Monga, Chita, King Kong e Pedro o Vermelho – separados na maternidade
Não consigo desvencilhar alguns personagens de seus atores. A Renata Sorrah, por exemplo, nunca vai deixar de ser a Nazaré, assim como o Wagner Moura será sempre o Capitão Nascimento, o Marcos Frota é o eterno Tonho da Lua. A partir de hoje, a Juliana Galdino vai ser o macaco de Comunicação a uma academia, peça baseada no conto “Relatório a uma acadêmia” de Kafka. Por mais que ela ainda ganhe muitos prêmios Shell, faça milhares de outros trabalhos, na minha memória ela vai continuar sendo a Monga, a mulher macaca, que pra transformou-se eternamente no macaco e não adianta jogos de espelhos pro feitiço mudar. Dá medo!
Convidados para abrir a Mostra Nacional de Teatro de Uberlândia SESC-ATU, o Club Noir apresentou sua peça de câmara em um teatro de 370 lugares (se bem que só 80% de suas cadeiras estavam ocupadas, e olha que o comitê de combate à gripe suína não interveio dessa vez). Não posso dizer como a relação entre espectadores e o macaco se dava em um espaço menor como é apresentado em São Paulo. Posso apenas fazer suposições que me levaram a pensar nas perdas sofridas pelo espetáculo nessa apresentação, gerando perguntas como: a distância entre palco/platéia esfriou as relações entre as partes? O esforço da atriz em manter sua voz macacal para ser ouvida pela temida velhinha surda da última fileira atrapalhou o andamento do espetáculo? Será que a curadoria/organização pensou nos problemas que poderiam ser gerados nesse espetáculo em um espaço do tamanho do Teatro Rondon Pacheco?
Foto de Edson Kumasaka
Em minha poltrona, distante do macaco que aprendeu a ser homem para escapar da morte (ou do jardim zoológico), a relação que se estabeleceu foi parecida com a que o texto de Kafka supunha aos bichos de teatro de variedades. Parecia que tudo não passava de um show de virtuosismo de uma atriz extremamente talentosa, beirando a perfeição técnica com sua voz e expressão cênica, num registro vocal que quase cantava o conto kafkaniano na íntegra. Todas as marcações cênicas pareciam milimetricamente calculadas, comose o Roberto Alvim dirigisse sua atriz, vigiando os seus passos com uma trena fazendo cálculos de onde seria melhor ela ficar pra luz se enquadrar melhor , com um transferidor medindo a inclinação perfeita pro rosto da atriz não atrapalhar no conjunto e harmonizar com a cabeça de veado presa na parede cor da selva.
E o texto de Kafka nisso tudo? É um pano de fundo pra peça, não porque ele é desimportante, mas porque assume um papel de dalit – o intocável. Então lembro da Gabriela Mellão na Bravo de Janeiro/2010 afirmando que “a palavra funciona como força ordenadora na escuridão” no trabalho de Roberto Alvim. Posso estar sendo pretensioso ao interpretar a jornalista, mas sua frase me leva a pensar que o texto de Kafka ordena a encenação, e só tem a função de ser base pruma “obra de arte” perfeita. E minhas impressões do conto do Kafka que já conhecia das leituras pro vestibular continuam as mesmas após a apresentação (a não ser que agora o macaco tem uma voz estranha).
E quando saio do teatro fica parecendo que paguei o ingresso pra ver como é que uma mulher vira um macaco, como aquelas pessoas que saem do circo felizes por terem visto um macaquinho andar de bicicleta. O resultado final enche meus os olhos, e só.
Depois de muita academia, os macacos também invadem as passarelas (fonte Abril.com)
01 homem armado em cena
P.S.: Durante a edição desde texto, a editora Juli Codognotto fez um comentário/sugestão, deduzindo algumas coisas que poderiam ter ocorrido durante a apresentação. Como suas idéias se encaixam no contexto em que a obra foi apresentada, achei por bem publicar parte do seu parágrafo, ao invés de usurpar suas idéias.
“Lembrando que o macaco está justamente falando a cientistas/acadêmicos como numa conferência ou coisa assim. É aí que talvez haja prejuízo nessa palavra unicamente como força ordenadora e só, porque sem adaptar ao nosso tempo, eles acabam reduzindo o potencial crítico da flexibilidade, da adaptabilidade da obra no contexto de sua apresentação: é o reinado absoluto da técnica, ignorando relação com público, lugar e tempo presente e, porque não, ignorando os corações e cérebros ali presentes. Nesse “apego” pelo respeito ao autor e pela auto-suficiência da atriz em sua busca pela perfeição que vai no sentido oposto pela busca de comunicação com alguém – academia ou não. Tendo isso em vista, uma mostra de teatro é perfeita pra evidenciar o tamanho da oportunidade de crítica, atuação política, comunicação e sensib ilização de público, etc., etc., etc., que se perde quando se opta por fazer uma puta montagem de um puta texto mas só pra si mesmo.”
Confira também a crítica de Fabrício Muriana para essa montagem.




gostei do soldado no começo e no final da peça. jamais verei alguem tirar e colocar uma corda como ele o fez. dygno.
háháhá
Caros bacantes,
agradeço muitíssimo os comentários relativos ao meu trabalho como atriz, eles só reforçam minhas convicções no campo da arte e das relações humanas. Sendo assim, espero nunca correr o risco de receber algum elogio da vossa parte.
Vou te enganar não Juliana, mas vc recebeu um elogio de minha parte.
3° Parágrafo, 4ª linha.
Não pude assistir a apresentação em Goiânia, mas meu filho assistiu e gostou muito. Sou professora de história e gostaria de receber o texto “Comunicação a uma academia” (na íntegra), pois estou pensando em trabalhá-lo com meus alunos. Se for possível, envie-me onde posso encontrá-lo, através de meu e.mail. Obrigada. Parabéns pela atuação, meu filho disse que é perfeito!
oi débora.
O texto, na íntegra,
está no livro “O médico rural”.
Aqui no Estante Virtual vc encontra baratinho, a média é R$ 14.
http://www.estantevirtual.com.br/Franz-Kafka/Um-Medico-Rural.html
se preferir uma edição, digamos, mais novinha,
tá por R$ 25 aqui:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=269147&sid=02491841012211551105077632&k5=35739EB2&uid=
Tentei achar um link pra vc baixar de graça, mas não achei.