Críticas

Hysteria

por Astier Basílio

13 Comentários 20 May 2009

Loucura, loucura, loucura

Fotos: Lucas Emanuel/ Comuniquê

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O que aconteceria se a SBAT ou a Petrobras inventassem de fazer como a turma do stand-up comedy e resolvessem criar um daqueles joguinhos iguais ao que o Luque e Rafinha fazem, tipo: “faça uma piada, mas não pode ser nem de gay, de loira, nem de brasileiro, nem de português”? Não, eles não fazem isso. Ao contrário. Mas existem os tais jogos com regrinhas aleatórias pra se dificultar as piadas, tipo “improvável”.

Bom, mas, dizia eu, se a SBAT entrasse na onda, junto com a Petrobras, e resolvesse  nem autorizar, nem patrocinar peças que tivessem a loucura como tema, seria um Deus nos acuda no meio teatral, uma loucura  com atores e diretores saindo às ruas em passeata, quem sabe até queimando dinheiro em forma de protesto que nem o velho Mela fez. (pequeno  fast forward : quando se apresentou, a primeira coisa que o diretor da peça disse foi: “nós somos o Grupo XIX de Teatro… somos patrocinados pela Petrobras…”)

Mas, devo confessar, no caso de Hysteria a fama do espetáculo precedeu o tema. Por isso que, às 13h10, resolvi arriscar minha vida numa corrida com um corcel lotado, um taxista clandestino, de João Pessoa até Recife. O automóvel parece que tinha sido comprado de Rabugento, o Cão Detetive. A peça começaria às 16 horas. Daqui pra lá são duas horinhas.

Bueno,já que falei em “loucura”, nada melhor do que seguir o texto no melhor estilo Os Normais, então, aqui vai um mini flash back: Há mais de dois anos eu era aluno em uma oficina de teatro. A minha professora, Christina Streva, não parava de falar da interpretação de uma determinada atriz de Hysteria. A peça havia sido apresentada em João Pessoa no ano anterior – eu tinha perdido, mas muitos colegas da oficina não. Ou seja, como eu tenho memória de elefante canceriano, logo  passei a construir essa interpretação, nos seus mínimos detalhes, pela voz da minha professora. Fim do mini flash back.

Hysteria não é apresentada em palco normal. Ops. Eu com essa mania de “categorizar” até teatro. Vamos voltar do começo, hã? Hysteria se apresenta em local alternativo.  Em Recife, a peça foi encenada – pela primeira vez- no Lyceu de Artes e Ofícios, vizinho ao Teatro Santa Isabel. A lotação eram 70 lugares. Tinha que chegar antes pra pegar credencial – a apresentação tá dentro do Festival Palco Giratório do SESC.

Uma fila já estava se formando quando eu cheguei. Reconheci várias pessoas “do meio”.  De repente ouço alguém falar alto, tem sotaque de corintiano, me viro é o Luís Fernando Marques. Não entendo bem o que o moço fala, mas é algo como “espalhem-se pela casa, não precisa ficar em fila”. Uma senhora, a que deve ter chegado primeiro, pois estava no começo da fila, disse: “mas eu quero ficar na frente”, o diretor, com cara de satisfação pela resposta que iria dar, respondeu rindo: “não tem frente”.

Outra vez a voz do Luís. “Ó, pessoal. Os homens por aqui e as mulheres aqui, tá certo?”. Eu pensei: oxe, tô num culto da Assembleia de Deus – atenção, plantão da Globo (pan-pan-pan-pan-panrã-pan-pã): “esta  denominação pentecostal foi citada sem quaisquer julgamentos, apenas pelo fato de, no final de semana em que eu fugi de casa, resolvi assistir a um culto desta referida igreja” Fim do plantão .

Na peça, como na igreja.  Os homens entram. Os homens se apertam. É pra 70 lugares, mas ao que parece a cota extrapola. Há alguns bancos, mas eu me sento no chão junto com um monte de gente.

Outra voz, desta vez  parecia de uma palmeirense. Ela grita: “senhoras por favor, por aqui, as senhoras”. Assim, as mulheres da plateia vão se organizando. “A senhora, por favor, lá mais para lá. Aqui não pode, por favor, nós temos regras!”. Pronto, descobri, quando vi como as personagens eram tratadas, que tinha errado de igreja, não estava na Assembléia de Deus, mas na Igreja Universal, na sessão do descarrego. Homens, espectadores passivos; mulheres espectadoras ativas e coparticipantes da encenação Dividir a plateia por gênero traz uma série de ruídos e interferências. E as outras opções sexuais? E os homossexuais?  As mulheres são convocadas várias vezes a participar do jogo cênico, a entrar nas tramas paralelas de cada uma das personagens, da tutora e das 4 internas, com as quais conversam, brincam, dançam, rezam.

