Adivinha quem é?
Em respeito à Semana do Anônimo Feliz, não identificaremos o autor deste texto.
Foto: Vitor Damiani
Depois de assistir A Julieta e o romeu, me interessei pelo trabalho do Barracão Teatro, em cartaz no Teatro Fábrica até 19 de agosto, e parei para ler o programa da peça Freguesia da Fênix. Não me empolguei muito, apesar da foto bonita. Culpa da sinopse, que desanima já de cara, lembrando um espetáculo infantil didático. Mesmo assim, fui ver e, de fato, a história construída em processo colaborativo passa longe de ser o destaque do espetáculo.
A trajetória do Barão Portavia, que volta da eternidade pra tentar tirar sua empresa do buraco, embora tenha sido escrita com base em uma pesquisa especificamente sobre a cidade de Campinas (que ganha o nome fictício de Fênix), poderia estar falando de qualquer lugar do mundo, pois o que não faltam são italianões se revirando no túmulo ao ver tataranetos destruindo os frutos de seus trabalhos. No entanto, além de não trazer muitas novidades, a narrativa se perde em um romance e o pessoal se esquece de nos contar o que rolou com a tal empresa que estava indo à falência.
Tudo bem. Como eu já avisei, a história é o que menos importa na montagem. Baseado nos princípios da Commedia dell’Arte e utilizando máscaras, o que o grupo faz de melhor é brincar com o que acredita ser os principais arquétipos da atualidade e é daí que surgem peruas, empresários corruptos, taxistas, jornalistas, malandros, mães-de-santo, faxineiras e vendedores de semáforo.
Interpretados com muito exagero, alguns personagens não convencem e caem no inverossímil, enquanto outros são tão reais em seu absurdo que conseguem conquistar o público. É o caso de Sabiá, namorado da espevitada faxineira Delzimar e vendedor com muita lábia, que delicia a platéia com sua malemolência, mesmo depois de molhar a galera com seu limpa-vidros.
É neste personagem que o General Fusel (companheiro do Barão Portavia em suas aventuras) resolve “baixar” para tentar agir no mundo dos vivos de maneira mais direta. Sabiá, que é “católico, apostólico, brasileiro” reluta muito até aceitar ir a um terreiro de Camdomblé para expulsar o encosto. Quando vai, porém, nos concede momentos incríveis. O ator Esio Magalhães (cuja expressão corporal impressiona também no espetáculo A Julieta e o romeu) interpreta Sabiá, Sabiá tomado pelo General e Sabiá tomado por Tonho (fantasma que ajuda a mãe-de-santo Doniná). Tudo na mesma cena. Dá até pra acreditar que são três atores diferentes, sendo dois deles vindos do além para o corpo do Esio. Não bastasse isso, nas cenas anteriores o ator também encarou Neto, o herdeiro do Barão e atual administrador da empresa.
Aos poucos, vamos descobrindo não só o intérprete de Sabiá, mas todos os atores do grupo interpretam pelo menos dois personagens. E então entendemos por que algumas cenas parecem tão desnecessárias: estão ali só pra dar tempo dos atores mudarem completamente de figurino e de postura. Uma pequena barriga que produz diálogos dispensáveis, mas que relevamos facilmente enquanto envolvidos naquele jogo de “adivinha quem é?” que os atores propõem, num acordo tácito com a platéia. Então, atuar vira uma brincadeira. E assistir vira uma brincadeira. E a gente até se esquece que há empresários desonestos e donos de jornal corruptos em Campinas e no resto do mundo. Mas só até pegarmos o jornal do dia seguinte.
Quase 3 personagens por ator

