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Críticas

La turista

por Astier Basílio

2 Comentários 02 December 2008

Play at again, Sam Shepard

Não resisti quando vi na estante na livraria Cultura, em Recife, um exemplar do Quatro Peças de Sam Shepard. Morri em 56 paus. Por falar em morrer, se eu tivesse de fazer uma daquelas listinhas da moda, tipo “50 filmes para ver antes de bater as botas”, colocaria Paris, Texas no topo. Que tem a ver uma coisa com a outra? É que gosto muito desse filme antes mesmo de saber que o roteiro é de autoria do Shepard, eu que pensava que quem tinha me apresentado ao dramaturgo americano tinha sido o Nelson de Sá por meio de suas páginas ou de seus posts. Nunca vi nenhuma montagem do Shepard, seja por estas paragens tabajaras, seja por festivais alhures (advérbio que significa “por aí”).

Recentemente tivemos montagens de autores de língua inglesa como Albee (mais velho que Sam) e Sarah Kane (mais nova que Sam). Se um autor não é tãããão montado – mesmo que Shepard o seja, não tenho dados pra dizer isso, mas não conheço montagens pululando pelos nossos palcos desse autor – portanto, mesmo correndo o risco de generalizações e simplismos, há de se pensar nas seguintes opções:

a) seu teatro envelheceu

b) seu teatro não comunica ao público brasileiro

c) seu teatro não tem contrapartida social

d) seu teatro não atrai o público civil

e) opção Gilberto Gil: “Todas as alternativas estão erradas e corretas. Ou não”.

Do livro do Shepard li La Turista, traduzida por Marcos Reaux e Otavio Frias Filho. A peça foi escrita em 1967, na véspera do ano que não acabou mais nunca. Acho que vale um túnel do tempo: foi nesse ano que a Academia Brasileira de Letras empossava o dramaturgo Joracy Camargo – o autor de Deus lhe Pague (ganha um brinde quem for da TV Colosso pra cá e tiver lido ou visto a peça); e Plínio Marcos… escrevia Navalha na Carne.

Fiquei pensando em como seria montar o Shepard – Alôou! Aviso didático, isso é uma crítica de uma peça sem montagem, tá? O texto dele é quase uma receita de bolo. Como um super-dramaturgo dá indicação de figurino, luz, cenário, marcações. O Shepard, que o Bortolotto vez por outra cita, ao escrever suas rubricas parece um pastor alertando os encenadores que a “larga é a porta que conduz à perdição“. Alguma coisa em comum entre o Sam e o Mário? – Tenho a impressão de que já vi esse filme, sobre o lance do texto, e o nome dele é Nossa Vida Não Cabe Num Opala.

Não vou citar todos os exemplos de textocentrismo agudo. Você pode baixar a peça aqui. Mas, de indicação de luz, até chegar ao ápice de prever algumas rubricas para os atores pressupondo como será a reação da platéia. Folheei e vi que nas outras peças, no livro do Shepard, há de tudo: ameaças, marcações, plano de luz, figurino e exortações.

Continuei pensando numa montagem do Shepard, desta vez com uma companhia da Paraíba. La Turista se estrutura em dois atos, no primeiro nos mostra um casal burguês americano de férias no México. A impressão que chega é de que eles vão fazer algo como um tour favela, pelo vizinho pobre. Em seguida, entra um moleque, um chicano. Aí viu, né? O caldo entorna. Até então mais uma vez uma crítica telegrafada ao american way life. Hum-rum, mas e aí? Tem mais o quê?

O que é que tem mais? Aí o Shepard transforma o guri quase num terrorista. A atmosfera que se cria, de opressão do casal nas mãos do moleque mexicano, me lembrou um filme do Michael Haneke, o Funny Games, o filme mais violento que vi e no qual não se derramou uma única gota de sangue.

O 2º ato reproduz a mesma situação, mudam o cenário, agora é nos EUA e o opressor – um médico com o seu filho de ajudante. Há muito de relações de poder nesta peça. Shepard fala da relação com o outro. A peça põe questões como: de que maneira vemos o estrangeiro, o diferente? Não tive acesso ao original, mas inferi que na própria fala, o inglês e o espanhol demarcaram de modo sutil pontos de tensão e conflito entre os personagens – a parte que o moleque atende o telefone e diz: “Perdão me no habla espanõl” no momento em que ligam do hospital e o americano está precisando de um médico merece um elogio dos mais rasgados, daqueles que a editoria da Bacante pede pra gente cortar quando manda os pitacos.

Tenho que terminar contando uma historinha das melhores. Talvez nem tenha tanto a ver com essa crítica Manuel Bandeira (“poderia ter sido e que não foi“). Seguinte: um gênio – não, esse cara merece ser chamado de gênio! – espalhou que Al Pacino estava em João Pessoa. E mais. Iria pra uma festa – “Uma noite em Dubai” de um colunista social. Al Pacino faria “uma aparição surpresa”. Durante um dia todo só se falou nisso: alguém viu ele no restaurante; ele tá com amigos italianos; ele tem um apartamento em Natal e veio aqui anonimamente.

Fui checar a informação. Trabalho fazendo isso, né? O engraçado era que: a) ninguém dizia o nome da pessoa que o tinha visto, era sempre “um amigo”, “uma fonte” b) ninguém dizia o nome do restaurante onde Al Pacino havia estado c) não havia uma foto, feita de longe, de celular, nada e, por último e não menos importante, a fonte que o tinha visto era o assessor da festa desse colunista social, que no outro dia (algumas pessoas compraram ingresso pra tirar foto com o Poderoso Chefão) tratou de espalhar que seu Al estava muito do arretado porque haviam “furado” a surpresa.

A historinha do Al Pacino me serve de base para refletir sobre como o nosso olhar se condiciona a respeito do estrangeiro, de como os signos de margem e centro não estabelecem lugares pacíficos e demarcados. A peça La Turista tem essa fagulha, aponta pra se pensar sobre essas questões.

R$ 40, 90 – preço do DVD – O Assassinato de Jesse James
pelo Covarde Robert Ford
– uma das últimas aparições do Shepard no cinema.

Quem escreveu isso?

Astier Basílio

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2 comentários até o momento

  1. Astier eu quero um brinde!!!!!!
    Lembro que a Galisteu fez “Deus lhe pague” no final os anos 90!

  2. Astier Basílio says:

    ahahahahaha
    Cartola versão NEscau,
    specialmente procê, Milhano.


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