Por falar nesse lance da participação do público, lembro de um momento super interessante. Na hora de rezarem escolheram para a roda uma moça de cabelos curtíssimos, sem maquiagem, com piercing no nariz, camiseta vermelha, cordão de prata, calça jeans masculina, tênis. Perguntaram-lhe se ela tinha um sonho, ela disse que não, estava tudo bem. Em seguida, rezou-se e na intercessão se pediu um marido/homem para ela.

A trama se passa em 1892.  O que não deixa o espetáculo ser uma peça-museu pra se mostrar apenas como eram tratadas as mulheres que não seguiam a cartilha imposta pela sociedade, com mandamentos bem demarcados como bordar e tocar piano e só sair três vezes de casa: pra ser batizada, pra casar e pra ser enterrada? Acho que o link com os dias atuais se dá quando, ao mostrar uma linha de conduta do passado, do século retrasado, Hysteria, subterraneamente, faz emergir um outro código para a mulher do século XXI: casar, ter filhos, ter uma carreira bem sucedida ou nada disso, ou tudo isso ao mesmo tempo agora. Ou depois dos 40.

Apresentações em lugares alternativos, como edificações velhas – em João Pessoa eles se apresentaram em um convento abandonado – tem um ganho: a proximidade com o público e uma relação muito direta; e tem uma perda também: a falta de domínio da cena; as ações perdem muito de sua força  por carecer de uma melhor apropriação do espaço cênico.

Em Hysteria, mais do que a loucura propriamente – o histórico de repressão social por meio dos sanatórios-  o que me bateu forte mesmo foi o questionamento sobre o lugar da mulher. Ontem e hoje.

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8 janelas abertas no final do espetáculo

O que a galera acha

13 comentários até o momento

  1. Rodrigo Dourado says:

    Oi Astier! Tudo bom? Achei o espetáculo um vazio total. É realmente impressionante como nós, que não moramos no EIXÚ, somos provincianos. Toda uma comoção local para receber a peça legitimada pela crítica do EIXÚ e nos deparamos com mais um exercício inócuo de hiper-realismo (tem hífen agora?) que o máximo que consegue fazer é arrancar umas poucas risadas simpáticas da platéia. Superficialidade demais. Fiquei passado e decepcionado. Abração!

  2. Astier Basílio says:

    e aí, Rodrigo.
    Não vai me dizer que vc tava lá naquele dia?
    Poxa, rapá, a gente nem se falou, né?
    Bom, sou ótimo fisionomista, mas juro q não me lembro de ter te visto. E olha que o seu Clóvis (o taxista clandestino) me deixou pontualmente às 15h30 lá.
    Bom, vc ficou decepcionado, foi?
    Então, não sei qual foi a tua expectativa em relação à peça e tal. No meu caso, eu já tinha visto um experimento do XIX lá na sede deles, na Vila Maria Zélia em São Paulo.
    Um trabalho deles com o grupo Espanca. Lembro de que gostei muito, muito mesmo quando vi, mas ao longo dos dias, refletindo e pensando sobre o espetáculo, fui alterando a visão que tinha e tal.
    Vi também um solo, o da Sara Antunes, “Negrinha”,
    em Curitiba.
    Eu não estava com tanta expectativa, de qualquer forma, mais ou menos sabia o q esperar.
    Uma questão que eu não abordei aqui e que Hysteria me fez pensar foi sobre o tempo de duração de um espetáculo. Mas isso vai ser assunto pra outra crítica.
    Abração

  3. Astier Basílio says:

    tempo de duração,
    melhor explicando:
    existência, trajetória carreira
    :D

  4. Danilo Dilettoso says:

    Não entendi essa mudança no texto nos últimos parágrafos. De repente você ficou sério? É isso? Quis falar sério?

    Bom, de qualquer maneira, como assim os homossexuais? Separou-se entre homens e mulheres, os homens gays continuam a ser homens, não? E as mulheres lésbicas continuam a ser mulheres, não?

    Quanto ao comentário do Rodrigo Dourado, gostaria de saber donde ele vê tão imenso vazio? Será no olho de vítima de quem não mora no EIXÚ?

    Abraço

  5. astier basílio says:

    Oi Danilo.

    Essa é a proposta da revista. Não só do meu texto, mas o de todos: misturar humor à reflexão.

    Eu não disse – pelo menos não nesse texto aí de cima – que gays não continuam a ser homens, nem lésbicas não continuarem a ser mulheres.

    Com as armas no chão e dispensando o policiamento, tá, o q eu quis dizer foi que uma separação por gêneros – não minha, não da crítica, mas da encenação, ok? – faz como que pensemos sobre sexualidade, a peça traz essa questão: mas não embuti nenhum juízo de valor nisso, apenas quis que refletíssemos sobre. Como um algo a se pensar.

    É isso.
    Abraço

  6. Leo says:

    Crítica sem fundamento, preconceituosa (como assim os homossexuais????), fracassada no humor e na coerência.

