Críticas

Hitchcock Blonde

por Leca Perrechil

Nenhum Comentário 01 April 2008

Saudades de Norman Bates

Fotos: Daniel Sorrentino / Clix

2360879649_a9375c3200.jpg

 

3.jpg

 

Logo no primeiro dia do Festival de Curitiba ouvi boatos a respeito da peça Hitchcock Blonde, da companhia nativa da cidade,Vigor Mortis (a mesma que encenou Graphic e Morgue Story). O espetáculo dirigido por Paulo Biscaia Filho foi o primeiro da Mostra de Teatro Contemporâneo (aquela que tem curadoria) a ter seus ingressos esgotados e uma sessão extra confirmada. Tá certo que a capacidade de pessoas dentro do Teatro Novelas Curitibanas (varia de acordo com a disposição do espaço cênico, mas não passa de 70 lugares), onde a peça foi apresentada, não chega nem perto do Guairão (2.173 lugares), mas o zum-zum-zum foi o suficiente para eu sair por aí em busca de um ingresso. E foi nessas de pedinte que consegui um para a estréia.

 

Logo na chegada, o clima já era favorável. A sombra do cineasta Alfred Hitchcock podia ser vista pelo lado de fora do teatro, projetada na janela – da mesma maneira que o diretor aparece em uma de suas películas (depois de ver tantos filmes dele, não me lembro exatamente em qual era que tinha a sombra. Mas se você, leitor, souber e quiser postar aqui, sinta-se à vontade). O próprio Novelas Curitibanas ajudava a compor essa atmosfera, já que por ser um casarão de 1904, passaria muito bem por uma dessas casas de filme de suspense. A música do filme Psicose logo no início também trazia aquela emoção para quem viu algumas das obras do diretor norte-americano. Pena que a frustração estava prestes a acontecer (música de suspense ao fundo).

 

A dramaturgia do britânico Terry Johnson, adaptada por Biscaia, traz diversas tramas paralelas intercaladas, ligadas pelo “fator Hitchcock”. Uma delas se passa em 1999, quando um professor (Edson Bueno) e sua aluna (Rafaella Marques) vão para uma mansão na Grécia para reconstituir rolos de película que possivelmente seriam uma obra perdida do diretor. A outra, em 1959, mostra a relação de Hitchcock (Chico Nogueira, realmente parecido com o cineasta) com uma atriz loira (Michelle Pucci), em uma suposta filmagem de Psicose. Ainda temos a briga entre a loira e o marido, além de fragmentos da película perdida em1929, que talvez seja a origem da fixação do cineasta por loiras.

 Agora, acrescente uma tensão sexual e misture com todas essas tramas do parágrafo acima que você terá uma história mirabolante, às vezes confusa, e que não chega a envolver. Isso acaba sendo até uma contradição em relação à obra de Hitchcock, que trazia um enredo de suspense geralmente simples, de fácil entendimento e mesmo assim envolvente. Não que pelo fato de ter o cineasta como personagem, a dramaturgia tenha que seguir a mesma linha do cineasta – mas é fato que a peça, nessa misturada toda, não consegue se comunicar e nem transmitir a quê veio. 

A própria brincadeira com o cineasta em cena, que seria uma paródia de sua recorrente presença nos próprios filmes, como sugere o release, não tem muito impacto. O personagem do cineasta não traz nada de novo e suas falas poderiam ter sido ditas por um Hitchcock ou por qualquer cineasta pirado. Dá saudades da brincadeira que já virou um charme nos filmes do diretor  norte-americano: descobrir em qual parte ele aparecerá – seja como um figurante de luxo passeando com seu cachorrinho ou em uma imagem no espelho – uma espécie de Onde está o Wally? para cinéfilos.

 

Uma das marcas da companhia Vigor Mortis é a utilização de projeções e vídeos, construindo uma ligação entre o teatro e outras linguagens. Dessa forma, parece que a escolha pelo texto foi mais pelo tema e possibilidades de misturar a linguagem do teatro com a do cinema, do que pela possibilidade da criação dramatúrgica em si. E nessa mescla eles são competentes. Projetam uma das atrizes tomando banho em um chuveiro com cortinas transparentes, ao estilo Psicose; reproduzem a imagem de uma janela que, quanto maior fica, mais dá a impressão de aproximar mais a cena e, com isso, nos projetar pra dentro da vida de um casal. E criam imagens com aspecto de filme antigo (sabe daqueles que a película já tá mofada?) para fazerem de conta que são do filme perdido de 1929. Tudo muito bonitinho, bem feitinho e criativo.  

 

Com tantas referências utilizadas em cena e uma brincadeira competente com a linguagem do cinema, a impressão que fica é de que o espetáculo foi muito gostoso de ser feito, mas não tanto assim de ser assistido. A dramaturgia dá tantas voltas em uma história mirabolante (no mau sentido) e sem muitos atrativos, que o espectador se perde no meio das inúmeras informações.   

2.jpg

2 críticos decepcionados na estréia

E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).