom-velhinho inglês Peter Brook. Ao contrário de Ariane Mnouchkine e toda a parefernalha de seu Théâtre du Soleil (igualmente disputado e incensado), Brook não trouxe desta vez uma amostra do trabalho que o consagrou como um dos maiores encenadores do século XX: em vez da experimentação e da radicalização do teatro de grupo, o que pôde ser visto no palco do SESC Santana foi um exercício de síntese, uma pequena peça com aparatos técnicos e cênicos mínimos, reduzido praticamente à presença de três atores na cena. Minimalista, quadradinho.
O texto – quatro peças curtas de um Samuel Beckett talvez menos pessimista, talvez mais convencido (ou conformado) de que os impasses da vida não sejam tão intransponíveis como uma eterna espera por Godot ou pela morte (ainda que não deixem de ser impasses) – traz, sob a direção de Brook, uma certa “humanização de Beckett” de que todo mundo já falou (e eu odeio ser clichê), então vou avançar a fita.
Ao término da apresentação (que oscila entre um emocionante monólogo da atriz Hayley Carmichael e um humor que chega a lembrar, bem de levinho, o deboche de Monty Python – talvez pela figura dos atores Khalifa Natour e Marcello Magni trajados como duas senhoras de idade), pergunto: o que faz deste espetáculo exatamente um “legítimo Peter Brook”? Não, não estou questionando (necessariamente) a qualidade do trabalho, apenas levanto hipóteses relacionadas ao resultado final, ecoando e complementando algumas questões que Daniele Avila também faz em sua crítica sobre a peça: se fosse assinada por um pseudônimo ou algum outro nome, teria a mesma recepção do público e da crítica? Quantas sessões uma temporada lotaria se a peça não tivesse o “selo de qualidade” Brook? E de quantos festivais seria convidado para participar?
E o nome Peter Brook, num trabalho distanciado (ou libertado?) dos estudos que o consagraram, soa mais como referência ou como uma fórmula de sucesso de uma marca bem-conceituada (nestas horas, é assustador como produção cultural e marketing conseguem ser tão semelhantes) para os festivais/instituições que o trouxeram? Quanto dos enérgicos aplausos ao final da apresentação efetivamente era para a qualidade do trabalho ali apresentado, e quanto seria para a “grife” Peter Brook?
Bom, apesar de ser publicitário, sou péssimo de estatística e não sei responder a essas questões.
4 peças e muitas questões (que não são sobre a peça)


Eu não vi. E quando soube do que se tratava, nem quis.
Gosto do Brook. Claro. Tenho dois videos e um filme dele que assisto muitas vezes ao longo dos anos… Mas, o Brook que eu gosto não veio para cá…
Alguns bons trabalhos internacionais de teatro não estão vindo para São Paulo… O “Homem que.” do Brook se apresentou no Sul faz um tempo e a gente nem ficou sabendo.
E com certeza se fosse eu, ou você, que assinasse esseespetáculo, iria o mesmo publico de sempre. E falariam mal.
Ei, você não foram vem o Pontedera??
Vamos deixar o gosto do público para o público?
Caro M.
Querido R.
Mas porque tanto ressentimento com a grife? Bom teatro agora tem grife?
Quanto ódio no coração pelos “enérgicos aplausos ao final da apresentação”…
Porque reclamar tanto do espectador? Só porque este lota as temporadas estrangeiras e não dá bola para o “teatro de grupo”? Só porque prefere a Broadway aos nossos espetáculos de “experimentação” tupiniquins da Praça Rosevelt?
Nossa praça off-Broadway não é tão vitrine de grifes teatrais quanto qualquer outra “praça” teatral? Porque o público-consumidor pode ser até outro (o tal do pseudo-cult), mas desde que higienizaram o espaço não está claro que a lógica é a mesma? Teatro para poucos, os mesmo poucos, que aplaudem efusivamente da mesma forma.
Tudo isso é porque?
Tudo isso só por falta de reconhecimento???
