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Críticas

Miranda e a Cidade

por Leca Perrechil

3 Comentários 30 September 2008

Uma cambalhota, duas cambalhotas, bravo, bravo!

Antes do início da peça, os alto-falantes do teatro do SESI Paulista avisam: indicado para maiores de 14 anos por conter cena de nu. O momento em questão, na verdade é uma pagação de peitinho rápida, nada muito traumatizante. No programa do espetáculo, o dramaturgo Aimar Labaki diz que o texto “foi escrito há sete anos, para adolescentes. Hoje, chega ao palco com poucas alterações, surpreendentemente sintonizada com as questões do mundo adulto brasileiro de 2008″. Não, o texto não fala de iPhone e de uma São Paulo com internet banda larga de grátis.

Fato é que Miranda e a Cidade parece mesmo ser mais voltado para crianças e adolescentes do que para um público adulto, com atores circenses personificando animais e o mar, soltando sons como “nhoinhoinhoi” e colocando no texto piadas marotas. Não que tenha alguma coisa errada em ser voltado para um público de menos idade. Mas, se isso estivesse assumido, o público adulto que foi ver uma peça com linguagem circense inspirada no texto de Shakespeare A Tempestade, não ficaria dando uma de mala quando elementos do teatro infantil entram em cena. Além disso, menores de 14 não podem ver bailarinos em espécie de andaimes e voando em cabos de aço (sabe, tipo, elementos lúdicos?) por causa de dois peitinhos? (não estou discutindo os peitinhos, e sim que a peça tem bastante a ver com platéias de pouca idade… nada contra ou a favor dos peitos)

A montagem faz parte das comemorações dos 20 anos da Cia. Circo Mínimo e traz a ilha shakespeariana contrapondo-se à modernidade e realidade da cidade grande. Na história, Próspero é um publicitário que foi para a ilha com a filha para fugir da ditadura militar, depois de ter ajudado a difundir a ideologia dos milicos. Ele é obrigado a voltar para a cidade para continuar ajudando o regime com sua genialidade publicitária, enquanto deixa sua filha Miranda protegida na ilha (tipo, salva na ignorância, como daqueles que estão alheios às barbaridades que acontecem no país). Só que adolescente rebelde que é, a menina resolve ir atrás do pai, sozinha pela cidade grande.

A dramaturgia da peça força um pouco a barra em juntar a inspiração em Shakespeare com o circo e a crítica à ditadura, que fica em segundo plano até o final da peça, na conversa entre Miranda e o pai. Depois do diálogo, ela parece virar uma jovem da geração “caminhando e cantando e seguindo a canção”, agora que está fora da ilha e da tutela do pai. Mas antes do bate-papo decisivo, pouquíssimas referências foram dadas à ditadura. Tudo parece meio encaixado, inclusive esse personagem publicitário, uma espécie de poeta com talento de “transformar merda em ouro”, que usa suas habilidades para o mal. Sim, sabemos que a publicidade ajudou os militares, Hitler, Collor, Maluf e os russos comunistas, contudo a revelação mais pro fim da peça de que Próspero é publicitário e tem o poder de enganar e criar imagens falsas apenas aumenta a impressão de uma dramaturgia confusa, que deixa diversos motes importantes para a trama apenas para o finzinho.

Em contrapartida, o mais bacana do espetáculo é a mistura do teatro com os elementos circenses. Os atores permanecem fazendo acrobacias e movimentos com o corpo durante toda a apresentação, com a ajuda do cenário composto por grande estrutura de metal, diversão na certa pra subir e descer pelos canos. E a partir daí, são criadas cenas visualmente bem construídas e representativas, como o da secretária de ponta cabeça presa em tecidos. A montagem também brinca com os ritmos discrepantes existentes entre a ilha e o frenesi da cidade e insere elementos de diferentes culturas existentes nas grandes metrópoles.

Com elementos acrobáticos até nos momentos românticos, que fariam o Homem-Aranha ficar com inveja do beijo invertido (ou pelo menos exigir seus direitos autorais), a crítica à ditadura se perde e o objetivo do espetáculo permanece obscuro: o que o grupo quer dizer com a peça? Que conseguem fazer movimentos bacanas e montar cenas através do circo? Que as acrobacias são pano de fundo pra reflexão sobre o regime militar? Que o regime militar é pano de fundo pra acrobacias? Que publicitários não prestam? Que precisamos ainda hoje sair da ilha e encarar a realidade?

2,5 publicitários na Bacante usando suas habilidades para o mal 

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Alice Ruiz says:

