Loyd
In on It é uma peça escrita pelo dramaturgo canadense Daniel MacIvor e encenada – na íntegra (incluindo as rubricas) – pelo peruano-carioca Enrique Diaz, bastante festejado atualmente por seu trabalho à frente da Cia. dos Atores.
Trata-se de um jogo entre dois atores que transitam em três níveis de narrativas: o do presente em que um ex-casal homossexual experimenta fragmentos da peça de teatro escrita por um deles; o do passado dos dois protagonistas, fragmentos da malograda vida amorosa do casal; e o da peça propriamente dita, que conta a história de Raymond (perdão pelos nomes das personagens, pois cito sem ter o texto original – ou seja ele pode, na verdade, se chamar Rodolfo e eu ter tido uma implosão de dislexia… Contudo, apostaria R$40,00 – o valor do ingresso na FAAP – que ele se chama Raymond, o que não quer dizer, obviamente, que seja com “Y”.), homem comum que descobre estar com alguma doença terminal e assiste sua mulher Brenda sair de casa com o amante.
Fundamentalmente a trama é isso, entretanto há na dramaturgia um jogo de linguagem e intercalações que colocam em evidência a transição entre os níveis, a dinâmica entre os fragmentos; ao invés das narrativas propriamente ditas. De modo que já poderíamos destacar algo reluzente na dramaturgia: sua capacidade de compor linguagens – e não apenas conteúdo – por meio do texto escrito.
Por si só as narrativas não possuem nada de mais, nada que as elevaria acima de roteiros para melodramas trágico-românticos da indústria cultural: um homem com câncer dando seus últimos passos; um ex-casal relembrando seus momentos e suas brigas; e o “imprevisível” encontro entre as duas histórias, que até o final “pareciam” totalmente independentes (reparem nas aspas). Mas na forma em que são contadas reside algo novo. A intercalação constante e a justaposição entre as narrativas privilegiam todo o tempo o fragmento, os lapsos de imagens, o que evidencia menos a fábula tradicional, a narrativa linear a ser “contada” aos espectadores, e mais os reflexos de um momento e de um lugar preciso da atualidade (Canadá, 1º mundo etc.). Ademais, a estrutura da dramaturgia posiciona o público como construtor do material e não como mero receptor – somos obrigados a nos relacionar ativamente com os fragmentos representados com o risco de, se não o fizermos, ficarmos à deriva num oceano de sentimentalismos.
A encenação de Enrique Diaz e dos dois excelentes (é adjetivo mesmo!) atores faz com que o texto se evidencie, principalmente porque eles privilegiam o jogo e o encontro na interpretação, sem maiores inserções de linguagem afora aquelas já propostas pelo texto, deixando a peça sempre viva e instigante. É desta dinâmica que se precipitam a linguagem e os contraditórios temas abordados. A força da cena fragmentada, mas não formalista, e a maneira firme com que os atores lidam com ela, impõem ao público a tarefa de refletir e “construir” aquilo, o que por sua vez possibilita uma experiência para além da contemplação passiva, tal qual transparece no texto de Daniel MacIvor.
E a essa altura, vocês devem estar se perguntando: por que esta bosta de crítica se chama Loyd?
Chama-se Loyd porque é como acredito que se escreve o nome de umas das personagens de um dos níveis do texto. Loyd é o enteado de Terry, que é amante de Brenda, que é a esposa de Raymond. A primeira vez que Loyd aparece é treinando arremessos de beisebol com seu padastro. Ali ele afirma a velha – e não por isso desatualizada ou impertinente – retórica da desigualdade mundial (80% sem nada 20% com tudo). Passada a cena, os dois ex-amantes conversam e um deles diz algo como: “bonito, mas pra que serve essa cena?”. Loyd aparecerá novamente conversando com Raymond, e ali ele diz: “o problema é que o mundo é um círculo e todos querem estar no centro, mas o centro é o menor lugar do círculo”. E, por fim, Raymond pede à mãe de Loyd (o nome dela eu esqueci mesmo): “diga a ele que o centro não é o melhor lugar, porque do centro não podemos ver o círculo inteiro”.
