Nana Nenê que a Narizinho vem Pegar…
Aviso inicial: Cuidado, este texto tem spoilers! Se você não sabe o que é um spoiler, existe um P.S. ao final do texto explicando.
Gota D´Agua pode ser considerado um dos grandes clássicos do teatro musical brasileiro. Adaptado nos anos 70, a partir da Medéia de Eurípedes, por Chico Buarque e Paulo Pontes, o musical ficou famoso com a montagem protagonizada por Bibi Ferreira em 1977.
De lá para cá foram inúmeras as versões deste musical, com recente destaque para Gota D´Água- Breviário de Heron Coelho e Georgette Fadel, que esteve em cartaz entre 2007 e 2008 nos palcos paulistanos. Ao ser divulgada a notícia de uma nova montagem deste texto surge sempre a expectativa sobre que novidades esta releitura trará.
E é aí que reside talvez o grande problema: a peça em cartaz no Sesc Vila Mariana, dirigida por João Fonseca e com direção musical de Roberto Bürgel, pode ser acusada de qualquer coisa, menos de desrespeitar (mesmo que no “bom sentido”) o original, uma vez que é bastante fiel e mantém toda a estrutura do texto, fugindo de ousadias ou de releituras mais abrangentes da obra de Buarque e Pontes. Com tudo muito quadradinho, a dramaturgia, entre outras coisas, é extremamente respeitada. Não espere portanto ver, ao final da montagem, Jasão, Joana e as crianças fazendo compras alegremente com a Sarah Jessica Parker no Shopping Cidade Jardim e cantando os versos iniciais de Basta um Dia.
Esta fidelidade termina por gerar outro problema: apesar de toda sua competência técnica e artística, o musical é bem longo (como também era a versão de Coelho e Fadel), porém essa duração é agravada pela percepção de que nada de novo está sendo mostrado. Adicionalmente, em alguns momentos, o espetáculo sofre com a queda de ritmo, em particular em alguns solos musicais que não tem o mesmo brilho vocal ou artístico dos demais trechos da peça, cujos pontos altos são as cenas musicais com todo o conjunto dos atores e a interpretação de Izabella Bicalho, no papel de Joana.
Este desnível entre as cenas é constatado pela reação da platéia: o público paulistano que assistia à montagem não seguia a “regra” de aplaudir ao término de cada número musical. Esta aparente falta de “etiqueta musical” (talvez um pouco de timidez ou talvez o público não estivesse realmente impressionado com o que via e ouvia até aquele momento) termina quando Izabella Bicalho participa do seu primeiro número e arranca os primeiros aplausos da noite, rotina que prossegue após o término de todos as canções de que ela participa. As músicas, cantadas com garra e com todo o ódio de mulher ferida, rapidamente conquistam a platéia.
Izabella, pouco vista nos palcos paulistanos, recentemente esteve no musical Império, de Miguel Falabella, e começou sua carreira como atriz mirim, participando, entre outros, das novelas Água Viva e Roque Santeiro, e também de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, em que interpretou Narizinho por duas temporadas.
Apesar da protagonista ser o grande destaque do elenco, os demais atores se destacam nos números em conjunto, porém são um caso à parte quando analisados individualmente. Todos representam as típicas personagens cariocas e a interpretação é reforçada nas caricaturas para arrancar os risos da platéia. Esta opção funciona: o efeito cômico é garantido e a platéia gargalha com as piadas. Fica, entretanto, a impressão que todos eles têm cara de coadjuvante do Sítio do Pica-Pau Amarelo… De repente começo a me lembrar de nomes como Zé Carneiro, Garnizé ou Tio Barnabé… Ou será que sou eu que estou impressionado e sob os efeitos da Narizinho? O Sítio do Pica-Pau Amarelo nem era no Rio de Janeiro…
É interessante também a participação das crianças no espetáculo. Termina sendo desnecessária a opção por mostrar a cena final de forma tão explícita. Outras opções poderiam ter sido utilizadas sem perder o efeito dramático. Uma súbita faceta de assistente social se apodera de mim e, em função da longa duração da peça, fico preocupado com o horário de dormir dos atores mirins: estas crianças já deveriam estar na cama há horas!! Mas acho que deve ser algo bem administrado pela produção da peça, algo do tipo: “peraí que você já vai morrer envenenado e depois você pode ir dormir”.
(Cuidado! Perigo! Não aceite comida oferecida pela Narizinho.)
O cenário é simples e eficiente. Alguns praticáveis com degraus são movimentados pelos atores e compõem a maior parte dos ambientes da peça. Ao fundo, uma banda composta por quatro músicos toca ao vivo a trilha sonora da peça sobre uma estrutura de madeira, que vai revelar, na passagem do primeiro para o segundo ato, um altar religioso repleto de imagens, dando a deixa para os rituais que Joana irá realizar. Sinal dos tempos é que, na época da primeira montagem, no final dos anos 70, as crianças morriam de medo da Cuca, a bruxa mais aterrorizante do pedaço. Hoje, passados trinta anos, quem aterroriza as crianças é a Narizinho, macumbeira de mão cheia.
1 atriz que vale o espetáculo
P.S.: Se você não sabe o que é spoiler:
Spoiler é uma espécie de “estraga-prazeres”. Em um spoiler são contados o final de um filme, os acontecimentos do próximo episódio do seu seriado favorito e assim por diante. Esta crítica tem um spoiler porque é revelado que a Narizinho, quer dizer, a Joana, envenena seus dois filhos e se suicida para ferir o seu ex, Jasão, que se casou com uma patricinha mais nova, uma mosca morta que era filha do Creonte. Se você realmente não sabia que a peça terminava assim, fica aqui uma sugestão de leitura de outra peça do Chico. Lê logo esta outra peça antes que algum espírito de porco estrague a surpresa e conte que o Calabar morre…



Não sei porque razão insiste em um personagem que nem é lembrado pela grande maioria que vai assistir o espetáculo, me parece que paulista gosta mesmo é de diminuir o trabalho dos cariocas e do resto do país também, acho válido informar que sou gaúcho e hoje residente no Rio, fui assistir ao espetáculo e não constatei nennhum dos problemas aos quais relata em seu texto, o interessante talvez é a recepção paulista, que não é lá tão confortavél para com os forasteiros ,pois ,um espetáculo que realizei com sucesso de público e crítica no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro não foi muito bem aceito em São Paulo, será que os paulistas são muito exigentes ,ou ninguém mais sabe fazer teatro?
Nunca vi melhor espetáculo em toda minha vida em se falando de musicais salvo a Novisa Rebelde espectada a poucos dias , que tem um grande produção e alguns problemas sim, mas falar que uma obra prima, como este espetáculo ,só tem Izabela como valia , nossa então teremos que rever nossos conceitos do bem fazer teatral e correr atrás somente do que nos é contemporâneo.
Nós artistas queremos saber se temos capacidade de igual execusão as obras que nossos mestres nos legaram, sem perder o brilho e sem contorcer os nossos cérebros ao altamente criativo e contemporâneo.
Antes de ser crucificado , por favor não sabia da proposta do site, mas mesmo assim fica minha indignação.
A “Gota d´água” do Teatro Fábrica foi talvez a peça mais impactante que eu já vi no teatro na vida – não que seja um habitué do teatro.
Aquela tal Georgette Fadel, rapaz, é inacreditável. Parece que ali no palco temos umas oito atrizes. E é só ela e seu metro e meio de altura.