Em campanha por plástico-bolha em todos os espetáculos
Cenário – um andar qualquer da Unidade Provisória SESC Avenida Paulista. A peça começa no foyer e se desenvolve dentro do espaço teatral.
Personagens – Ator I, Atriz I, Atriz II, Atriz III, casal de senhores, homem do elevador, mulher do elevador, crítico, conhecido do crítico, moça da terceira fila, platéia.
(Público está no foyer, com papel e caneta na mão, em um clima de descontração. Esperam o início da peça Fuga!, que faz parte do projeto Primeiro Sinal, do qual já participou, por exemplo, o espetáculo curitibano Os Leões )
Ator I: Já respondeu a pergunta? Posso pegar seu papel?
Crítico: Mas eu não recebi papel nenhum.
(Ator I sai e volta instantes depois, com uma meia folha, que entrega para o crítico. A folha traz a seguinte questão: “O que é preciso para dançar?” Crítico responde e entrega a folha para o ator I, que se dirige para o meio do público)
Ator I: Por favor, não desliguem os celulares, mantenham algum tipo de contato com a realidade lá fora. Eu sei que algumas pessoas já desligaram, e dá aquela preguiça de ligar. Mas liguem. Se quiserem atender o celular no meio da peça, sintam-se à vontade. Se quiserem tirar foto com flash, também pode.
Senhora da platéia (dirigindo-se ao marido): Nossa. Nunca vi isso. Muito estranho!
Crítico (para ele mesmo): Droga! Devia ter trazido minha máquina fotográfica!
(Pausa na cena. 1 hora depois, o cenário é outro. Agora, crítico e um conhecido do crítico estão na porta do elevador do SESC, esperando pela carona para o térreo.)
Conhecido do crítico: E aí? O que achou?
Crítico (meio informal): Logo no início, eles tentam romper com a quarta parede e buscar uma interação. Com isso, tentam tirar o público de uma posição confortável de mero espectador, e fazer com que ele tenha uma experiência questionadora – que mistura realidade e ficção. Brincam com a própria forma do espetáculo e com as possibilidades de experiências que o público e ator podem ter dentro de um teatro.
(Pausa. Cena volta ao auditório, 50 minutos antes. Atriz I começa a imitar gestos de pessoas da platéia)
Atriz I: Agora vou fazer um pout-pourri de todos os personagens que fiz no teatro. (Começa a andar, praticamente normal, fazendo barulho ao pisar no plástico bolha. Atriz I busca romper com suas formas de atuações anteriores.)
(Depois de movimentos de dança contemporânea, e frases que dão idéia de tempo e medos, advindos de experiências e pesquisa dos quatro artistas, ator I se dirige ao centro)
Ator I (Pergunta para o público): Vocês estão com seus celulares ligados?
Moça da terceira fila: Não.
(Risos)
Ator I: A senhora poderia ligar seu celular?
Moça da terceira fila: Claro.
Ator I: Poderia me ligar? Se não tiver crédito, pode ligar a cobrar mesmo. Temos créditos só para isso.
(Risos. Moça liga. Ator I deixa o seu celular tocar, e começa a dançar ao som do toque do aparelho. Atriz I, II e III fazem a mesma coisa.)
(Pausa. Avanço no tempo. Crítico e conhecido do crítico continuam a conversa em frente ao elevador, depois do espetáculo)
Crítico: Sabe a cena em que os atores pedem pra ligar pra eles? A proposta é a de que o público interfira na cena. Em vários momentos, esse “namoro” com a platéia traz a proposta de fazer com que os espectadores sejam parte do espetáculo, ou como diz a sinopse “trazer o público para dentro da cena, e, em alguns momentos, os performadores para fora dela”. Porém, isso acontece de forma muito tímida durante toda a peça. Essa interação não chega a ser completa e provocadora. O público continua confortável em sua cadeira, se divertindo com a possibilidade de seu celular tocar ou de um olhar perdido do ator encontrar o dele. Um não invade o espaço do outro.
(Pausa. Em frente ao elevador, ainda estão o crítico e o conhecido.)
17.999 bolinhas de plástico-bolha para estourar com o pé


adorei a crítica
olá,
Gostei muito da crítica. Inteligente, gostosa de ler e com conteudo pra gente refletir e (re)alimentar o trabalho.
Muito obrigado
Ator I
Obrigada, Edus.
E voltem sempre.
Bjos.
Frente do computador – realmente é muito bom estourar bolinhas, o grande trabalho é continuar percebendo-as…
Obrigada pelo belo ponto de vista!
Atriz II, eu acho…