    Atualmente atuar e escrever tornaram-se ações saborosas para diversos artistas, apenas esqueceram de um pequeno detalhe: é preciso estudar, pesquisar. Não se nasce com o talento e pronto. São tarefas precisas. Para escrever (dramaturgia) é preciso, no mínimo, conhecer a estrutura técnica de um texto dramatúrgico. Vejo atores, bailarinos e curiosos afins escrevendo textos teatrais e montando, alguns ficam até interessantes, alguns bons, mas a maioria fica cheio de lacunas e soluções instantâneas, desesperadas no final do texto, que amarra tudo para tentar dar algum sentido ao que foi escrito. Esquece-se que um bom final depende muitíssimo de como foi o meio (parte mais esquecida da história), quase sempre utilizam o meio do texto para dar andamento ou, como dizem no populacho, para “encher lingüiça”, muito pelo contrário o meio é fundamental é nele que o conflito estabelece-se, aliás, a maioria deste espetáculos nem mesmo há conflito algum, estes espetáculos costumam apresentar suas personagens no começo, dar-lhes uma missão, que eles cumprem e no final mostram ao público o que aprenderam, sem nenhum impecílio, sem nenhum questionamento, sem desvio, sem falha trágica (mesmo nas comédias ela é fundamental). Por favor senhores, lembrem-se que dramaturgia tem seu formato, assim como outras formas de redação e composição literária, não é só ter uma idéia legal e fazer, não é só ser criativo é preciso conhecimento técnico. Especificamente quanto ao novo (velho) espetáculo do Circo Mínimo, não é novidade esta confusão de gênero (infantil, adulto, jovem…). É comum o diretor Rodrigo Matheus tentar falar de um assunto sério, almejar um peso dramático, mas jogar tudo nas imagens e trilha sonora e revelar sua “alma de menino” em cena, criando um espetáculo que não é nem infantil nem adulto e nem para o público em geral, um espetáculo “meio”. Ele deveria assumir a sua capacidade de trabalhar com espetáculos infantis, seria fantástico! Porque os seus espetáculos adultos ou pesam na pieguice ou ficam no meio, nem lá nem cá, nem cômico, nem solene, quase um melodrama sobre uma lata de ervilhas. O moço Matheus deveria apurrinhar menos seus dramaturgos, que fariam seus trabalhos longe do excesso de exigências que Matheus costuma fazer (suponho, afinal não importa o dramaturgo que esteja trabalhando com ele, o texto sempre recai no mesmo erro, mesmo com excelentes dramaturgos, sinal que deve haver uma influência muito forte do diretor Rodrigo Matheus), ele teria um texto mais coerente e tecnicamente correto para trabalhar. Liberte-se Matheus, permita-se surpreender-se um pouco mais com o texto que você pode ter em mãos e deixe descansar um pouco esta idéia de transcrever textos clássicos para a atualidade, ainda não é o momento. Você é talentoso, use o talento que tem, como diretor de cena, não há quem trabalhe melhor as imagens e movimentação que esse moço. Tire o bedelho da dramaturgia dos outros e deixe a preparação de ator (não digo corporal/circense, é claro que disso você entende bem), como dizia: deixe a preparação de ator para outros profissionais, sugestões: pessoal do Barracão Teatro, Lume (Renato Feraccini, Simioni…), Inês Aranha, Lenira Rangel, Victor de Seixas, até nossa cara Candioto… Seu talento está na direção de cena, direção de ator… tisc tisc tisc… esquece isso garoto. Concentre-se no que você realmente brilha e todos ficarão mais felizes. Boa sorte! Evoé e aquele axé!

  2. Juli =) says:

    Oi, Alice.

    Toda a sua argumentação fica, certamente, muito mais clara pra quem, como você, acompanha o trabalho do dito “moço”.

    Mas, só pra ampliar um pouquinho a discussão que você propõe, gostaria só de pensar contigo uma questão no meio desse balaio todo: é preciso mesmo escolher o “infantil”, no caso dele ou em outros, definitivamente? Vejo que os espetáculos infantis cada vez mais são para “todos os públicos”, não? É o que se fala, por exemplo, da maior parte das peças infantis do Ilo Krugli. Aliás, no FIT Rio Preto, por exemplo, os infantis eram classificados assim: “para todos os públicos”. Não digo que todos tenham essa amplitude ou pretendam atingir realmente a todos, mas talvez em alguns casos seja possível atingir cada público de um jeito diferente no mesmo encontro… o que vc acha?

    Beijos,
    Juli =)

  3. Alice Ruiz says:

    Perfeito! Ótimo, mas vamos colocar uma inversão. Os infantis são indicados para todas as idades (concordo plenamente, afinal raramente uma criança vai ao teatro sozinha, pai, mãe, tio, não tem que dormir enquanto a criança se diverte), acredito mesmo na atividade para a família, para todos… Perfeito! Mas o contrário… Um texto indicado para adultos, geralmente colocam uma faixa etária, indicado para maiores de tal idade, a restrição não fui eu que fiz, ao contrário. Foi o Circo Mínimo que definiu que o espetáculo era um desses adultos com restrição de idade. Acredito muito no teatro para crianças, quando digo “teatro para crianças” digo que atende também ao universo da criança e pode abranger o universo de todas as faixas etárias, acredito e tenho profunda admiração por este teatro. Mas a questão é restringir um espetáculo para maiores de 14 anos e trabalhar de uma maneira que mais tem a ver com o universo psico-pedagógico da criança, ou mais precisamente, forçar um peso, uma densidade, a um trabalho que poderia e seria bem melhor se assumisse a sua leveza. Essa mania que o povo tem de achar que teatro para ser sério tem que ser triste, escuro, sombrio, pesado, pessimista… qualquer uma dessas coisas ou tudo isso junto!

    Mas, sinceramente, a questão maior de todas para mim é o que já falei anteriormente… Cada macaco no seu galho, dramaturgo escrevendo, encenador de atores… e assim vai. Acredito muito no ator-criador e na necessidade de ter conhecimento e experimentar as artes de maneira geral, íntegra, mas o lapidar, a coordenação tem que ser de alguém que realmente se dedica àquele determinado estudo. Não acredito em cultura de supermercado, em que todo mundo pega um pinguinho de conhecimento de tudo e faz de tudo… Acredito na experimentação, mas acredito no estudo a fundo, na pesquisa, em anos de trabalho sobre aquela área e até mesmo em aptidões.
    Rodrigo Matheus, taí um excelente diretor de cena, cria imagens como ninguém, movimentações de cena, cria climas e tudo mais como ninguém… mas não é diretor de ator, é totalmente perdido no que se refere ao trabalho do ator e poderia passar esta bola, fazer parcerias e sair ganhando.

    Beijocas


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