Críticas

Fuga!

por Leca Perrechil

4 Comentários 18 March 2008

Em campanha por plástico-bolha em todos os espetáculos

Cenário – um andar qualquer da Unidade Provisória SESC Avenida Paulista. A peça começa no foyer e se desenvolve dentro do espaço teatral.

Personagens – Ator I, Atriz I, Atriz II, Atriz III, casal de senhores, homem do elevador, mulher do elevador, crítico, conhecido do crítico, moça da terceira fila, platéia.

(Público está no foyer, com papel e caneta na mão, em um clima de descontração. Esperam o início da peça Fuga!, que faz parte do projeto Primeiro Sinal, do qual já participou, por exemplo, o espetáculo curitibano Os Leões )

Ator I: Já respondeu a pergunta? Posso pegar seu papel?

Crítico: Mas eu não recebi papel nenhum.

Ator I: Vou pegar para você.

(Ator I sai e volta instantes depois, com uma meia folha, que entrega para o crítico. A folha traz a seguinte questão: “O que é preciso para dançar?” Crítico responde e entrega a folha para o ator I, que se dirige para o meio do público)

Ator I: Por favor, não desliguem os celulares, mantenham algum tipo de contato com a realidade lá fora. Eu sei que algumas pessoas já desligaram, e dá aquela preguiça de ligar. Mas liguem. Se quiserem atender o celular no meio da peça, sintam-se à vontade. Se quiserem tirar foto com flash, também pode.

Senhora da platéia (dirigindo-se ao marido): Nossa. Nunca vi isso. Muito estranho!

Marido da senhora da platéia: Sim, muito estranho!

Crítico (para ele mesmo): Droga! Devia ter trazido minha máquina fotográfica!

(Público se dirige ao auditório, composto por uma arquibancada e um espaço de encenação coberto por plástico-bolha – mais conhecido como aquelas bolinhas que protegem os eletrodomésticos e que são muito, muito gostosas de estourar. Elas cobrem todo o chão e a parede do fundo do espaço de encenação. O público chega a pisar nelas no caminho para os lugares na primeira fileira – algumas pessoas pisam bem devagar, como se não quisessem fazer barulho ou chamar atenção. Outras já sentem prazer no ato. Em cena: atriz I, atriz II, atriz III e ator I, eles começam a observar a platéia.)

(Pausa na cena. 1 hora depois, o cenário é outro. Agora, crítico e um conhecido do crítico estão na porta do elevador do SESC, esperando pela carona para o térreo.)

Conhecido do crítico: E aí? O que achou?

Crítico (meio informal): Logo no início, eles tentam romper com a quarta parede e buscar uma interação. Com isso, tentam tirar o público de uma posição confortável de mero espectador, e fazer com que ele tenha uma experiência questionadora – que mistura realidade e ficção. Brincam com a própria forma do espetáculo e com as possibilidades de experiências que o público e ator podem ter dentro de um teatro.

(Pausa. Cena volta ao auditório, 50 minutos antes. Atriz I começa a imitar gestos de pessoas da platéia)

Atriz I: Agora vou fazer um pout-pourri de todos os personagens que fiz no teatro. (Começa a andar, praticamente normal, fazendo barulho ao pisar no plástico bolha. Atriz I busca romper com suas formas de atuações anteriores.)

(Depois de movimentos de dança contemporânea, e frases que dão idéia de tempo e medos, advindos de experiências e pesquisa dos quatro artistas, ator I se dirige ao centro)

Ator I (Pergunta para o público): Vocês estão com seus celulares ligados?

Moça da terceira fila: Não.

(Risos)

Ator I: A senhora poderia ligar seu celular?

Moça da terceira fila: Claro.

Ator I: Poderia me ligar? Se não tiver crédito, pode ligar a cobrar mesmo. Temos créditos só para isso.

(Risos. Moça liga. Ator I deixa o seu celular tocar, e começa a dançar ao som do toque do aparelho. Atriz I, II e III fazem a mesma coisa.)

(Pausa. Avanço no tempo. Crítico e conhecido do crítico continuam a conversa em frente ao elevador, depois do espetáculo)

Crítico: Sabe a cena em que os atores pedem pra ligar pra eles? A proposta é a de que o público interfira na cena. Em vários momentos, esse “namoro” com a platéia traz a proposta de fazer com que os espectadores sejam parte do espetáculo, ou como diz a sinopse “trazer o público para dentro da cena, e, em alguns momentos, os performadores para fora dela”. Porém, isso acontece de forma muito tímida durante toda a peça. Essa interação não chega a ser completa e provocadora. O público continua confortável em sua cadeira, se divertindo com a possibilidade de seu celular tocar ou de um olhar perdido do ator encontrar o dele. Um não invade o espaço do outro.

(Pausa. De volta ao espetáculo, atores começam a dar tapas uns nos outros. Dançam ao som de um MP3 pendurado no teto. Ator I liga para o celular da senhora da terceira fila e conversam sobre banalidades. De um MP4, a platéia assiste ao vídeo que mostra um olho. Dança contemporânea. Reflexões pessoais. Dança contemporânea com um elástico.)

(Pausa. Em frente ao elevador, ainda estão o crítico e o conhecido.)

Crítico: O mais interessante da peça são as imagens mesmo, a idéia do plástico-bolha, em que qualquer movimento em cena é escutado, as percepções são aguçadas. A idéia do uso da tecnologia também é bacana, mas eles não exploram muito, assim como a idéia do tipo de interação. Quando eles ligam para os espectadores, fica um pouco no senso comum – perguntas de “você está gostando”, “e aí?”. Dá pra ver que é um contato que fica só na superfície. Quando o espectador colocou seu celular no viva voz, a cena ficou mais legal. Nesse momento, fiquei pensando se foi combinado isso. Mas gosto de pensar que a idéia foi mesmo do senhor na platéia… hehehe. As reflexões e frases que eles falam durante a peça acabam sumindo em detrimento das imagens. O que fica mesmo na memória, é muito mais o que é visto, e não o que é ouvido. Mas acho que é um início de pesquisa. Como a peça faz parte daquele projeto do SESC, de grupos jovens em início de carreira, acho muito válido esse tipo de experimentação. E você? O que achou?

Conhecido do crítico: Ah, eu gostei.

(Porta do elevador abre. Crítico e conhecido do crítico entram, junto com um monte de gente.)

Homem (dentro do elevador, reclama para uma mulher): Os caras estão parados no palco, as pessoas já começam a rir. Nunca vi, riem de tudo. Isso é sintoma da TV, em que tudo é comédia.

Mulher: Unhum.

Homem: E agora, no teatro, tudo é simbólico, né?

(Porta do elevador abre.)

17.999 bolinhas de plástico-bolha para estourar com o pé

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Edu carvalho says:

    adorei a crítica

  2. Eduardo Albergaria says:

    olá,

    Gostei muito da crítica. Inteligente, gostosa de ler e com conteudo pra gente refletir e (re)alimentar o trabalho.

    Muito obrigado

    Ator I

  3. Leca Perrechil says:

    Obrigada, Edus.
    E voltem sempre.
    Bjos.

  4. Ana Clara Amaral says:

    Frente do computador – realmente é muito bom estourar bolinhas, o grande trabalho é continuar percebendo-as…
    Obrigada pelo belo ponto de vista!
    Atriz II, eu acho…


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