“Brook não trouxe desta vez uma amostra do trabalho que o consagrou como um dos maiores encenadores do século XX”. Isso é um problema? Ou apenas expressa o gosto pessoal de quem a profere? Um gosto que, diga-se de passagem, é tão pessoal quanto o do espectador-boiada mais massificado.
Quando o teatro alijado das vitrines vai parar de criticar o “péssimo gosto do espectador”?
Culpando-o.
Porque não olhamos para o teatro?
essenssia essência
É perfeita a observação que diz que: “o que pôde ser visto no palco do SESC Santana foi um exercício de síntese, uma pequena peça com aparatos técnicos e cênicos mínimos, reduzido praticamente à presença de três atores na cena. Minimalista, quadradinho.”
O que caracteriza a arte?” O que tal colocação não observa, entretanto, é a opção teatral que está por trás da estética. Uma opção que nada tem a ver com com a encenação minimalista ou com a economia de recursos materiais. Mas com um pensamento essencialista a cerca do fenômeno teatral. Um pensamento muitas vezes repetido, mas poucas vezes compreendido, de que os elementos fundantes da ação teatral (do teatro) residem em um espaçõ vazio, o espectador (alguém que observa) e o ator que age. Quer algo mais clássico em Brook? Está lá na primeira página de seu primeiro livro (O Teatro e seu Espaço). Aliás, o bom-velhinho tornou-se quem é exatamente porque conseguiu como poucos condensar o máximo de vida possível nesta que é a “célula” da arte teatral, sua menos partícula viva. Mas me parece que nossa “crítica” justamente reclama da falta de grandiosidade da montagem – faltam cenários e efeitos pirotécnicos para encher-lhes os olhos. (Aliás a nossa “crítica” nem se deu ao trabalho de assistir ao espetáculo, rs – o que por si é muito sintomático de sua presunção).
Esquizofrenicamente, critica o mal gosto do público que prefere a grandiosidade dos espetáculos da Broadway, para, em seguida, classificar como menor e indigno um espetáculo essesncialista.
Eu só posso pensar que nossa “crítica” é órfão de teatro e de vitrine.
Ah, e orfão de aplauso também, rs.
Cordialmente,
U.
Vamos deixar o gosto do público para o público?
Caro M.
Querido R.
Mas porque tanto ressentimento com a grife? Bom teatro agora tem grife?
Quanto ódio no coração pelos “enérgicos aplausos ao final da apresentação”…
Porque reclamar tanto do espectador? Só porque este lota as temporadas estrangeiras e não dá bola para o “teatro de grupo”? Só porque prefere a Broadway aos nossos espetáculos de “experimentação” tupiniquins da Praça Rosevelt? Ela não é tão vitrine de grifes badaladas quanto qualquer outra “praça” teatral? O público-consumidor pode ser até outro (o tal do pseudo-cult), mas desde que higienizaram o espaço não está claro que a lógica é a mesma? Teatro para poucos, os mesmo poucos, que aplaudem efusivamente da mesma forma.
Tudo isso é porque?
Tudo isso só por falta de reconhecimento???
“Brook não trouxe desta vez uma amostra do trabalho que o consagrou como um dos maiores encenadores do século XX”. Isso é um problema? Ou apenas expressa o gosto pessoal de quem a profere? Um gosto que, diga-se de passagem, é tão pessoal quanto o do espectador-boiada mais massificado.
Quando o “teatro alijado das vitrines” vai parar de criticar o “péssimo gosto do espectador”?
Culpando-o.
Porque não olhamos para o teatro?
Porque não falamos do teatro?
É perfeita a observação segundo a qual “o que pôde ser visto no palco do SESC Santana foi um exercício de síntese, uma pequena peça com aparatos técnicos e cênicos mínimos, reduzido praticamente à presença de três atores na cena. Minimalista, quadradinho.”
