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Críticas

Kerouac

por Fabrício Muriana

Nenhum Comentário 17 March 2007

De bêbado pra Bêbado

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=jBILjdzkpzU]

Ai, como queria estar sóbrio pra escrever essa resenha. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo? Dinheiro pra peça, vontade de ver, tempo e sanidade pra escrever. Melhor assim. Faço questão de escrever agora, por impulso, como deve ser a resenha de uma peça que fala de Kerouac.

Quem somos nós, próximos desse personagem tão contraditório quanto Kerouac?Cristão, maconheiro, caroneiro, escritor, beatnik enfim. O fato é: enganam-se aqueles que acham que Bortolotto interpreta ele mesmo. De forma alguma. Kerouac tem muito mais contradições do que o personagem Bortolotto que habita a praça Roosevelt. O que há sim é quase um tributo àquele que tanto influenciou toda a obra de Bortolotto.Vejo nos arroubos de falas que não terminam nunca uma vontade de interpretar o ininterpretável. Bortolotto não tenta se fazer Kerouac como clone e isso é ponto positivo pois não se rende à tendência do cinema de produzi-los (como Capote, Ray, Rainha Elizabeth, entre tantos outros). Bortolotto se quer Mário interpretando Kerouac e isso
é humilde.No fluxo de pensamento transformado em fala, vê-se que há ali uma entrega maior do que a usual, por parte de Bortolotto. Direção do Fauzi Arap? Atmosfera aproximada das peças do cemitério? Indetificação pessoal do ator? Não se pode afirmar com certeza, mas o que se mostra na encenação rende bons frutos, pros curtos 50 minutos
de espetáculo.

Esbarra, entretanto, na dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça, que não confere nenhum verdadeiro conflito complicado para interpretar o personagem, e, na voz de Affonso Prado, “não há nada ali que não possamos inferir numa busca simples á Wikipedia”.

(Ouvindo Amy Winehouse) Não adianta se fazer manco; apesar da entrega, não há Kerouac naturalista que sustente a força do escritor que influenciou até quem não queria, interpretando uma dramaturgia sem conflitos. Mas há sim uma vontade tão grande, mas tão grande que é capaz de produzir massas de saliva seca branca na ponta da boca. Juro que pensei que o dramaturgo ia infartar, e como adoro ter essa sensação em um ator.

Mas falta ousar, falta representar mais do que fazer de forma literal tudo que foi esse monstro da literatura. Vamos ver o que o cemitério apresenta na mostra do CCSP. Por todo o histórico de montagens, tenho certeza que posso esperar mais. Em dramaturgia, sobretudo.

2 miniaturas de Jack Daniels

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