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Críticas

France do Brazil

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 23 November 2009

Uma noite francesa

Paris

São Paulo

O ano da França no Brasil tá acabando e, além de ter aprendido a fazer crepes e a caminhar calmamente pelas ruas carregando uma baguette debaixo do braço (acreditem, não é estereótipo, os franceses REALMENTE fazem isso nas ruas de Paris), vi muita coisa interessante – sobretudo na programação do SESC (que, suponho, deve ter gasto toda a verba da Mostra SESC, que rola todo ano, para bancar a programação vinda de um único país).

Além da diplomacia explícita e descarada desse calendário de eventos por todo o país (quem via o pessoal do consulado francês nos melhores lugares, sempre reservados pelo SESC na hora da abertura das vendas, sabe do que estou falando), outra característica que notei, na média, foi uma programação que revelava muito menos da França do que já supúnhamos mesmo sem nunca ter pisado no país de Napoleão.

Imaginando uma França onde Amélie Poulain quebra a casquinha do crème bruleé eternamente com uma colher ao mesmo tempo em que Juliette Binoche come chocolates, a pergunta é: qual a relação desse mundinho imaginário particular com o mundo ao seu redor? E qual a relação desse mundo ao seu redor com a França do rio Sena, da torre Eiffel, do Arco do Triunfo e do Louvre?

É desse mundo periférico, ao redor, que trata France do Brazil – uma das pouquíssimas obras apresentadas na temporada francesa do SESC que despertou algum questionamento sobre a própria França, não apenas o país, mas a instituição “França”.

Antes de continuar a crítica, um relato. Estive pela primeira vez na França em agosto, por alguns dias visitando Paris. Dentre todos os passeios triviais e as tentativas de fazer algo não tanto trivial, algumas imagens se fixaram em minha memória, todas elas envolvendo imigrantes. A primeira é a da chegada do trem de subúrbio – o RER B – à estação Gare du Nord, onde entravam dezenas de africanos e descendentes de africanos com roupas coloridas, turbantes, tudo tão característico. No subsolo eles eram maioria, mas no “andar de cima”, a cidade pertencia às hordas turistas (das quais eu também fazia parte).

A outra imagem, essa muito mais violenta, foi em frente ao palais du Chaillot, antiga sede da Cinemateca Francesa (quem se lembra do começo de Os Sonhadores, do Bertolucci, em que a personagem de Eva Green se acorrenta num protesto contra o fechamento da Cinemateca?). Era noite, milhares de turistas circulavam para ver a torre Eiffel dos jardins do Trocadéro, e a polícia prendia um homem negro imenso, que estava algemado, deitado no chão e chorando altíssimo, como uma criança. Aquele choro dolorido, que parecia de mais do que apenas uma pessoa sendo presa, ecoa em minha cabeça até agora.

Também tenho a recordação dos pedintes que ficavam sempre nos pontos turísticos perguntando às pessoas: “do you speak english?”. Se a pessoa dissesse que sim, simplesmente entregavam um papelzinho amarrotado, com um texto pedindo esmolas em inglês paupérrimo. Vi umas duas ou três vezes essas pessoas sendo abordadas por policiais franceses – possivelmente por parecerem ilegais, certamente por serem um incômodo à “ordem” da cidade.

Comentários turísticos à parte, voltemos à crítica. Como pensar num espetáculo que fala sobre a França sem deixar de lado que o país por si só possui uma identidade mesclada de muitas outras culturas – dos imigrantes legais e ilegais vindos de diversas regiões (muitas em conflito e relativamente próximas da capital francesa), das colônias africanas, de países pobres do leste europeu?

Dessa perspectiva, a diretora Eva Doumbia retrata outra França: além de mostrar o país por meio de suas periferias, busca ainda um improvável diálogo com o Brasil (o espetáculo foi realizado em parceria com o Núcleo Bartolomeu) – chegando ao ponto de “France” ser o nome de uma brasileira descendente de libaneses com a vida dividida entre as raízes brasileiras e a realidade alternativa que ela criara para si num lugar onde ela é estrangeira – a França.

