O universo infantil não cabe em palco italiano
Foto: Dalton Valerio


Teatro, com cara de vídeo-arte, com cara de performance, com cara de colagem. Manifiesto de Niños, último trabalho do grupo El Periférico de Objetos, é algo que está no meio desse monte de nome e por isso é absolutamente contemporâneo. Quem espera um palco se surpreende com uma caixa branca, fechada, de pé direito alto, com vídeos projetados nos quatro lados e pequenas janelas que só os “adultos” podem ver. Por estas janelas vemos três atores/performers/crianças fazendo uma releitura do universo infantil. Lá dentro há stencils, muitos bonecos, televisores e um universo onde não podemos mais entrar.
Os nomes de 100 crianças que morreram cruelmente ao longo da história recente da humanidade são listados em voz alta. São crianças judias que morreram no holocausto, crianças mortas por conta da ditadura na Argentina, crianças assassinadas na frente da Candelária, enfim, crianças anônimas que são relembradas. Essa leitura traz ecos de Nós que aqui estamos por vós esperamos de Marcelo Masagão.
Daniel Veronese, um dos três diretores da montagem junto com Ana Alvarado e Emilio García Wehbi, esteve no Festival de Porto Alegre com Espía una Mujer que se Mata, uma adaptação de Tio Vânia, de Tchekhov. Quem viu essa montagem nunca esperaria que o grupo do diretor fosse trabalhar com poéticas tão distintas. Em Espía, somos colocados numa semi-arena, o texto é clássico e os atores mostram um trabalho naturalista. Em Manifiesto, por mais que encontremos personagens bens construídos, eles não têm passado e não têm futuro, não são bons nem ruins; são só crianças, que materializam o universo infantil e interagem com olhos ingênuos. Como semelhança, é notável a preparação dos atores para ambas as montagens.
Além da possibilidade de assistir pelas janelas, a performance dos atores é transmitida por quatro câmeras, o que pede a todo momento uma edição feita pelo próprio público. No ano passado, o grupo Gob Squad esteve no riocenacontemporanea e apresentou seu Super Night Shot, cuja performance gravada uma hora antes do espetáculo, era exibida em quatro telas. O pressuposto da edição feita pelo público é o mesmo, mas em Manifiesto de Niños há ainda mais informação a ser editada, porque tudo acontece enquanto se assiste. Incorpora-se o tempo presente pra reforçar a sensação de que o “manifesto das crianças” está na ordem do dia.
A única ressalva fica para o texto final de Horácio Gonzalez, sobre os brinquedos de corda. Os diretores foram cuidadosos para selecionar um texto que não explicasse o espetáculo, mas que sugerisse outras questões. Mesmo assim, acho que faltou acreditar mais na livre-associação que o público faria, ao ver uma cena com todos os brinquedos de corda. O texto nesse ponto fala muito menos que a cena, entra quase como legenda, por isso talvez tenha sido um excesso.
Manifiesto de Niños chega nos últimos dias do riocenacontemporanea e sugere um “manifesto”, tão característico das vanguardas artísticas do final do século XIX e início do século XX, feito por crianças, com uma linguagem que aponta para o futuro da representação.




Eu assisti “Hamlet Machine” deles em 94… acho. Foi a primeira peça “contemporânea”(?) que vi na vida. Fantástico!