Críticas

IV Mostra do Cemitério de Automóveis

por Juliene Codognotto

1 Comentário 01 May 2007

A farsa de uma criança que convive com a violência bruta da metrópole desde os cinco anos

Com 5 anos, Fabrício Muriana já acompanhava o Cemitério de Automóveis, que ainda era também uma criança com apenas oito anos. O menino chorava, emocionado, quando via Bortolotto entrar em cena, bêbado e desarrumado. 17 anos depois, já como editor da Revista Bacante, ele volta ao CCSP para, na platéia, chorar mais uma vez, quando Bortolotto entra, mais uma vez, bêbado e desarrumado. O mesmo personagem? Não. A mesma peça? Não. Só o mesmo dramaturgo e o mesmo Cemitério, agora comemorando 25 anos de existência.

Até o local mudou. Bortolotto entra em cena bêbado e desarrumado no porão do Centro Cultural, local muito adequado e bem utilizado, que amplia a intensidade das sensações e dialoga muito com o universo que o grupo expõe. Apesar do barulho da 23 de Maio.

Desta vez, a Mostra contava com a presença de Cris Couto e Bárbara Paz, para lotar a arquibancada. E tinha a mais nova peça do grupo, Chapa Quente, que Fabrício não reviu, para evitar repetir a decepção da primeira vez, na estréia da peça, em que a adaptação dos quadrinhos de Kitagawa ficou aquém das expectativas, pela perda na profundidade dos personagens, característica tão marcante na obra do bebum.

Mas, para além disso, a quarta mostra teve, talvez, mais problemas e imprevistos do que as anteriores somadas, mas mais experiência e ousadia para contornar tudo e acontecer, simplesmente, com direito a cerveja no boteco, depois da peça, e a recepção do simpatisíssimo cenotécnico Régis Santos, antes dos espetáculos.

Foram, no total, seis peças. Era pra ter sido sete, mas por problemas com elenco, uma delas – Tempo de Trégua – se foi. A perda dói, mas Fabrício agüenta firme e assiste as outras, com exceção de Chapa Quente, por razões já expostas. Ele relembra sua infância enquanto vê a excelente e bruta A frente fria que a chuva traz, as esquetes falsas de Faroestes, o elenco gigantesco para os moldes tradicionais cemiterianos que atua na quase fábula Ovelhas que voam se perdem no céu, a melancolia incômoda de Efeito Urtigão e, finalmente, a mistura das famosas com o casal 20 do grupo na pessimista e verdadeira Felizes para sempre.

Tinha mais problema pela frente, afinal, não é coisa pouco ousada fazer uma mostra de oito semanas e seis dias por semana, com seis peças se revezando. Nesse ponto, só não deu pra entender muito bem o privilégio de oito sábados e domingos concedidos a Chapa Quente. Ok, era a montagem mais nova, mas, certamente, não a melhor delas.

Enfim, o que veio daí em diante foi dor de garganta, falta de voz, perda de ator, compromisso com a Rede Globo (afinal, quem é que pode deixar o Vídeo Show na mão?), problemas com o som… e mais outras dificuldades que nem o Fabrício soube, pois foram enfrentadas nas coxias inexistentes do porão.

Além de talento e experiência, corroborou para a solução dos problemas, o apoio financeiro (?) – não facilmente conquistado – da Prefeitura de São Paulo. Que bonito é a política ajudando a arte!

Fica, no final, uma imagem de superação. E, claro, um histórico que o Fabrício conhece bem. Histórico de um grupo em que as atuações destoam completamente umas da outras, em que a preocupação com a qualidade da dramaturgia supera todas as outras preocupações cênicas, em que a trilha sonora vai ser sempre alguma coisa que você já ouviu alguma vez, mas jura que não era daquele jeito, em que a mensagem vai sempre ser algo muito incômodo sobre a realidade maluca em que se vive nas grandes cidades. O Fabrício agradece, volta sempre – mesmo que tenha uma escada chata até o seu lugar na platéia – mas não deixa de perceber as deficiências, que foram muitas.

O que a galera acha

1 comentário

  1. Anonymous says:

    Mostra do Cemitério, outra vez ?????????


E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).