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Críticas

Habeas Corpus

por Maurício Alcântara

1 Comentário 15 July 2008

Circular do Subterrâneo

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Fotos: Maurício Alcântara

Esta é a primeira vez que visito São José do Rio Preto e, logicamente, primeira vez que visito seus teatros. No entanto, a cada nova sala que eu, “estrangeiro”, piso, a sensação é a de já ter passado por ali diversas vezes antes, para ver inúmeras produções diferentes. Fato é que quando uma peça é concebida dentro de convenções espaciais (seja palco italiano, arena, semi-arena, cartoucherie ou baby-cartoucherie), elas cabem praticamente em qualquer espaço e, por conseqüência, todos os espaços são muito parecidos – pra não dizer que são, na maioria, idênticos.

Em seu início, Habeas Corpus mostrava-se mais um espetáculo limitado ao formato retangular das salas de apresentação. Tão retangular quanto o espaço, mostrava-se também a vociferação de um texto verborrágico, de um homem que está sendo julgado, sem revelar exatamente por quem ou por qual crime. Um texto corrido, com poucas variações, emoldurado por um cenário com espelhos que, ao mesmo tempo em que multiplicam os pontos de vista da platéia, também impõem ao personagem um estado de vigilância ainda mais opressor.

A impressão de que esta será a forma de todo o espetáculo se quebra quando o fluxo verborrágico do personagem é interrompido por uma nova verborragia, agora supostamente do ator que o interpreta, convidando o público para conhecer “a verdade” – uma vez que tudo o que se apresenta num palco é falso. A ruptura se completa com o surgimento duma mulher que, num registro cômico, complementa a falsidade denunciada com uma linguagem-padrão que ora lembra a de uma aeromoça bizarra, ora de uma repórter. “Desculpem, bem-vindos, obrigada por escolher a nossa companhia.”
O público então é conduzido a um ônibus que, enquanto a estranha mulher lê capítulos e cláusulas jurídicas e textos de Platão, leva todos a um novo espaço, este muito mais próximo do subterrâneo criado por Fiódor Dostoievski nas notas que inspiraram a montagem: um camelódromo com suas barracas todas fechadas, um não-lugar de verdade – que, sem a intervenção teatral, certamente não existiria ou não representaria coisa alguma para aqueles que ali estavam. “Desculpem, bem-vindos, obrigado por escolher a nossa companhia.”

O texto, ainda vociferado, divide a cena com imagens impactantes de devoração de carne crua, um corpo que se arremessa o tempo todo contra o muro, um homem que sai literalmente do subterrâneo para um banho de água fria no meio da rua e a imagem de um imenso labirinto que impede o público de saber exatamente de onde vem aquela voz berrada no megafone. Todas as imagens tentam se conectar àquilo que é dito, mas a conexão é pouca: a linearidade do texto, organizada, pouco corresponde com o caos estabelecido na cena, reduzindo o potencial da provocação proposta e levando o espetáculo a um arriscado limite com o virtuosismo esvaziado de sentido. “Desculpem, bem-vindos, obrigado por escolher a nossa companhia.”

Por outro lado, ainda que o espetáculo-intervenção apresente diversas irregularidades que impossibilitam sua completa compreensão e fruição, é talvez a obra que mais se expõe ao risco num festival reconhecido pela experimentação de formas e linguagens… E com certeza aquele que mais agradece por escolher a “nossa companhia” – seja lá o que eles queriam dizer com isso.

Alguns quilos de sabão OMO arremessados em cena

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