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Críticas

Larvárias

por Astier Basílio

1 Comentário 27 October 2008

Batendo um bolão

Fotos: Claudio Etges

Quando começou Larvárias, o piso do palco do Teatro Santa Roza estava todo branco. Cortinas brancas vazadas em vertical. Uma imensa bola branca em cena parecia dançar ao receber uma luz desenhada com um monte de estrelinha em movimento. Uma máscara surgia lá em cima da bola. Era uma espécie de cruzamento entre o Jason de Sexta-Feira 13, banda de rock Slipknot e os traços do Angeli.

Sentei na segunda fila. Para meu espanto pleno, na minha frente, um dócil gato branco debaixo da cadeira demonstrava muito interesse pelo espetáculo. Pensei: só falta alguém da platéia gritar: “I’m blind!!!“. Agora, pequena digressão importante para que eu possa comunicar aos leitores algo que, além de minhas forças, de alguma maneira me incomodou enquanto eu via a peça. Ei-la: Não lembro de ter dito antes, mas nas horas livres em que não estou escrevendo pra Bacante, dou expediente num jornal – mais precisamente no caderno de cultura. Sei que não deveria revelar a minha identidade secreta, mas vou correr esse risco de ser reconhecido na rua, como um Clark Kent de crachá, sem meus super-poderes. O caso é que eu tive que pesquisar sobre a Companhia do Giro, do Rio Grande do Sul, cujo espetáculo que critico era – tchan, tchan, tchan, tchan – a grande atração do Festival Sesc Cena Comunitária de João Pessoa.

Tive de penar no Google pra achar algumas informações, até que encontrei. E, para o bem da minha matéria e para o mal dos primeiros minutos de espectador, inventei de ler a crítica da Bárbara Heliodora, aí viu, né. Eu sou uma pessoa que se sugestiona fácil. Se, tipo, você me falar que fulano é ruim, eu já fico com raiva dele sem nem precisar ver a foto dele no orkut. A vantagem é que quando vejo que o fulano é do bem, passa a raiva. Eu sei, é um defeito, mas como eu já revelei minha identidade secreta, não tem porque esconder qual é a minha kriptonita.

A Bárbara falou que “O único e imenso balão branco que ocupa de início o centro do palco é mais um terceiro ator do que um elemento cenográfico”. Fiquei pensando que no ano que vem vou fazer mó boca de urna para o balão gaúcho vencer na polêmica categoria 4: “Prêmio AbiPet de Melhor Ator de Plástico” do II Prêmio AOCA.

Nos minutos iniciais do primeiro tempo, quem estava ganhando o jogo era o teatro físico : em cada detalhe, o corpo batia um bolão nos gestos mínimos, dava fintas e dribles belíssimos com partituras. Mas eu queria mais, eu queria o gol – o grande momento da partida! – eu queria uma combinação entre os signos construídos, as imagens que despertavam sentidos, em algo que me pudesse dizer qualquer coisa além da construção e do experimento.

Antes de, ops, a bola entrar em campo no segundo tempo (é a metáfora do futebol, a peça não se dividiu, ao menos claramente, em momentos; houve quadros, esquetes, movimentos, mas nada muito fechado, definido), as imagens e os signos foram se convertendo – pra mim – numa série de hiperlinks com a realidade. Já deu pra ver que eu adoro metáforas. Sou quase pior que o Lula. Então lá vai outra metáfora (vou falar sério, tá?): o branco evocado no cenário, balão e figurino – que mudou para o preto e o vermelho em outros momentos – cenarizam uma ambiência de incompletude a qual o espectador é convocado a preencher, e é nessa fronteira entre inacabamento e recepção que o espetáculo atinge seu número e circunscreve sua poética” (gostei desse período, merece ou não merece nota de rodapé com norma da ABNT?).

Daria até pra fazer um joguinho, ó. Convidar alguns contistas e pedir para eles assistirem ao espetáculo e depois escreverem histórias a partir da peça. Eu mesmo vi várias. O bobão que fica com a desinibida, mas acaba sufocando-a. Os diferentes se encontram e que dão as costas pro mundo. O bobão e a gorda que se casam e vivem infelizes para sempre. A adolescente com transtorno bipolar se arrumando pra ir pra rave, sem conseguir. O canceriano reprimido (ui) esmagado por seu mundinho interior.

8 minutos de um vídeo exibido após o espetáculo contando o processo de criação e onde eu ouvi pela primeira vez o eufemismo: “crianças em situação de rua”.

O que a galera acha

1 comentário

  1. Eu estava lá, foi lindo mesmo!
    não se explica!


E você, o que acha?

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