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Críticas

Homens ao Mar

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 19 November 2007

Mar à Vista

Fotos: Divulgação

Depois de algum tempo acompanhando pelos jornais a viagem de Zona de Guerra pelos palcos paulistanos (o espetáculo já esteve no SESC Avenida Paulista e no Teatro da Memória, no Centro Cultural Capobianco), finalmente decidi assistir a esta segunda parte do projeto Homens ao Mar, da companhia Triptal , em torno de quatro textos do dramaturgo Eugene O’Neill. O espetáculo volta ao cartaz junto à terceira parte da tetralogia, Longa Viagem de volta pra casa, e ambas estão sendo encenadas no mesmo galpão do SESC Pompéia.


Em Zona de Guerra, os tripulantes de uma embarcação inglesa que transporta munição contrabandeada atravessam uma área de conflito durante a II Guerra Mundial. O medo de serem descobertos por um submarino alemão, ou ainda de terem sua operação secreta interceptada por um espião, faz com que eles permaneçam em constante estado de alerta e de tensão. A presença de um homem estranho ao ambiente, que não entende nada de mar, os deixa tensos e receosos, e a paranóia se completa quando o espiam na calada da noite mexendo em sua mala.

A simplicidade da narrativa contrasta com a pluralidade de significados e paralelos que podem ser traçados num mundo pós-moderno, pós-guerra fria e, sobretudo, pós-11 de setembro. Um mundo em que o outro (e entenda-se por outro tudo ou qualquer pessoa o que não se defina como “normal”, no conceito mais preconceituoso de normalidade) é sempre uma constante ameaça que precisa ser eliminada, antes mesmo de ser compreendida. O espetáculo é uma grande alegoria para a contraditória xenofobia num mundo em que fronteiras, idiomas e documentos já não dizem nada e não fazem sentido.

Em Longa Viagem… a ação acontece em terra, mas é como se não fosse. Vemos a realidade dos marinheiros quando aportam, e entre uma viagem e outra, ficam na região do porto, gastando seu dinheiro com bebida e prostitutas, até que a grana acabe e eles tenham de embarcar no próximo navio. São todos errantes, e não existe possibilidade alguma de liberdade enquanto aceita-se viver neste universo. Portanto, nada mais resta a estes homens do mar a não ser mergulhar no universo do alcoolismo e da libertinagem. (Isso não quer dizer que eu tenha algo contra o álcool, muito pelo contrário, que fique bem claro.)

Logo no início do espetáculo, vemos uma rápida ação que, logo em seguida, percebemos se tratar do final da história a ser contada. À platéia, ciente deste desfecho, é apresentada a história de um marinheiro decidido a voltar para a fazenda da família após doze anos de mar, para rever sua mãe idosa antes que seja tarde demais. A cada cena e cada diálogo, sente-se cada vez mais empatia pela história do protagonista. A cada repetição de cena (há vários déjà-vus no espetáculo), torcemos para que o que vimos no início não se concretize, para que algum acontecimento impeça este destino. O mesmo recurso é usado, em menor escala, na primeira cena de Zona de Guerra, mas sem o mesmo propósito e, logo, sem causar a angústia que é sentida dem Longa viagem….

A direção de André Garolli é precisa e cria ótimas cenas com o numeroso (e talentoso) elenco da Cia. Triptal. Em Zona de Guerra, o espaço utilizado é apenas um pequeno palco italiano, mas em Longa viagem… justifica-se a escolha do galpão do SESC Pompéia: o mise-en-scène começa lá em cima, perto da choperia. No momento da entrada do público, atravessamos a Zona de Guerra e rumamos em direção à taverna onde ocorre a ação. É como se o próprio público tivesse acabado de desembarcar de um navio chamado São Paulo e buscasse refúgio e distração naquela espelunca. Na incorporação do espaço, não são poupadas as portas corrediças do galpão do SESC, nem os fundos do cenário de Zona de Guerra, e nem mesmo os dutos de ventilação da piscina da unidade. A direção musical também ajuda na criação do ambiente, e a execução só não ficou melhor porque vazava som do show eletrônico de Edgar Scandurra, que acontecia ali do lado, na choperia. Dessa vez passa, mas é chato um dos lugares mais bacanas da cidade deixar isso acontecer, né?

Agora fica a expectativa pelo quarto e derradeiro espetáculo do projeto, assim como a torcida para que volte ao cartaz Rumo a Cardiff, primeira parte dessa grande aventura com cheiro de mar.

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