Aquele pintor do quadro do cachimbo
Fotos: Henrique Sitchin
Sandra Annenberg: O ator vive do reconhecimento do público, certo?
Carlos Nascimento: Certo.
Sandra Annenberg: Nem sempre. Numa companhia de teatro de São Paulo, o desafio para os atores é passar despercebido pela platéia.
Carlos Nascimento: É uma turma que trabalha com bonecos que fazem o maior sucesso. Os atores ficam o tempo todo no palco, mas no fim do espetáculo, ninguém lembra deles.
Assim se iniciava uma reportagem de 2003, do Jornal Hoje, que comentava sobre o trabalho da Cia. Truks de Teatro de Bonecos. Se a Globo resolvesse mais uma vez colocar na pauta o trabalho da Truks, certamente as imagens iriam para o cenário do Fantástico.
Isto não é um cachimbo é uma peça que já diz a que veio no nome. Homônima de um trabalho do pintor surrealista belga René Magritte, a montagem recria os quadros do artista em cenas curtas e sem a utilização de uma única verbalização. As cenas não têm palavras, mas as transições sim – elas inclusive apresentam os quadros originais, de onde partiram para desenvolver as cenas. Algo didático e desnecessário, mas que não atrapalha o ritmo da peça, já que se incorpora como transição.
Magritte é um legítimo exemplar da cultura pop (não confundir com Pop Art), da mesma forma que são pops boa parte das imagens produzidas pelos surrealistas. Chego a esta conclusão depois de dar um rolê pelo flickr e pelo youtube, fazendo uma busca pelo nome do pintor. Muita, mas realmente muita gente já recriou seus quadros em outros meios e situações. A criatividade da Truks está em fazer o que todo mundo já fez, mas usando pequenas histórias. Mesmo que sem um nexo de sentido claro, é legal reparar que quando se consegue uma apropriação, os temas revisitados tendem a comunicar ainda mais do que os quadros originais. Dessa forma, Magritte é não só recriado, mas colocado na ordem do dia, arrisco dizer revitalizado.
Mais interessante ainda (interessante é pra tentar achar palavras genéricas e não fechar o sentido das histórias, como sugere o programa) é reparar que um grupo de teatro de animação (ou de bonecos), que retira o corpo dos atores do centro da cena, se propõe a pesquisar e recriar a obra de um pintor que por diversas vezes utiliza justamente o corpo como tema. Ainda com foco nesta aparente contradição, cabe destacar que eles também não se furtam de tirar os bonecos de cena, quando é o caso de recolocar um ator ou um performer - vide a última imagem dessa página.
Se você é hippie e ainda vive nos tempos do sexo livre, leve seus filhos para ver essa peça. Como diria um amigo diretor com quem muito aprendi sobre teatro, o potencial dessa peça como primeira experiência teatral para crianças é algo inimaginável quando pensamos a longo prazo (mesmo com toda a carga de erotismo). Não é exatamente o que diriam numa possível chamada do Fantástico, mas quem é que acredita neles depois que demitiram a Glorinha?
4 cabeças diferentes para o mesmo boneco



