Críticas

Minha mãe

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 18 March 2008

Uma lupa na putaria nossa de cada dia

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Fotos: Divulgação

Segundo o Seu Aurélio, pai do Sérgio e vô do Chico:

Culpa: (do lat. culpa) 1. Conduta negligente ou imprudente, sem propósito de lesar, mas da qual proveio dano ou ofensa a outrem. 2. Falta voluntária a uma obrigação, ou a um princípio ético. 3. Delito, crime, falta: “Não blasfemeis contra Deus, minha mãe, que é enorme culpa” (Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas, II, p.37. 4. Transgressões de preceito religioso; pecado. 5. Responsabilidade por ação ou por omissão prejudicial, reprovável ou criminosa: A criança não tem culpa de haver esquecido os livros em casa; A moça não tem culpa de ter despertado tão grande paixão. 6. Jur. Violação ou inobservância duma regra de conduta, de que resulta lesão do direito alheio.

Liberdade: (do lat. libertate) 1. Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação: Sua liberdade, ninguém a tolhia. 2. Poder agir, no seio de uma sociedade organizada, segunda a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas: liberdade civil, liberdade de imprensa, liberdade de ensino. 3. Faculdade de praticar tudo quanto não é proibido por lei. 4. Supressão ou ausência de toda opressão considerada anormal, ilegítima, imoral: Liberdade não é libertinagem, liberdade de pensamento é um direito fundamental do homem. 5. Estado ou condição de homem livre: dar liberdade a um prisioneiro, a um escravo. 6. Independência, autonomia: Brasil conquistou a liberdade política em 1822. 7. Facilidade, desembaraço: liberdade de movimentos. 8. Permissão, licença: tem liberdade de deixar o país. 9. Confiança, familiaridade, intimidade (às vezes abusiva): Desculpe-me, tomei a liberdade de vir aqui sem telefonar-lhe; Muito comunicativo, toma às vezes certas liberdades que me aborrecem.

Na peça Minha Mãe, o contexto a la Sade, a trilha sonora grave e uma personagem libertina doida servem como desculpa para nos fazer refletir sobre os dois conceitos minimamente definidos acima. A mãe de Pierre, Hélène, nos conduz a um exagero que, a princípio, choca. Natural, afinal se sua mãe quisesse “fazer amor” com você (pra ficar na linguagem polida e sutil dos professores de ética), como você se sentiria?

No entanto, passado o choque com o comportamento dessa mãe-viúva-libertina – cujo objetivo de vida é desencaminhar o filho – nasce um conflito íntimo. Estamos, então, diante das nossas próprias culpas, que podem não advir de desejos tão absurdos quanto os de Hélène, mas certamente fazem parte de um conjunto gigantesco de concessões que abrimos cotidianamente pra nos encaixarmos melhor na forminha da sociedade.

Até que ponto somos livres, se tantas atitudes simples nos causam um sentimento dolorido de culpa ou se, por medo da culpa que venhamos a sentir, sequer arriscamos agir fora da norma? (Ficar pelado no grupo de teatro ou na terapia em grupo não cabem aqui como exemplo de agir fora da norma. Isso todo mundo faz.)

Essa reflexão, claro, não se restringe ao âmbito sexual, mas é nesse aspecto que aparece de maneira mais clara e evidente. Deixemos, porém, para os seguidores de Freud o aprofundamento teórico sobre as graves conseqüências do desejo sexual reprimido, pois ainda é preciso falar do monólogo de Bia Toledo. Uma atriz entregue e corajosa que transforma o próprio seio em personagem e muda de tom e expressão a cada piscadinha da iluminação. Aliás, surgem boas transições entre cenas na interação da atriz com a luz, de modo que ficam dispensados os velhos blackouts com voz em off.

Claro que também há muito de velho ali e a peça traz pouca experimentação para a Sala Experimental do Teatro Augusta. No entanto, parece que a opção não é por criar novas linguagens, mas por resgatar velhas temáticas que estão no nosso cotidiano (ou você nunca disse, por exemplo, que sua chefe é uma mal-comida?) e que passariam batidas se ninguém colocasse uma lupa diante delas.

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2 psicanalistas indo ao delírio na platéia

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