Nessa salada de identidades, vêm à tona não apenas as relações de poder estabelecidas na metrópole sobre os indivíduos que não pertencem a ela, mas ainda a legitimação dessas relações de poder vinda dessas próprias pessoas que necessitam/querem pertencer a esse outro mundo – também querem fazer biquinho e morar naquela que é considerada por muitos turistas uma das cidades mais belas do mundo – seja lá o que isso signifique. Mais que isso, revela ainda as relações de pertencimento às origens, da ascendência, por mais distante que seja, ditando a personalidade, o destino e até mesmo a forma como enxergam suas origens e suas ambições.

A leitura da metrópole x colônia vai para além das relações entre a França e todo o mundo que se estabelece à sua margem – expande-se para o primeiro e terceiro mundo em geral, e mais ainda: para centro e periferia de grandes cidades, como São Paulo.

Para dar conta de materializar tudo isso em cena, a forma do espetáculo também é composta por uma linguagem híbrida, que miscigena territórios e origens para construir algo que dificilmente se define como teatro, dança, música, vídeo ou performance, somando tudo isso ainda à pesquisa do Núcleo Bartolomeu da linguagem do hip-hop.

Imaginou a bagunça? Pois é isso mesmo. Uma colcha de retalhos que, se não fossem tão tortos e tão irregulares, talvez não dessem conta de revelar tantas contradições a respeito de conceitos tão complexos e tão controversos como identidade e pertencimento – tanto que não consigo imaginar a montagem acontecendo sem seus ruídos, seus excessos, suas sujeiras, suas margens. Não é um espetáculo formatado para ser um espetáculo – antes disso, parece um grande fluxo de ideias que se concatenam em diversas línguas, sem abrir mão de levantar todas as ressalvas e cansaços que a experiência já pressupõe.

Esse hibridismo aparece em diálogos que acontecem em diferentes idiomas, depoimentos que se complementam com a cena e que acontecem simultaneamente a movimentos de dança, de uma forma tão intensa quanto confusa – somando-se ainda a, por exemplo, depoimentos monológicos, abstrações metalinguísticas (muito do que aparece em cena remete à obra de France, que é escritora) e conflitos melodramáticos – caso da relação de France com sua primeira namorada, Lala (que ora mostra-se como mais um dos inúmeros excessos – ou margens, ou periferias – do espetáculo, e ora converte-se em mais uma parte do jogo metalinguístico, com direito até a uma cena quase pirandelliana de personagens discutindo com o autor sobre sua própria concepção). Sem contar a relação dos atores brasileiros em cena, juntamente com os atores de diversas outras origens, fazerem parte de uma programação que, em alguma análise de sua divulgação, promove apenas a cultura de um país.

Mas a contradição maior (é, ainda não acabou!) está fora do espetáculo, com a montagem sendo apresentada apenas por duas noites, num teatro para algumas centenas de pessoas – mas ocupado por 20 ou talvez 30% de sua capacidade. A sessão que assisti foi quase que exclusiva para a imprensa e convidados, enquanto poderia – e deveria – ser vista por um público mais periférico e diverso, que indiretamente era retratado ali naquele palco – mas que dificilmente estaria presente no SESC Santana numa noite de sexta-feira.

Ironicamente, o SESC Santana, apesar de estar num dos bairros mais nobres da zona norte, é relativamente distante do centro da cidade e rodeado de “periferias” – com quem abre mão de dialogar, ao menos em sua programação teatral, para dar espaço sempre a produções voltadas ao público que não é dali. A pauta daquele teatro, juntamente com a frágil divulgação de sua programação, revelam o quanto as periferias, colônias e margens da metrópole civilizatória e opressora é facilmente reprodutível nas mais diversas escalas, dentro e fora da ficção.

3 pessoas da Bacante conversando, na noite anterior, sobre procedimentos para obtenção de uma nacionalidade estrangeira que concedesse benefícios de europeu a nós, brasileiros descendentes de alguma outra coisa que não somente brasileiros.

E você, o que acha?

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