Saudades de Norman Bates
Logo no primeiro dia do Festival de Curitiba ouvi boatos a respeito da peça Hitchcock Blonde, da companhia nativa da cidade,Vigor Mortis (a mesma que encenou Graphic e Morgue Story). O espetáculo dirigido por Paulo Biscaia Filho foi o primeiro da Mostra de Teatro Contemporâneo (aquela que tem curadoria) a ter seus ingressos esgotados e uma sessão extra confirmada. Tá certo que a capacidade de pessoas dentro do Teatro Novelas Curitibanas (varia de acordo com a disposição do espaço cênico, mas não passa de 70 lugares), onde a peça foi apresentada, não chega nem perto do Guairão (2.173 lugares), mas o zum-zum-zum foi o suficiente para eu sair por aí em busca de um ingresso. E foi nessas de pedinte que consegui um para a estréia.
Logo na chegada, o clima já era favorável. A sombra do cineasta Alfred Hitchcock podia ser vista pelo lado de fora do teatro, projetada na janela – da mesma maneira que o diretor aparece em uma de suas películas (depois de ver tantos filmes dele, não me lembro exatamente em qual era que tinha a sombra. Mas se você, leitor, souber e quiser postar aqui, sinta-se à vontade). O próprio Novelas Curitibanas ajudava a compor essa atmosfera, já que por ser um casarão de 1904, passaria muito bem por uma dessas casas de filme de suspense. A música do filme Psicose logo no início também trazia aquela emoção para quem viu algumas das obras do diretor norte-americano. Pena que a frustração estava prestes a acontecer (música de suspense ao fundo).
A dramaturgia do britânico Terry Johnson, adaptada por Biscaia, traz diversas tramas paralelas intercaladas, ligadas pelo “fator Hitchcock”. Uma delas se passa em 1999, quando um professor (Edson Bueno) e sua aluna (Rafaella Marques) vão para uma mansão na Grécia para reconstituir rolos de película que possivelmente seriam uma obra perdida do diretor. A outra, em 1959, mostra a relação de Hitchcock (Chico Nogueira, realmente parecido com o cineasta) com uma atriz loira (Michelle Pucci), em uma suposta filmagem de Psicose. Ainda temos a briga entre a loira e o marido, além de fragmentos da película perdida em1929, que talvez seja a origem da fixação do cineasta por loiras.
A própria brincadeira com o cineasta em cena, que seria uma paródia de sua recorrente presença nos próprios filmes, como sugere o release, não tem muito impacto. O personagem do cineasta não traz nada de novo e suas falas poderiam ter sido ditas por um Hitchcock ou por qualquer cineasta pirado. Dá saudades da brincadeira que já virou um charme nos filmes do diretor norte-americano: descobrir em qual parte ele aparecerá – seja como um figurante de luxo passeando com seu cachorrinho ou em uma imagem no espelho – uma espécie de Onde está o Wally? para cinéfilos.
Uma das marcas da companhia Vigor Mortis é a utilização de projeções e vídeos, construindo uma ligação entre o teatro e outras linguagens. Dessa forma, parece que a escolha pelo texto foi mais pelo tema e possibilidades de misturar a linguagem do teatro com a do cinema, do que pela possibilidade da criação dramatúrgica

2 críticos decepcionados na estréia



