Macumbinha Grega
Fotos: Lenise Pinheiro
Já confessei anteriormente na Bacante a resistência que tenho tido nos últimos tempos em assistir a qualquer nova montagem de tragédias gregas, por um motivo simples e claro: foram tantas em cartaz nos últimos meses que estou tendo quase uma overdose de Cassandras, Orestéias e Ifigênias. Mesmo assim, semana passada decidi encarar mais uma: desta vez uma adaptação de Medéia, no Viga Espaço Cênico.
Em Itãs Odu Medéia, a proposta é um tanto inusitada: resultado de uma pesquisa acadêmica da atriz e diretora Luciana Saul, o espetáculo mescla o clássico grego com rituais e mitos do candomblé, que inspiram todas as partituras físicas criadas pelos atores, os figurinos brancos adornados pelas cores dos orixás, a construção do cenário e as cocadinhas oferecidas para a platéia.
De tudo o que vi, duas coisas me chamaram muito a atenção. A primeira foi o estranhamento causado pelos repertórios de ações de cada personagem. Em alguns momentos, ficou a sensação de que faltou lapidar um pouco mais os movimentos para que se tornassem mais orgânicos. Por outro lado, são tão raras as vezes em que vemos um espetáculo com tamanha preocupação em trabalhar o corpo do ator, que o texto acaba – de fato – ganhando peso menor. E talvez este seja o maior mérito do espetáculo.
O segundo aspecto que chamou minha atenção foi a cenografia, ou melhor, a disposição de tudo o que está em cena. O sótão do Viga inteirinho tornou-se espaço cênico: as paredes, as arquibancadas, tudo. Onde ficava a platéia nessa bagunça toda? Em cadeiras, poltronas, almofadas e caixotes dispostos ao redor do espaço, em meio aos véus, redes, galhos, cordas e luzes que compunham o cenário. Tudo era espaço cênico e tudo era usado, desde a galeria de entrada do Viga até a salinha ao fundo, que eu pensei ser coxia até a platéia ser convidada a entrar, em um momento ritualístico.
Talvez estas interações com a platéia não fossem tão necessárias – salvo se houvesse uma radicalização maior, um significado maior para justificar que nos levantássemos, pegássemos as velas e fizéssemos parte do ritual. Fora estes pequenos detalhes apontados pelo ranzinza de saco cheio de tragédias que aqui escreve, vemos aqui um pequeno grande espetáculo desapegado de fórmulas prontas e que demonstra uma verdadeira pesquisa formal.
A proposta de dramaturgia, baseada em fragmentos de Eurípides, Sêneca, Heiner Müller e Chico Buarque, dialoga bastante com a experiência realizada pela companhia Apnéia em sua Ifigênia. A diferença é que aqui eles foram mais felizes em partir para um estudo de um universo totalmente distinto e de um trabalho corporal mais intenso, enquanto lá eles acabaram se perdendo em verborragia.
Apesar dos altos e baixos, justamente por esta pesquisa e pelo ambiente criado pelo grupo para contar a história, dá vontade de rever o espetáculo. Pena que vi justamente a última apresentação. E o pior é que nem pude ficar pra me alcoolizar com o coquetel do fim da temporada… quem sabe se voltar ao cartaz, né?
3 cocadinhas e um coquetel (que não tomei)

