Críticas

Henfil Já!

por Maurício Alcântara

4 Comentários 25 March 2008

Tá vendo alguma esperança?

henfilja.jpg

Foto: Cris Seciuk / Clix.

Três carinhas em roupas neutras, num palco praticamente vazio, fazendo uso apenas de seus corpos e vozes (tá bom, tem um ou outro aderecinho também, vai…). Não há construção de personagens e o espetáculo segue o formato de diversos shows cômicos, assemelhados à stand-up comedy que tem proliferado por todo o país como gremlins em contato com a água.

Eles poderiam falar sobre as mulheres curitibanas (como compreendê-las?), sobre maneiras de se acabar com o casamento, ou ainda sobre como os homens transam e as mulheres fazem amor, entre diversos outros temas sexuais e conjugais – mais que representados em todo o festival. Mas não: em Henfil Já! a opção é por fazer rir de nós mesmos, o povo brasileiro, e o recorte remete diretamente ao período da nossa ditadura militar.

Aí você, leitor da Bacante, já sabe o que vamos perguntar: faz sentido falar ainda sobre a nossa ditadura, ainda mais numa peça feita por atores jovens demais para terem acompanhado de perto tal período? Pois bem, pra começar, o projeto não nasceu para falar sobre o assunto. A idéia era estudar correspondências pessoais e que falassem do Brasil e do brasileiro. Nessa pesquisa de correspondências, encontraram textos de Henfil, um dos cartunistas fudidos (no bom sentido) responsáveis pelo Pasquim. Como muito do material estudado foi produzido durante seu exílio nos EUA, impossível que o contexto político não influenciasse na temática: diferenças culturais, saudades da terra das palmeiras e do sabiá e sua hemofilia são alguns dos assuntos que o autor utilizava para fazer rir e, principalmente, pensar.

Os três atores esbanjam energia (tipo pilha Duracell, sabe?), traduzindo cada trecho de cada texto em cenas divertidas e originais – e vamos combinar que originalidade em espetáculos cômicos tem faltado um bocado, não? Ao menos na programação do Fringe, sim. E o mais importante é que o texto, uma mistura da biografia do autor com sua obra, nos mostra o quanto o “já” do título é tremendamente pertinente: provoca a platéia apontando como nos dias de hoje o povo brasileiro ainda é submisso, tímido (apesar de irreverente) e, principalmente, um povo que ainda não aprendeu a defender aquilo que deseja, graças a sua “mineirice calvinista e luterana”.

Ao final de um espetáculo bem-humorado e praticamente irretocável, fica a questão: qual será o grau de interferência do texto nas pessoas que estavam naquela sessão lotada? Quando as pessoas pararão para pensar nas submissões mínimas, do dia-a-dia, nas situações em que são forçadas a se contentarem com aquilo que sabem, no fundo, que é insuficiente ou limitado? E essa análise pode ser feita nas menores esferas políticas. É possível fazer, por exemplo, uma provocação bastante próxima: estamos satisfeitos com o que temos visto no teatro e nos festivais? E na crítica, seja feita em jornais ou revistas engraçadinhas de teatro?

3 mães + 1 vó, orgulhosas, na platéia

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Valmir says:

    Adorei a sentença que aparece várias vezes nas outras críticas: “num palco praticamente vazio, fazendo uso apenas de seus corpos e vozes”. Peças bem parecidas ou o protocolo do alternativo, como disse o Salvia? Ou a simples falta de criatividade ou a falta de dinheiro? Ou a falta de palavras? Tô adorando a cobertura do festival, continuem!

  2. Luciana Romagnolli says:

    Epa, e na crítica engraçadinha feita na web? heheheh
    Gostei muito de Henfil no começo, quando eles e um banco são suficientes pra pôr humor e crítica em cena com criativadade. Mas achei que depois (principalmente quando aparecem os EUA e sua coca-cola) fica um discursão político que só faltou palanque… Aí os atores, ótimos, me perderam.
    Espero que vocês voltem no próximo fim de semana!
    Lu Romagnolli

  3. Lu, revistas engraçadinhas já incluem as da web!! hahaha… Sinceramente, não achei que tinha cara de palanque não. Mas agora que você mencionou, eu acho que eu retiraria o “praticamente irretocável” em nome de uma leve edição – mais pelo repetitivo do que pelo palanque…

    Valmir, acho que nem peças parecidas, nem protocolo do alternativo – até porque não tem nada de “alternativo” nesse espetáculo. Particularmente gosto dessa economia de cenário e de estereotipação quando, na verdade, não é necessário. É quase igual na hora de se vestir: se tem algo esquisito, experimente tirar, e não colocar mais penduricalhos!

    Abraços!

  4. roger luan says:

    detestei essa bosta de teatro bando de filho da puta


E você, o que acha?

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