Críticas

Hey, girl!

por Fabrício Muriana

Nenhum Comentário 15 October 2007

Hey Platéia! Hey Crítica! Hey Teatro!

Foto: AC Júnior

Um dos muitos papéis que se pode atribuir à crítica é o da conexão, da definição de pontos de contato com a obra, no sentido de estabelecer caminhos de chegada e de encontro entre público e peça. Bonito, né? Mas, definitivamente este é o papel que não quero exercer com essa crítica. Antes a dispersão que a conexão, porque isso é o que pede a obra de Romeo Casttelucci.

Hey, girl! vem deste chamado, de uma cena que Casttelucci viu parado num semáforo: um grupo de garotas atravessando a rua. Deste ponto já dá pra sacar que a obra aponta mais pra multiplicidade que pro sentido único. Imagine você um grupo de meninas atravessando a rua. Agora pense que tipo de sinapse, de conexão, de idéia você pode ter a partir desse ponto inicial.

Você eu não sei, mas o Casttelucci foi longe. Contou a história de uma garota que nasce, se encontra num espelho, apanha e adapta-se na multidão e depois se encontra com o estranho, o diverso, na forma do seu duplo negro: uma outra garota. Essa é uma idéia redutora, de trajetória, que forço a barra pra compreender e relatar, mas a obra em si é quase irrepresentável em palavras.

O palco é italiano e imenso (Caixa Cultural), os seus limites são explorados a todo momento. O som é usado em volume muito mais elevado que o usual, a sua composição é abstrata, assim como muitas cenas do espetáculo. Os limites do olhar são testados com quadrados que acendem nos cantos superiores do palco, em momento que a personagem se vê perdida entre os dois lados, sensação que passa para a platéia. Não há falas, senão um ruído de conversas, muito sugestivo de que a menina começa a se comunicar e se estabelecer no mundo, quase como um Kaspar Hauser contemporâneo. Uma espada aquecida faz a marca num tecido do que pode ser o surgimento de Joana D’Arc, mas não se pode afirmar com certeza.

Há muitos, muitos pontos de chegada nesta obra de Casttelucci. A grande questão é que essa tentativa de estabelecimento de uma narrativa que não se paute por uma dramaturgia literária, dá margem pra que essa narrativa não se concretize, ou mais (o que considero a grande conquista), que se concretize de forma radicalmente diferente na percepção de cada espectador. Mesmo em palco italiano! Que convenhamos, parece uma viseira de cavalaria pro sentido único do espetáculo.

O que há pra se inventariar nesta obra é o presente. Um presente que no teatro se realiza só na cena, não no texto e muito menos na história. Registro aqui o momento que resume/retrata esse presente, ou como li no espetáculo: a menina protagonista recebe molduras de vidro que descem ao palco, sustentadas por cabos. No início, ela se encontra com uma, depois descem outras duas. Num momento que parece ser um ponto de aproximação, quase como um espelho pra onde ela olha e de onde a vemos se “enquadrar”, há uma quebra brutal com os limites. Os mesmos cabos que sustentam são os que vão quebrar em milhares de pedaços as três molduras de vidros. Aí está o inventário. O que é uma obra teatral? As molduras? A personagem? Os cacos? Ou o que resta disso tudo?

5 dias pensando como escrever desta peça

E você, o que acha?

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