Críticas

Não sou feliz, mas tenho marido

por Astier Basílio

3 Comentários 17 November 2008

Não fiz a crítica, mas foi divertido

Fico imaginando se o Paulo Pontes estivesse vivo e fosse assistir a alguma das peças que costumeiramente são apresentadas no teatro a que ele dá nome. Isto é. Se ele estivesse vivo e continuasse comunista. Sim, porque o Churchill disse que quem não é comunista aos 20 anos é porque não tem coração; e quem continua sendo depois dos 30 é porque não tem cérebro.

Houve um natal em que a Bibi Ferreira, viúva do Paulo Pontes, recebeu de presente dele, num amigo secreto, uma edição novinha de… O Capital, do Karl Marx. Não se pode dizer que ele não era romântico.

Paulo morreu aos 36 (seis de usura segundo a teoria do lorde inglês) e filiado ao partidão, mesmo tendo trabalhado no setor de imprensa do Ministério do Planejamento à época chefiado por um ícone da direita, doutor Roberto Campos. Até porque alguém precisa fazer a feira e grito em passeata não enche o bucho de ninguém, né?

O Teatro Paulo Pontes fica localizado Bairro dos Estados em João Pessoa que está longe de ser periferia, mas não é bairro da granfinagem tabajara, a mesma que dá suas caras na coluna de Gerardo e Abelardinho e cujos endereços preferenciais se situam na faixa litorânea – exceto o miolo do Bessa que ainda não tem saneamento básico em todas as ruas.

Ir ao Paulo Pontes é sempre divertido. Se não pelo que se vê no palco, pelo que se vê na platéia. Se pela definição grega teatro é “lugar onde se vai para ver”, no Paulo Pontes é também o lugar de onde se é visto. A primeira vez que a minha mãe foi ao teatro, ela tinha mais de 50 anos, foi lá, no Paulo Pontes. Peça com o Paulo Goulart e a Nicette Bruno. Mamãe é costureira e leitora da Manequim. Ela adora na revista o teste do “certo ou errado”. Mamãe é expert nisso. Quando a gente estava na fila, meu braço ficou roxo de tanto ela bater: “esse cinto brilhoso não combina com a bolsa”, “essa bota por cima da meia não dá certo, tá errado”.

Mamãe e a revista Manequim iriam se refestelar se fossem ao Paulo Pontes assistir a Não Sou Feliz, Mas Tenho Marido, adaptação do livro homônimo de Viviana Gómez Thorpe. O monólogo trazia ao palco Zezé Polessa, com direção do Victor Garcia Peralta, o hermano “blockbuster do teatro carioca“.

Quando eu fui subindo a rampinha que dava acesso ao teatro – que fica dentro de uma fundação cultural imensa – a atmosfera de perfume tomava conta do ar. Além do mais, tava rolando um verdadeiro desfile das tendências da moda, categoria bolsas. Pequena, grande, prateada, preta, combinando com os sapatos.

Por não ter recebido o ingresso – a história é longa e eu não vou fazer mais digressões – eu fiquei de pé esperando a luz apagar pra me sentar. Pensaram até que eu era funcionário do teatro ou coisa assim. Duas amigas, na faixa etária dos ‘trinta e poucos’ aos ‘quarenta e uns’; uma delas, a mais falante, ria muito. “Moço, o nosso é 26, 27 (risos). Mas eu estou vendo, que o 26 e o 27 (risos de novo) estão em todo canto, onde a gente senta?”. Pedi pra ver o bilhete. Elas não pagaram meia. Custou R$ 60 cada ingresso. Expliquei: “olha, ao lado do número tem uma letra que demarca a fileira. Então, a de vocês é a ‘H’” e apontei, como bom pseudo-funcionário do teatro.

Enquanto não começava – a peça atrasou uns 25 minutos – as amigas entabularam um papo comigo. Eu disse a mais risonha que era jornalista, não pagava. “Tu sabe quando é que vai vir peça boa pra cá?”. Eu devolvi com outra pergunta. “O que é peça boa pra você?”. A moça refletiu. E mandou: “Quando tem ator global, né? Eu acho que eles fazem um trabalho muito bem feito”. Perguntei qual tinha sido a última vez que ela tinha ido ao teatro. “Ah, meu filho, faz tanto tempo (risos) que eu nem lembro o nome”. Poucas perguntas depois, acabamos descobrindo que tinha sido Pastoril Profano, uma produção made in PB sucesso de bilheteria.

“Teve uma boa que eu perdi”.

O papo continuou. “Quando foi que veio global da última vez?”, ela perguntou. “Mês passado”, respondi. “Qual?” Ela quis saber. Eu disse: “Dona Flor e Seus Dois Maridos “. Ela quis mais explicações: “Não; o nome da peça não, o nome do global. Quem eram os atores?”, ela quis muito saber. “Marcelo Faria, Carol Castro…”. Ela vira-se pra amiga e diz: “Não disse, mulher? A gente perdeu!”.

Em quase todo espetáculo no Paulo Pontes aparecem pessoas distribuindo panfletos. É estranho que eles nunca estão no Santa Roza, na Piollin, no Ednaldo do Egyto, no Lima Penante. Os dois moços entregando um panfleto em papel cartão, policromia, de fino acabamento, sobre os pratos e a cozinha de um novo restaurante de João Pessoa: o Divina Itália, cujos slogans são: “15 anos em São Paulo, agora em João Pessoa” e “Vá mais longe na cozinha italiana”. Definitivamente, o pessoal aí sabe o que é “público alvo”.

Três estrelas: uma atriz com excelente tempo de comédia + um texto defasado + uma platéia super interessante.

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Iza says:

    Ê preconceito.
    “O que é peça boa pra você?”. A moça refletiu. E mandou: “Quando tem ator global, né?”

    Aposto que ouviria de outros:
    “O que é peça boa pra você?”: “Quando não tem ator global, né?”

  2. Claudia says:

    Seja com ou sem ator global, o que interessa mesmo é levar o povo ao teatro!!! Sem preconceito de texto, de ator, de direção, de expectador, enfim… Deixe com que o expectador aos poucos descubra por si só o que é interessante ver nos palcos, até que ele perceba que arte é vida, ou melhor: “Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.” (Bertold Brecht)

  3. Juli =) says:

    Oi, Claudia,

    Talvez você nem queira continuar esse assunto e já tenha dado seu recado, mas fiquei muito curiosa pra saber: quem é o “povo” que você quer levar ao teatro de qualquer jeito?

    Abraço,
    Juli.


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