Críticas

La Lupe – Puro Teatro?

por Juliene Codognotto

1 Comentário 11 March 2008

Uma trajetória recortada, misturada e colada no palco

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Apesar das dificuldades de assistir a um monólogo em espanhol (e espanhol cubano!) sem legendas – ou pior, com legendas projetadas quase no teto que às vezes se via, às vezes não e outras vezes ainda paravam de repente numa frase qualquer – é possível apontar os méritos do espetáculo cubano La Lupe – Puro Teatro?: entrega total da atriz e escolha de uma personagem histórica de Cuba que continua revelando problemas atuais do país e da própria arte de maneira geral.

No auditório Simón Bolívar, não era tarefa das mais fáceis enxergar as muitas expressões da atriz que emprestava rebolado e voz à cantora conhecida como La Lupe. No entanto, era muito clara a dedicação ao estudo da personagem e as variações de ritmo e emoção imprimidas pela atriz a cada momento da história da artista, numa intensidade dramática tal que ela parecia encarnar a cantora cubana mais ou menos como a Whoopi Goldberg encarnava o espírito do Patrick Swayze.

Ao adaptar para o teatro a vida de La Lupe, Roberto Pérez León (autor) e Bábara Elba Rivero Sánchez (diretora) escolheram pitadas de momentos alegres e glamourosos para contrastar com momentos difíceis relacionados, entre outras coisas, aos amores que teve e ao racismo que enfrentou.

Para brincar com esta espécie de pêndulo da vida, optou-se por brincar com a cronologia do espetáculo. Momentos do início da carreira misturavam-se com situações ocorridas no auge e, posteriormente, com frustrações, que, por sua vez, remetiam ao início. Separação, filhos, casamentos. O cenário cheio de redes de pesca e de cor predominantemente bege remete ao início da trajetória e contrasta com o figurino que remete ao glamour das apresentações. Sofrimento, canto, riso. Tudo misturado, embolado: a radicalização utilizada para encenar uma vida repleta de altos e baixos.

No âmbito de um Festival Ibero-Americano que ocorre menos de um mês depois da renúncia de Fidel Castro, o que mais chama a atenção na peça e a faz atual é a menção à imigração, a Nova Iorque e à necessidade de aprender inglês. La Lupe lamenta que os filhos só sonham com neve ou Coca-Cola (aproveita pra ironizar o fato de Coca-Cola ser usada na cuba libre), reclama da frieza da cidade de Nova Iorque, chora as saudades de Havana e ainda afirma que é impossível um cubano conseguir “sentir em inglês”. Num dos momentos mais tristes, a cantora diz que teria ficado em sua pátria, mas que não foi possível. Conhecendo,ainda, as dificuldades de trazer artistas cubanos para apresentações em outros países, a peça faz pensar, neste momento em que o poder político cubano é tão frágil e incerto, no por que tantas pessoas desse povo foram obrigadas a sentir saudades – uma reflexão que precisa ir além da doidera que se instalou na cabecita do ex-líder revolucionário e considerar todo o contexto para, quem sabe, não ficar simplista como as reportagens da Globo sobre a renúncia do moço.

4 pessoas na fileira T fingindo que conseguiam ver a lágrima que caía do olho esquerdo da atriz.

PS.: O site Cuba Escena também publicou uma crítica dessa peça, muito mais detalhada do que esta, mas em outro contexto. Tá em espanhol, mas pelo menos a legenda não vai parar no meio da frase.

O que a galera acha

1 comentário

  1. Rodrigo says:

    Adorei o texto. La Lupe, incrível!


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