Críticas

Guerra Cega Simplex – Feche os Olhos e Voe ou Guerra Malvada

por Paulo Bio Toledo

1 Comentário 05 June 2009

Pela Destruição do excedente

Foto: Raissa Gregori

raissa_gregori

Obs.: a crítica se impôs nesse caso como uma série de fragmentos… Não houve jeito… sempre que se tentava unir as coisas, os conectivos foram insuficientes, e tudo parecia artificial demais… O raciocínio, aqui, jaz desmiolado.

Duas imagens:

  1. 1. Um porta-caneca. Uma caneca em cada compartimento. No entanto, há uma caneca a mais. Depois de alguns minutos realocando as canecas, sempre, inevitavelmente, sobra uma. A caneca que, no fim, fica de fora é enrolada num pano. Um martelo. Estilhaços de porcelana.
  2. 2. Uma pequena piscina-ilha é o cenário do Ato 11 (e último) da peça. Lá cabem quatro atores. No entanto, são cinco os que atuam. Por alguns minutos eles realocam-se. Quando um entra, outro sai, mas sempre, inevitavelmente, sobra um. As luzes se apagam.

Uma frase:
A analogia, que transita pela peça Guerra Cega Simplex – Feche os Olhos e Voe ou Guerra Malvada é entre a guerra e a cegueira. Todavia, em algum momento do espetáculo, projeta-se frase cujo conteúdo é próximo deste: ‘Nas tragédias clássicas, o herói caminhava cego rumo a seu destino trágico; hoje, no capitalismo, o homem caminha livre rumo a seu destino trágico’.

O Contexto Informativo, que deveria vir no começo da crítica:

Armin Petras é um jovem diretor alemão, morou alguns anos na RDA, e hoje vive em Frankfurt. Destacou-se, no cenário teatral alemão, com direções de textos de Heiner Müller (como, por exemplo, A Estrada de Wolokolamsker). Armin Petras também é dramaturgo, porém sob o pseudônimo/alter-ego de Fritz Kater. Todavia, Fritz Kater não é um nome qualquer, trata-se de um dos mais famosos anarquistas alemães, grande referência para o anarcosindicalismo europeu; assassinado em 1945 quando uma bomba explodiu em sua casa matando também seus filhos e netos.

O Coletivo Bruto uniu-se com a proposta de “misturar linguagens” (ou, melhor dizendo: “criar intervenções poéticas de caráter polifônico por meio da junção de diversas linguagens artísticas e/ou diferentes históricos de criação”, do blog do grupo) proposta esta contemplada com Edital do Proac, que “viabilizou a montagem” (segundo os atores, em debate após o espetáculo, eles só montaram a peça, pois ganharam o edital). A ideia então foi buscar um texto que pudesse abarcar tais anseios. Guerra Cega Simplex – Feche os Olhos e Voe ou Guerra Malvada, de Armin Petras (Fritz Kater) e Pernille Sonne apareceu então como possibilidade. Trata-se de um bloco compacto de palavras dividido em 11 atos, com muitas referências (como, por exemplo, à famosa história em quadrinhos Maus, de Art Spiegelman, tragédias de Sófocles etc.), misturando descrição de imagem, texto e rubricas sem qualquer pontuação. O acúmulo de referências é permeado com a história de simplexo, um menino cuja vida se mistura com a Guerra dos 30 anos no séc. XVI (trata-se de personagem da fábula alemã escrita por Hans Jakob Christoffel von Grimmelshausen: “Simplicissimus Simples, O Aventuroso”), e de Pernille Sonne, que, segundo o autor, não é uma personagem fictícia, mas uma bailarina cega que o ajudou a escrever as respectivas passagens.

Sobretudo, o caos fragmentado predomina na montagem. Dança, teatro, projeção em vídeo, instalação cenográfica etc. dão o tom da “mistura de linguagens” almejada pelo novo grupo.

Espasmos de pensamento:

… A guerra, na ótica da produção e do consumo pode ser vista como uma atividade natural, e inevitável, do homem capitalista quando o excedente impede o desenvolvimento progressivo da macroeconomia. Seria, então, uma auto-regulamentação óbvia das coisas, assim como se espera do Livre-Mercado Liberal com suas oscilações cíclicas. …

… A guerra é má. Cruel. Deforma as pessoas. Mas ela está em nós. Somos nós a guerra. Nossa natureza é destrutiva (como a de um peixe Beta). Cegos aniquiladores de nós mesmos. Num mundo sem qualquer vencedor, apenas vencidos…

… O espetáculo cansa. Meu irmão sai dizendo que o excesso de coisas faz com que não prestemos atenção em nada. …

… A composição radical da dramaturgia, com milhões de referências e analogias com a História alemã, lembra demais a obra de Heiner Müller… Entretanto, aqui, as coisas parecem mais frágeis, menos viscerais, às vezes didáticas, às vezes embaralhadas sem propósito. …

… A encenação é pouco potente. Perdem-se, em muitos momentos, no formalismo das resoluções cênicas (microfone, projeção, efeitos, filmagem ao vivo etc.) cuja necessidade é questionável. As múltiplas referências de linguagem e de signos não possibilitam uma experiência sensitiva significativa. Sendo assim, a impressão é a de que tudo tem de ser compreendido cognitivamente, racionalmente, quando os fragmentos dizem o contrário. O resultado final dessa equação é aquela velha sensação de que o que está sendo dito está muito acima de nossa compreensão – o que, na grande maioria das vezes, é um equívoco ou uma artimanha sobre a qual se apóia o artista. …

… Um avião desapareceu sobre o oceano atlântico, a USP foi invadida pela PM. … e no Brasil não há guerra… só chacinas e massacres…

111 milhões de mortos em conflitos bélicos só no séc. XX, de um total de 150 milhões na História da humanidade

O que a galera acha

1 comentário

  1. Vi o espetáculo aqui em Natal, no Barracão Clowns. Fragmentar o pensamento, ou apresentá-lo em forma de imagem foi provocante. É fato: bolhas de sabão e homens explodem em busca do inusitado universo da destruição. Simplex explodiu minha racionalidade. Gostei demais.


E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).