O que tal colocação não observa, entretanto, é a opção teatral que está por trás da estética da cena. Uma opção que nada tem a ver com com a encenação minimalista ou com a economia de recursos materiais apresentados. Mas com um pensamento essencialista a cerca do fenômeno teatral (muitas vezes repetido e poucas vezes compreendido), segundo o qual toda a ação teatral se fundamenta a partir de seus três elementos estruturais: o espaço vazio, o espectador que observa e o ator que age. Quer algo mais clássico em Brook? Está lá na primeira página de seu primeiro livro. Aliás, o bom-velhinho tornou-se quem é exatamente porque conseguiu, como poucos, condensar o máximo de vida possível nesta que é a “célula” da ação teatral (sua menor partícula viva).
Mas me parece que nossa “crítica” justamente reclama da falta de grandiosidade da montagem – faltam cenários e efeitos pirotécnicos para encher-lhes os olhos. (Aliás a nossa “crítica” nem se deu ao trabalho de assistir ao espetáculo, rs – o que por si é muito sintomático de sua presunção).
Nossa crítica consegue (em claro sinal de crise esquizofrênica aguda) taxar de “mal gosto” a preferência daqueles que preferem a grandiosidade dos espetáculos de grife e, ao mesmo tempo, classificar como menor e indigna uma montagem essesncialista.
Eu só posso pensar que nossa “crítica” é órfão de teatro e de vitrine.
Ah, e orfão de aplauso também, rs.
Cordialmente,
U.
Vamos deixar o gosto do público para o público?
Caro M.
Querido R.
Mas porque tanto ressentimento com a grife? Bom teatro agora tem grife?
Quanto ódio no coração pelos “enérgicos aplausos ao final da apresentação”…
Porque reclamar tanto do espectador? Só porque este lota as temporadas estrangeiras e não dá bola para o “teatro de grupo”? Só porque prefere a Broadway aos nossos espetáculos de “experimentação” tupiniquins da Praça Rosevelt? Ela não é tão vitrine de grifes badaladas quanto qualquer outra “praça” teatral? O público-consumidor pode ser até outro (o tal do pseudo-cult), mas desde que higienizaram o espaço não está claro que a lógica é a mesma? Teatro para poucos, os mesmo poucos, que aplaudem efusivamente da mesma forma.
Tudo isso é porque?
Tudo isso só por falta de reconhecimento???
“Brook não trouxe desta vez uma amostra do trabalho que o consagrou como um dos maiores encenadores do século XX”. Isso é um problema? Ou apenas expressa o gosto pessoal de quem a profere? Um gosto que, diga-se de passagem, é tão pessoal quanto o do espectador-boiada mais massificado.
Quando o “teatro alijado das vitrines” vai parar de criticar o “péssimo gosto do espectador”?
Culpando-o.
Porque não olhamos para o teatro?
Porque não falamos do teatro?
É perfeita a observação segundo a qual “o que pôde ser visto no palco do SESC Santana foi um exercício de síntese, uma pequena peça com aparatos técnicos e cênicos mínimos, reduzido praticamente à presença de três atores na cena. Minimalista, quadradinho.”
O que tal colocação não observa, entretanto, é a opção teatral que está por trás da estética da cena. Uma opção que nada tem a ver com com a encenação minimalista ou com a economia de recursos materiais apresentados. Mas com um pensamento essencialista a cerca do fenômeno teatral (muitas vezes repetido e poucas vezes compreendido), segundo o qual toda a ação teatral se fundamenta a partir de seus três elementos estruturais: o espaço vazio, o espectador que observa e o ator que age. Quer algo mais clássico em Brook? Está lá na primeira página de seu primeiro livro. Aliás, o bom-velhinho tornou-se quem é exatamente porque conseguiu, como poucos, condensar o máximo de vida possível nesta que é a “célula” da ação teatral (sua menor partícula viva).
Mas me parece que nossa “crítica” justamente reclama da falta de grandiosidade da montagem – faltam cenários e efeitos pirotécnicos para encher-lhes os olhos. (Aliás a nossa “crítica” nem se deu ao trabalho de assistir ao espetáculo, rs – o que por si é muito sintomático de sua presunção).