  7. Rodolfo Lima says:

    (risos)

  8. Sem sacanagem, gostei mais da foto que fiz do espetáculo do que dele mesmo!
    Tenho algumas experiência em teatro e cinema senão não faria este comentário a respeito.
    O que a peça demora 1:30 minutos para tentar dizer com certeza seria possível se condensar de forma teatral em 20 minutos bem cravados. Fui com a expectativa de ver um belo trabalho sobre a “loucura” e apenas percebi textos perdidos dentro de um “jogral”. Nem a cumplicidade dos olhares entre as personagens se percebe – o que para mim seria imprescindível. Nem sempre os atores estão prontos e conseguem isso sózinhos. Outras vezes trabalhar assim pode ser um critério da direção e isso desencumbe a atuação da “culpa”. Creio que nessa proposta foi escolha da direção. Se não foi pior ainda!
    Gostei das atrizes – sinto que foram pouco aproveitadas.
    Gosto dos figurinos mas não da proposta de palco. Usar a platéia pode ter sentido mas usá-la ou expô-la gratuitamente para conseguir o riso fácil não parece “honesto” em meu conceito e experiência de teatro. Enfim teatro é prá se divertir, aprender, denunciar, e acrescentar. Creio que perdi – tempo tenho certeza que sim!

  9. Sem sacanagem, gostei mais da foto que fiz do espetáculo do que dele mesmo!
    Tenho alguma experiência em teatro e cinema senão não faria este comentário a respeito.
    O que a peça demora 1:30 minutos para tentar dizer com certeza seria possível se condensar de forma teatral em 20 minutos bem cravados. Fui com a expectativa de ver um belo trabalho sobre a “loucura” e apenas percebi textos perdidos dentro de um “jogral”. Nem a cumplicidade dos olhares entre as personagens se percebe – o que para mim seria imprescindível. Nem sempre os atores estão prontos e conseguem isso sózinhos. Outras vezes trabalhar assim pode ser um critério da direção e isso desencumbe a atuação da “culpa”. Creio que nessa proposta foi escolha da direção. Se não foi pior ainda!
    Gostei das atrizes – sinto que foram pouco aproveitadas.
    Gosto dos figurinos mas não da proposta de palco. Usar a platéia pode ter sentido mas usá-la ou expô-la gratuitamente para conseguir o riso fácil não parece “honesto” em meu conceito e experiência de teatro. Enfim teatro é prá se divertir, aprender, denunciar, e acrescentar. Creio que perdi – tempo tenho certeza que sim!

  10. Ana says:

    Bom, não assisti esse dia. Mas já vi esta peça duas vezes e fui tocada profundamente.
    Por que ao invés de ficar comentando sobre o espaço cênico, as atrizes mal aproveitadas, etc, vocês não entram num espetáculo para SENTIR?

    ps.:O humor da crítica tá meio tosco.

  11. astier basílio says:

    oi Ana,
    tudo bem?
    Que bom que o espetáculo tocou vc,
    q vc sentiu.
    Se o humor foi tosco,
    foi mal, a gente tenta.
    Confesso que sou melhor
    fazendo risoto do que contando
    piada. Risoto de camarão é minha
    especialidade.
    Mas, eu gostei do espetáculo.
    O problema é q a ironia
    e o humor funcionam
    como um filtro que às vezes
    deforma o q se diz.
    Ainda assim prefiro correr esse risco.
    Respondendo sua pergunta,
    do pq eu não entro num espetáculo
    para sentir,
    eu fico com esse verso de Fernando Pessoa:
    “o que em mim sente
    está pensando”.
    Abraço

  12. Assisti a peça algum tempo atrás,gostei da separação entre homens e mulheres, assistir a peça de uma perspectiva outra….a sensação que tive durante a peça foi bem diferente de amigos homens que estavam lá!
    Engraçado essa coisa de separar….mas é uma opção da Cia….e tem uma proposta interessante …acho que elas alcançam muito bem!!!
    Apesar de me incomodar essa coisa de ator tocar na platéia ou as vezes forçar uma relação que não existe…no caso das meninas isso acontece levemente….carinhosamente no sentido de ser bem elaborada a cena para alcançar essa posição de tranquilidade do público.

    O que elas querem? o que que a peça comunica?
    o que devo sentir?
    talvez seja mais interessante discutir e colocar em roda, do que a formação das atrizes que são justas com o trabalho!
    Espaço cênico é somente um espaço…o discurso que o completa e a encenação que faz a poesia…

    Talvez as meninas poderiam amadurecer o trabalho ( por que não acredito que exista algum sem caminhos para o amadurecimento)
    Mas foi justo com o que elas queriam dizer!!!!

  13. Sou um pouco nova com essa coisa de críticas!!
    Mas acho que as palavras de quem escreve sobre tem que ser tão justas quanto o trabalho que foi banalizado
    Quero dizer o espetáculo é um trabalho de pessoas que acreditam naquela poesia…
    Críticas sempre, afinal como podemos ter uma visão mais aprofundada se estamos literalmente bebendo aquele processo ….a Crítica nada mais é do que os fatos vistos de fora do processo
    Carinho…é sempre bom….Mas o Respeito é essêncial


E você, o que acha?

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