Críticas

Graphic

por Leca Perrechil

1 Comentário 15 January 2008

Do papel para o palco

Fotos: Divulgação
Curriculum Vitae: A peça Graphic marca a estréia da companhia paranaense Vigor Mortis (10 anos de chão) em São Paulo, com esta primeira temporada no Centro Cultural São Paulo. Ganhou o Gralha Azul (prêmio de grande magnitude de teatro no Paraná, apesar do nome peculiar) em três categorias – melhor texto, melhor direção e melhor espetáculo. A peça já se apresentou em Curitiba no final de 2006, no Festival Internacional de Londrina, entre outros. Além disso, recebeu indicação ao troféu HQ Mix, e em 2007 foi indicado ao Prêmio Shell do RJ para melhor autor (Paulo Biscaia Filho).

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Com toda essa expectativa, projetada em cena antes do início do espetáculo ao melhor estilo cinema, assisti Graphic, resultado de uma pesquisa do grupo que une quadrinhos, cinema e teatro. Grande parte do atrativo está nas projeções de diferentes gêneros e estilos de HQ em um enorme cubo giratório no meio do palco. Ele contém uma das superfícies vazadas, coberta com uma tela transparente, possibilitando tanto ver dentro, quanto projetar imagens no tecido ao melhor estilo Felipe Hirsch (não que Hirsch tenha inventado, mas que ele usa bastante esse recurso, usa). Esse cuidado com o cenário possibilita projetar ilustrações nas quatro laterais e expandir o espaço cênico para dentro, ao redor e em cima do cubo.

A história se passa em torno de três personagens. Artie (Leandrodanielcolombo – escrito tudo junto mesmo!!!), um desenhista de manuais de instrução com tendências suicidas. Rebecca (Carolina Fauquemont) uma executiva de finanças da mesma editora de Artie, obcecada por estatística, mas que já tivera um fanzine de HQ desenhado por ela. E Raf (Rafaella Marques), que “enfeita” muros com stencils. O que eles têm em comum além de terem feito o mesmo curso de desenho? Nenhum está satisfeito com a própria vida profissional, mas continuam com seus trabalhos medíocres, enquanto usam pequenos artifícios para dar sentido ao dia-a-dia. Rebeca, por exemplo, é viciada nas previsões de biscoitos da sorte, enquanto Artie tira todo dia um papel de um pote de vidro (recurso sugerido por sua psicóloga) indicando uma ação que terá que fazer ao longo do dia, como se fosse um incentivo para continuar a existir. Quem assistiu a peça O Natimorto, de Lourenço Mutarelli, com direção de Mário Bortolotto, não deixará de lembrar do personagem, também à parte da sociedade, que usa as figuras atrás dos maços de cigarro como se fossem cartas de tarô, para prever como será seu dia.

A expectativa de conseguir mudar algo em suas vidas ao trabalharem com o que realmente gostam ilumina os três quando surge uma vaga para um novo desenhista profissional na editora em que Artie e Rebecca trabalham. Eles recordam de seus antigos personagens em quadrinhos, como se estes fossem as expectativas que tinham do futuro quando jovens, e partem para a tentativa de mudança. O ponto forte do espetáculo é quando esses desenhos idealizados, lembrados e narrados pelos três são projetados no cubo ao longo da peça, criando uma estética propícia para o universo de HQ.

Um dos momentos mais divertidos é quando Artie pensa em maneiras de se matar em forma de um manual de instruções do suicida – com direito a projeções de figuras de um homem cortando os pulsos, com aquele rosto feliz dos manuais comuns, e de outro rapaz com a corda no pescoço fazendo sinal de positivo com o dedão.

O grupo brinca com os diferentes tipos de narrativas e gêneros de HQs. Aparecem, por exemplo, referências a mangás, como em uma cena que lembra muito Kill Bill, com direito a sangue falso jorrando a solta por aí. Outra possível referência é mostrada quando os três personagens começam a dançar, lembrando uma cena do filme Bande à Part, popular entre os fãs de Godard. No entanto, alguns momentos são menos elaborados, como é o caso do personagem China, cuja comicidade consiste apenas em falar com sotaque e tocar músicas inadequadas – uma fórmula que nem sempre funciona.

Para os fãs de histórias em quadrinhos, o que mais chamará a atenção será o visual repleto de projeções de HQ, além, é claro, das referências. Já aqueles que, com um lápis, conseguem desenhar no máximo uma casa, um sol e aquelas gaivotas em V, poderão se entreter com a narrativa (pelo menos até determinado momento. Como não to afim de contar partes relevantes de um quase-final, quem quiser conversar sobre esse texto, pode mandar uma cartinha para a redação da Bacante). Por sua vez, quem gosta de teatro poderá apreciar o que acontece quando linguagens diferentes são colocadas em um liquidificador – apesar da interpretação das duas atrizes não ser grande coisa.

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Com 3 riscos tenho um guarda-chuva (nossas sombrinhas são mais complexas do que as do Toquinho e do Vinícius)

Adendo: As impressões sobre essa peça podem ter sofrido distorções graças ao público presente (danadinhos!!!). Alguns dos espectadores riam alto para chamar a atenção, falavam em voz alta e soltavam exclamações quando os atores sugeriam relações mais íntimas entre eles. Mais de uma vez, dava para ver as lanternas de um segurança pedindo para quem estava falando se comportar.

O que a galera acha

1 comentário

  1. l. says:

    Definitivamente, duas atrizes que (são uma bosta) não são grande coisa.


E você, o que acha?

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