Nessas inserções é que se vislumbram os estilhaços temáticos da obra. Nada unilateral ou lógico-cognitivo, mas contraditório e ambíguo. Loyd é a materialização do único discurso externo à narrativa a que o texto se refere: um discurso de preocupação social, de esquerda, que seja… O menino Loyd carrega isso com linhas grossas, mas por toda a peça a temática retorna. Um dos protagonistas, por exemplo, é um gay de esquerda, que trabalhava numa livraria marxista e que tem prazer em assumir sua homossexualidade como bandeira contra o “status quo” da sociedade. Em determinada altura, em que os ex-amantes representam uma briga do passado, o escritor diz irônico: “ah! O homem dialético também sente apego!”. E por aí vai…
De modo que a afirmação de Raymond: “diga a ele que o centro não é o melhor lugar, porque do centro não podemos ver o círculo inteiro” posiciona os discursos sobre a vida, a morte, o efêmero, o transitório, a doença, o amor etc. num espaço específico do mundo: entre os 20% que tem tudo.
E o fato de que dali não se poder ver o círculo inteiro coloca as assertivas emocionais num lugar bastante duvidoso, ambíguo, até irônico às vezes.
Tudo isso fica em evidência por ser uma das únicas referências externas em toda a peça (a outra é a Bíblia), no sentido de que todas as outras falas dizem respeito à narrativa em algum de seus três níveis, enquanto aquelas tangenciam uma filosofia social.
E parece que é justamente esta especificidade temática que está em total diálogo com a linguagem proposta na dramaturgia. Ou seja, ao fragmentar as narrativas e impor ao público a tarefa de construir a visão sobre o todo, tira-se do centro de força da peça a fábula propriamente dita e ficam ali os fragmentos e os pequenos estilhaços esquisitos que clamam por “pensamento” e “interpretação” por parte do espectador. Como quando um dos amantes diz: “bonito, mas pra que serve essa cena?” – é esta pergunta que a dramaturgia – enquanto linguagem – nos impõe. E ao perguntar isso ela introduz este elemento de contradição: Loyd e suas inquietações perante as injustiças e desigualdades sociais em contraposição direta com os temas existenciais.
Não que a peça vise afirmar um discurso de esquerda ou algo assim, mas que toda a problemática sobre a morte, sobre o amor etc. vivida pelas personagens da peça está contextualizada “no centro do círculo” do mundo. E parece que este dado cria uma relação intensamente dialética com os temas e formas abordados na dramaturgia.
Como se Loyd viesse dizer: “ok, bonito. Mas e daí?”
Retornando a encenação de Enrique Diaz há algo que não bate com isso. Pois estamos no Brasil e por maior a ascensão econômica que vivemos ainda não fazemos parte dos 20% de exploradores do mercado global.
Ou seja, este aspecto da dramaturgia, quando montada aqui no Brasil, não aparece da mesma maneira – aqui convivemos com o atraso e progresso, com a miséria e a opulência na mesma calçada – e quando não se evidencia o elemento contraditório do texto cria-se uma lacuna de transposição entre os contextos. De modo que, montada no Canadá ou nos EUA, provavelmente a dramaturgia tem tons provocativos e aspectos contraditórios que injetam dúvida no público sobre o mundo a sua volta; aqui no Brasil parece só haver evidência para a sagacidade e beleza da interpretação e das rupturas narrativas (vide exemplo aqui) – a virtuose da simplicidade e mais nada. E isto porque não há demarcada na encenação uma zona de crise, de desestabilidade – como a dramaturgia original parece propor com a figura de Loyd, por exemplo. Então se, por um lado, a peça nos impulsiona a “pensar” e “construir” conjuntamente com o material fragmentado, por outro lado, nada na encenação brasileira problematiza ou desestabiliza a “beleza” e o “emocional”, presentes também no texto (por exemplo, não se resolve a pergunta: onde acontece tudo aquilo, no Brasil ou no Canadá? Se é no Brasil há algo de muito estranho… Se no Canadá há algo de muito distante). Em outras palavras, ameniza-se a obra de Daniel MacIvor por não se atentar que o contraponto original não funciona do mesmo modo aqui e lá.