Nossa crítica consegue (em claro sinal de crise esquizofrênica aguda) tachar de “mal gosto” a preferência daqueles que preferem a grandiosidade dos espetáculos de grife e, ao mesmo tempo, classificar como menor e indigna uma montagem essesncialista.
Ao contrário do que o título do artigo sugere (Esperando Brook), o bom-velhinho esteve todo o tempo presente. Só não se deu conta mesmo aquele que se sente o ultimo dos ultimos, o “filho preterido”, aquele cujo “complexo de inferioridade” não permitiu.
Por isso, eu só posso pensar que nossa “crítica” é, no fundo, órfã de teatro e de vitrine.
Ah, e orfã de aplauso também, rs.
Cordialmente,
U.
U.
Entendo o que você diz. E não vou dizer que não concordo.
Mas como tu disses: É gosto. E gosto é que nem cu. Eu tenho o meu e admiro o dos outros.
Sempre tive uma birra com Gerald Thomas. Sempre. E nem conhecia o trabalho do homem (?) (mito? grife?).
Daí eu li mais, e assisti mais e fui ver uma peça dele. E realmente naõ gostei.
Depois vi outra e adorei.
Mas porque digo isso, por um motivo escondido:
Uma vez ele fez uma trilogia chamada B.E.S.T.A. (Beatificação da Estética Sem Tanta Agonia) – que eu não vi – não tinha dinheiro para tanto -
E comecei a pensar nessa questã da estética. E tomei gosto pela coisa.
Sem melindres: Não vi o Brook, porque aquela estética não me interessa. Não agora.
Queria ver o homem (?) claro. li todos os livros dele em português.
Na verdade, queria era tomar uma cerveja com ele e ver o que ele fala sobre religião. Mas isso é outra história…
Alguém poderia fazer o favor de deletar os meus dois primeiros comentários? estão com erros… aproveita edelera este também.
Grato
Eu não acredito que vocês estavam no sábado para os “estudantes” de teatro e eu não encontrei vocês!?! Não acredito! Que merda!
Mais uma pergunta pra você, Mau: se odeia clichês, porque comentou sobre o fato de Peter Brook, o “gênio do teatro mundial”, ser aplaudido exatamente por ser Peter Brook, o “gênio do teatro mundial”?
Beijo!
U., uma dica: não há ressentimento nem ódio no coração, tampouco há conclusões definitivas no texto. Tudo o que você em seu comentário pergunta “qual o problema” eu replico: qual o problema de constatar essas informações, que pra mim alteram (e muito) a fruição da peça e o contexto em que ela se apresenta?
E que fique claro: isso não significa a predileção por formato X ou estética Y. E também não significa que as escolhas tornam um espetáculo “certo” ou “errado”, muito menos entro na questão do “mal gosto” que você menciona. Significa apenas que há muito mais a ser analisado e interpretado. Ignorar tudo isso é pasteurizar e neutralizar análises que vão pra além da peça.
Ainda não preciso tomar Lexotan pra escrever sobre teatro, grazadeus.
Grande abraço!
M., não seria louco de dizer que as condições de produção de qualquer obra não influenciem seu resultado, sua realização e, no limite, sua recepção. Contudo, acho forçoso atrelar uma crítica exclusivamente a estes critérios de análise, em claro detrimento dos elementos estéticos. Neste sentido, apenas observo que o seu pessoal e particular “mal-estar” em ver o bom velhinho ser ovacionado por um espetáculo absolutamente “simples” e “despretensioso” impediu-o de ver justamente o espetáculo que se apresentava. Seu papel de crítico, neste sentido, a meu ver foi exercido de forma extremamente limitada – uma limitação, agora sim, determinada pelas condições de sua produção: parcial e tendenciosa.
U.
M.
por favor, apague aquelas duas primeiras versões dos meus comentários que apresentam erros.
a correta é a das 1am.
grato.
Ah, e que se registre: não vejo mal nenhum em ser parcial e tendencioso, deste que não se reforçe apenas o senso-comum.