História de Amor (Últimos Capítulos)

Qual o lugar mais bizarro escolhido pelo Teatro da Vertigem pra apresentar qualquer coisa até agora? Quem acompanha o grupo sabe a resposta na ponta da língua: o palco italiano.
Após os problemas que forçaram o fim prematuro da temporada de BR-3 às márgens plácidas do Tietê, a companhia decidiu apresentar um trabalho bastante diferente das produções improváveis e megalomaníacas que a aclamaram. Na verdade, não se trata exatamente de um espetáculo, apesar de ter iluminação, um pouco de figurino e três atores muito bem preparados.
Trata-se da leitura cênica de História de Amor (Últimos Capítulos), do dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce, que cumpriu temporada na Galeria Olido e agora está no teatro Cacilda Becker, na Lapa. A platéia, que se senta no palco junto aos atores, tem a opção de acompanhar a história pelo texto que encontra sobre as cadeiras, mas é praticamente impossível prestar atenção ao papel com as atuações de Roberto Audio, Luciana Schwinden e Sergio Siviero.
A trama não é exatamente sobre um triângulo amoroso, como a imprensa preguiçosa tem publicado com base no release: é a história de três pessoas que se amam mutuamente e que no passado viveram juntas, dois homens e uma mulher, em uma cidadezinha pequena (seria um triângulo se houvesse um casal monógamo e uma terceira pessoa alheia, o que não é o caso). A leitura apresenta a versão dos três para o que ocorreu após a separação, com muito mais foco nos sentimentos de cada um do que em suas razões. Tudo sempre contado com uma ingenuidade e uma melancolia que deixam a leitura hipnotizante. Mérito de Lagarce pelo texto e dos atores pela poesia com que se apropriam dos personagens.
Assim como a leitura de Primeiro Amor de Beckett, interpretado por Marat Descartes (de volta, agora no Tucarena, a trinta reais), História de Amor não chega a ser um espetáculo (e nem tem essa pretensão, e talvez por isso mesmo não cobra ingressos), mas vale muito mais a pena do que muito espetáculo em cartaz na cidade.
Um ótimo programa enquanto não acaba a angústia de saber se eles conseguirão ou não trazer de volta BR3. E as más línguas (sempre elas) apostam que o próximo espetáculo deles será debaixo do Viaduto do Chá, com direito a platéia pendurada de cabeça pra baixo e tudo. Provável, bem provável…
Update 29/04: Agora a leitura cênica está no teatro João Caetano.
4,5 peças no repertório

