Críticas

Macbeth

por Daniele Ávila

1 Comentário 10 September 2007

Meu Braço Direito

Foto: Guga Melgar

A montagem de Macbeth dirigida por Moacir Chaves, com Bruce Gomlevski no papel-título e Márcio Vito – o thane de Itararé – no papel de Banquo, conta com um belo imprevisto. Antes de começar a peça, o diretor se dirige à platéia para explicar que o Bruce sofreu um acidente de carro (com uma pequena pausa para alguns “Oh!…”), mas que está tudo bem: ele apenas engessou o braço e está fazendo a peça normalmente. Só era importante destacar que o braço engessado não era uma opção da direção, mas uma contingência da vida. Recado dado, vamos à peça.

Entramos em cena (nós, a platéia). Tudo muito escuro. As cadeiras em que podemos nos sentar estão um pouco iluminadas por baixo da arquibancada. Atravessamos a arena e vamos nos acomodando, assim como nossos olhos. Aos poucos, vemos alguma coisa na parte do círculo que não tem arquibancadas: cadeiras outras – como os espaços outros do Foucault – lugares reais, porém distintos: está claro que naquelas cadeiras não podemos nos sentar. Assim o cenário inicia a peça como um presságio sinistro da história de um homem que vai ocupar um lugar que não lhe é devido, preparando o terreno para a primeira cena das bruxas. As tais cadeiras têm uma textura estranha, parece que acabaram de chegar da guerra, como o tal homem coberto de sangue da segunda cena do primeiro ato. A primeira a se sentar, se não me engano, é ela, Lady Macbeth. Faz sentido (se for isso mesmo). Também faz sentido a cena estar coberta por um tecido negro de filó acima das cabeças das criaturas malditas, como o tal manto dos vapores do inferno que deve impedir o céu de ver as feridas que o punhal vai fazer etc. e tal. A luz dos refletores se espalha no pano, deixando formas elípticas, como estrelas desmoronadas, espectros de estrelas nessa longa noite esquisita. Porque essa peça só parece ter noite ou mais noite ainda.

Já as bruxas, lindas e imberbes, vêm abrir a peça com um pouquinho menos força do que o cenário. As atrizes são bacanas, mas muito bonitas. Mulher feia não tem vez nesse mundo, nem pra fazer papel de bruxa. Ô azar! Enfim… O elenco já ganha ponto por não ser uma coleção de figurinhas repetidas. A partir de uma oficina, o diretor selecionou atores e atrizes para a montagem. Talvez isso tenha colaborado para que ele não fizesse escolhas óbvias e permitido que ele corresse alguns riscos. O próprio trabalho com o corpo e a voz dos atores procura uma expressividade diferente. Durante a peça, fiquei com a expectativa de que eles fossem mais longe, que o desenrolar da trama fosse contribuindo para entortar ainda mais a visualidade da cena. Tive vontade de ver as técnicas mais desenvolvidas. No entanto, ficaram mais evidentes os traços, as indicações de uma pesquisa do que a concretização de uma forma de estar em cena. Mas só isso já deixa tudo mais interessante. A iluminação, que abre mão de “iluminar” no sentido mais literal, contribui para a deformação das figuras. A opção por colocar algumas cenas quase no escuro e explorar as sombras nos rostos dos personagens faz com que a luz dialogue diretamente com o cenário e o figurino.

A estrutura circular da primeira cena combina com a articulação da fala que vai nortear a sonoridade do espetáculo: ela foge à linearidade da sintaxe e parece obedecer a um ritmo próprio, mais sonoro do que racional. No entanto, este modo de falar nem sempre se encaixa tão bem. A tradução utilizada atravanca a ação, o que já aconteceria de qualquer modo com este registro de voz não-convencional. As duas coisas juntas comprometem um pouco a dinâmica de algumas cenas e a compreensão do que é dito. Eu gosto da tradução da Bárbara, acho que ela dá vozes diferentes a cada personagem sem perder o rebolado shakespeariano, mas entendo a opção da direção: o Manuel Bandeira e os portugas – que fizeram a tradução que inspirou esta – se refestelam nas mesóclises. E mesóclise é tudo de bom na vida.

Mesóclise é quando uma coisa se enfia no meio dos verbos e muda a direção deles sem mudar o seu sentido. Como o braço engessado do Bruce. O gesso está por dentro do figurino e o que vemos é um Macbeth sem braço, com o tronco deformado pelo volume que está por baixo da roupa. Ainda por cima, ele manca um bocado. Parado, parece um personagem do Titus Andronicus que foi parar na peça errada. Andando e falando, tem traços de um Ricardo III. Seu braço direito amputado é uma metáfora possível para o assassinato de Banquo. A Lady é o seu braço esquerdo, na sua linha de raciocínio enviesada. Todos os seus gestos são feitos com a mão errada: pegar o punhal, matar Duncan, mandar e desmandar. Macbeth faz tudo torto com esse braço esquerdo. E assim ele se torna o que é. A contingência da vida ganhou sua parcela de significação: não ter um braço direito pode ser o que faz Macbeth ser Macbeth.

10 cadeiras roubando a cena, no bom sentido

O que a galera acha

1 comentário

  1. paula says:

    vou ver a peça agora com mais entusiasmo(!) e com vontade de entrar na atmosfera shakespeareana e ouvir a história que eles têm pra contar. valeu, Daní! beijos


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