Mas no fundo parece mesmo que o objetivo da montagem é ressaltar questões minimalistas e formais da potência do jogo entre os atores (e eles são muito bons neste ponto). Podemos argumentar sobre isso com as próprias palavras do diretor nesta entrevista aqui. Para além, nesta outra afirmação em que diz: “A nossa montagem é melhor da que vi em Nova York, sem falsa modéstia [...] As atuações são mais sofisticadas, assim como a iluminação e a trilha. Vêm à tona mais camadas, tudo é mais caprichado.” (citado aqui) – ou seja, para ele, o critério é apenas o apuro técnico; a transposição (e a comparação, diga-se de passagem) só se fez ao nível da manufatura cênica. Por fim o programa do espetáculo com três textos altamente subjetivos onde os atores e o diretor discorrem sobre o prazer de trabalharem uns com os outros (e só).
Há ainda o Teatro da FAAP, os R$50,00 reais do ingresso (ou R$40,00 no domingo), o financiamento de grandes corporações etc etc… Mas se eu disser isso vão mais uma vez dizer que nós aqui na Bacante misturamos tudo, somos invejosos, não éramos populares no colégio e o caralho…
- A peça foi assistida domingo dia 04 de abril de 2010, às 18h, no Teatro da FAAP, São Paulo. Ao custo de R$20,00 a meia-entrada.
2 atores, 2 cadeiras. E daí?
In on It na Bacante:
Cia. dos Atores na Bacante
Críticas:
Gaivota – Tema para um conto curto
Outros:
In on It e Enrique Diaz na Questão de Crítica




Confesso que fui a In On It cheio de preconceitos. Não gosto de peças com muita exposição na mídia, não gosto do teatro da FAAP (em geral, casa de “teatrão”). E detestei o prospecto: superficial, egocentrado, narrando peripécias do histórico da produção e da relação dos atores-diretor, com os clichês tietosos de praxe sobre o autor, sobre o texto etc. Virtude da peça (me recuso a chamar de espetáculo, e agora me apóio no texto desta mesma peça), que me fez sair de lá com a convicção de ter visto um bom teatro. O contraponto das 3 narrativas é muito bem organizado, ajudado por uma boa direção que traça as fronteiras com precisão (se não traçasse, talvez eu desse mais estrelas). O texto é sutil e emocionante. Há personagens de breve passagem, que ainda assim têm personalidade. Os atores se revezam entre os personagens e entre os planos com grande competência. Como pontos negativos, os temas tratados ficam no limite da narrativa casual, não se aprofundam e não propõem uma consideração filosófica mais profunda. E poderiam. E o autor (ou o diretor, isto eu não sei porque não li o texto original) parece perder um pouco o ponto ideal de parada. O escuro pós acidente, que leva a platéia aos aplausos, seria o ponto ideal da missão tranformadora da arte (vox populi …).
VOCÊS AQUI DA BACANTES SÃO MUITO, MAS MUITO MALAS, E TUDO O MAIS, MAS CONCORDEI COM ESSA CRÍTICA EM PARTICULAR, EM NÚMERO, GÊNERO E GRAU. BOA, EMILIANO.
Loyd, vc existe de verdade?
Só esclarecendo, essa crítica é do Paulo Bio!
Mas todos nós somos mala, porém com alça (o que ajuda né)!
eu gostei…apesar de achar as vezes um naturalismo meio forçado…tipo olha como sou verdadeiro…
mas não há como negar que é um bom teatro…perto de tudo que esta sendo feito por aí…to preferindo um churrasco!
beijos a todos os chatos da bacante
Pois é, não assisti ao espetáculo, mas adorei o texto do Paulo Bio Toledo! Parabéns! Parece ter sido escrito num fluxo só e saiu bem espontâneo e verdadeiro – talvez como se pretende o espetáculo In on It, que eu vou assistir no Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, que vai de 2 a 11 de setembro. Aliás, tenho de assistir, pois sou a blogueira do festival. Aproveito a deixa e convido ao Bio Toledo e todos os malas sem ou com alça que fazem ou leem este blog a visitar e participar do blog do Mirada! Merda pra todos nós!