Críticas

Loucos por Amor

por Leca Perrechil

Nenhum Comentário 06 May 2008

Tudo em Família

Foto: João Caldas

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Mae (Rennata Airoldi) está parada perto da cama enquanto Eddie (Charles Geraldi) está um pouco mais afastado do público, próximo da mesa. Tensão. Os dois se olham. Sobe a música. Eles se aproximam lentamente, se entreolhando fixamente como se a chama de seus corpos pudesse apagar se perdessem contato visual. As distâncias entre os dois diminuem até se abraçarem. Ele cheira o cabelo dela, ela encosta a cabeça no peito dele. Beijam-se… até ela dar uma joelhada na perna dele, e ele cair urrando de dor na virilha.  

Essa cena de amor e ódio cinematográfica faz parte da peça Loucos por Amor, de Sam Shepard (um dos roteiristas de Paris, Texas), e diz muito sobre o tom adotado pelo diretor Francisco Medeiros para o espetáculo. Traços das interpretações e construções de cena parecem saídos de algum filme de drama (talvez do próprio Shepard?), incluindo a forma como é introduzida a trilha sonora (sabe quando sobe uma música dramática num filme, pra dar mais tensão à seqüência? Então!) e efeitos sonoros (como sons de tiro, porta batendo, pneu de carro, passos de uma pessoa caminhando). Aliás, o barulho das portas invisíveis sendo abertas e fechadas merece um parágrafo a parte.

Parágrafo a parte

Cada vez que um ator saía ou entrava de cena pelas portas invisíveis ao olho do público, como já deu pra entender, um ruído acompanhava o gesto, como se a porta realmente existisse, e produzisse aquele barulho. O release da peça, aliás, explica que este recurso já estava explicitado na rubrica do texto original de Shepard. Porém, essa brincadeirinha em cena acabou resultando em errinhos desnecessários. Vez ou outra, um ator abria uma porta que já devia estar aberta, ou o som não sincronizava com o gesto, ou abria a porta pelo lado errado (como se esta não tivesse dobradiça) e por aí vai. Mesmo quem não estivesse prestando atenção nesses detalhes, acabava pegando um errinho ou outro, de tanto que eles abriam e fechavam o objeto inexistente. E como a montagem dá muita atenção para os efeitos sonoros, essas gafes ganham destaque.

Fim do parágrafo a parte

A história é sobre a tumultuada relação de Mae e Eddie que, apesar de possuírem uma atração recíproca, não conseguem ter seu romance com final feliz (sabe, tipassim, Cinderella e o príncipe?) por causa de seus passados, que escondem até segredos (ohhhh!). Para completar o enredo, entra em cena também o atual namorado de Mae – que não sabe sobre ela e Eddie, e é uma espécie de tentativa dela de voltar pruma vida cotidiana – e o personagem interpretado por Umberto Magnani, pai de Mae e Eddie (ups! Contei o segredo). Ele funciona como uma espécie de observador onipresente – ronda a cena, tece comentários sobre ela, pra só depois interferir na ação. E é nesse momento que a história fica mais interessante, quando este pai tenta mudar o passado narrado pelos outros personagens. Ele representa os problemas que seus filhos ainda enfrentam por sua causa, e sua presença em cena – sempre rodeando o quarto do hotel onde se passa a história – é como se Mae e Eddie ainda estivessem assombrados por tudo o que ele causou. Para conseguir esse efeito, foi criado um cenário com paredes vazadas, como se fossem várias molduras de madeira de quadros de vários tamanhos, sem tela, unidas umas as outras.

O Grupo Já convidou para esta montagem o ator Umberto Magnani, por conta da comemoração de seus 40 anos de carreira – provavelmente você já deve tê-lo visto em uma das novelas da Globo e mais recentemente da Record. No programa do espetáculo, o ator afirma que apesar de ter tantos anos de carreira, quer mais. E completa: “Ah! Que profissão maravilhosa! Que Bênção! (…) Sou um privilegiado! Obrigado Deus!”.

A peça de Sam Shepard também ganhou releitura no cinema com o próprio autor no papel principal. A fascinação de Francisco Medeiros pelo trabalho do autor é tanta que o release do espetáculo já anuncia ele na direção de outra montagem de um texto de Shepard, Criança Enterrada, para 2009.

  2.999 ruídos de portas invisíveis sendo abertas e fechadas 

Adendo: A estréia do espetáculo no Teatro Coletivo Fábrica parecia ônibus lotado. Pra quem não costuma andar de transporte público (a maioria dos espectadores do dia), explico. Sabe quando todo mundo quer ficar perto da porta, e cada um que entra no ônibus (ou que chega ao teatro), vai se espremendo entre as pessoas pra tentar chegar o mais perto da porta? Sabe quando toda hora alguém te dá um empurrãozinho pela tão almejada porta? Então! Tinha até uma elegante senhora, vestida com um luxuoso casaco listrado de branco e preto, que saiu pedindo licença para passar, alegando ser idosa. O detalhe é que metade dos expectadores também eram idosos, inclusive muitos pelos quais ela passou.

E você, o que acha?

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