Maria Stuart e os valores “universais”

Quando Friedrich Schiller escreveu Maria Stuart, em 1800, já se encontrava com 40 anos de idade em Weimar, na companhia da amizade de Goethe. Não era mais o idealista entusiasta do Sturm und Drang pré-romântico alemão, em choque direto com a sociedade. Porém ainda conservava os valores humanistas da juventude, como a verdade, a liberdade individual, a justiça, a moral etc. Valores que se observados dentro do contexto histórico corroboram alguns dos ideais revolucionários da burguesia européia (principalmente a francesa) em luta contra o absolutismo aristocrático.
A tragédia de Maria Stuart é escrita por Schiller com um cuidado excepcional. A construção da retórica das personagens, a métrica das falas, o lirismo das exclamações parece ter sido lapidado por décadas. O resultado é uma obra de beleza descomunal, aos olhos deste que vos escreve, – cujo lirismo foi magistralmente captado por Manuel Bandeira na tradução utilizada pela presente montagem da obra, no Teatro SESC Anchieta. O poeta brasileiro, mesmo usando da conjugação formal, bem pouco utilizada por nós, consegue uma fluidez belíssima que por vezes nos faz duvidar que a obra tenha sido mesmo escrita em alemão.
No entanto, quando se transporta tal texto, de alto teor lírico, para os palcos do teatro, gera-se, muito facilmente, um estranhamento; uma sensação de artificialidade nos diálogos e certa disritmia entre a ação e o texto. A montagem protagonizada por Julia Lemmertz e Lígia Cortez por vários momentos incorre nessa desproporção dando a impressão de um longo recital cujas palavras pouco reverberam nas personagens ou nos atores. A sensação, todavia, não é constante, pois algumas personagens masculinas invertem o jogo e enfatizam a ação e a situação dramática na representação diminuindo, por exemplo, a ênfase declamatória das protagonistas.
Mas esse estranhamento faz emergir mais do que os questionamentos estilísticos e formais da peça e de sua montagem. Ele traz à tona, num jato gélido, a iminência da dúvida sobre quais os significados da tragédia clássica alemã montada na íntegra no contexto brasileiro do séc. XXI. Podemos supor, pois nesse campo do discurso só podemos trabalhar com suposições, que se pretende afirmar ali alguns dos valores já propagados por Schiller na virada do séc. XVIII para o XIX. Parece-nos que o espetáculo dirigido por Antonio Gilberto encanta-se com as protagonistas da obra justamente nas suas angústias existenciais evidenciadas no confronto entre poder e justiça; indivíduo e Estado; verdade, responsabilidade e política etc. O resultado desses entrechoques redunda, todavia, num humanismo ético e subjetivo.
No entanto, a afirmação humanística de Schiller se dá num período histórico onde o absolutismo totalitário fundamentava-se numa infinidade de privilégios de sangue, arbitrariedade decisória, opressão etc. Desse modo, a afirmação de valores como a liberdade individual alinha-se com a luta revolucionária burguesa dos sécs. XVIII e XIX. A re-afirmação desses termos no contexto atual incorre num discurso ambíguo. Se, por um lado, há uma lógica discursiva que conclama uma revisão moral desses valores “fundadores” da sociedade capitalista burguesa – como a verdade, a justiça, a liberdade individual etc.; por outro, a ode moral ao humanismo subjetivo, em concomitância com as prerrogativas ético-sociais do indivíduo burguês, tende a enfatizar e sustentar, culturalmente, o status quo dominante – e, nessa perspectiva, tornar-se mais um produto que fomenta o falso imaginário da “inevitabilidade histórica” de nosso sistema político econômico. Contribuem a essa interpretação, obviamente, os meios de produção que circundam o espetáculo: relação empresarial de produção, promoção, em destaque, da Rede Globo de Televisão, marketing sobre a fama das atrizes principais, etc.
Desse modo, a obra, a despeito de ter sido montada praticamente na íntegra e sem inserções significativas de encenação, atualiza-se automaticamente e adquire uma perspectiva política – intrínseca a toda obra de arte – mesmo quando a escolha é pela deliberada “não-atualização” da peça Maria Stuart. O que denota, todavia, um escamoteado posicionamento político frente à conjuntura contemporânea, que, ao contrário de Schiller, parece ser bem mais reacionário que revolucionário.
3 horas de peça. fim do espetáculo às 0h50, quando não existe mais transporte público em São Paulo…


É aquela velha onda: a obra se basta e a culpa é do espectador?
bla bla bla…