Críticas

Nossa vida não vale um chevrolet

por Fabrício Muriana

5 Comentários 05 August 2008

Behan, Bortolotto, Di Moretti, eu, você e todos nós…

O melhor de criticar as peças do Bortolotto é deixar pra última hora. Porque sempre que a gente está procurando por onde dialogar, aparece alguma pérola no blog dele e só o fato de fazer uma crítica com menos tempo do que o usual já é paralelo direto com suas peças escritas, dirigidas e montadas em velocidade recorde. Dessa vez o que me pegou no seu blog é uma citação que fala do papel – pasmem! – da crítica.

O Bortolotto cita o Brendan Behan, autor irlandês e bebum. Uma frase sobre prostituição, outra sobre bebedeira e a última sobre como ele vê os críticos. Reproduzo aqui: “Críticos são como eunucos num harém: sabem como é que se faz, viram-no ser feito todos os dias, mas são eles próprios incapazes de o fazer”. Lembrando que Behan foi um cara que viveu no declínio da modernidade e foi altamente influenciado por Brecht. A crítica, no seu tempo, deve ter feito o papel mais normativo possível, ou seja, só na base do julgamento e manutenção do mesmo.

Encaixando no contexto brasileiro atual, tenho que concordar com o Bortolotto. E leio a frase de Behan “são eles incapazes de o fazer” como um estímulo à paudurescência crítica. Ou seja, falta aos críticos (dos tempos de Behan ou dos nossos) perder o medo de dialogar com as obras por meio de outras obras. Hoje em dia, a crítica atende a padrões mercadológicos ainda mais restritivos do que aqueles do tempo de Behan. Auto-cerceiam suas produções sem que seja sequer necessária uma censura externa. Encaram seus trabalhos como um trabalho, na essência da palavra, portanto despolitizam tudo.

Ultimamente, só vejo relevância em discussões críticas travadas de artista para artista. E aqui começo (finalmente) a falar da peça do Bortolotto. Está em cartaz no Espaço Parlapatões uma das poucas peças mais recentes do Cemitério de Automóveis que eu ainda não tinha conseguido assistir: Nossa Vida Não Vale um Chevrolet. E veja que beleza, eu que mal aprendi a escrever, que já me arrisco na crítica teatral, hoje vou poder falar do cinema.

Quem acompanha o blog do Mário deve saber que essa peça foi adaptada pro cinema, num filme de nome parecido, mas piorado: Nossa Vida não Cabe num Opala. Ainda não vi o filme, mas a discussão prévia já interessou deveras. Primeiro porque Bortolotto teve culhão de abrir a discussão no seu blog. Depois, e principalmente, por conta dos parâmetros da discussão: o que é linguagem do cinema, o que é linguagem do teatro (e quem sabe mais do que).

Então voltemos ao tempo do Behan, porque o cara é sábio. O que seria das linguagens hoje se não fosse o hibridismo? Calma, apressado leitor. Não estou defendendo o Di Moretti. Eu também detestei os diálogos e a temática de Cabra Cega. Imagino o embate possível entre as escolhas estéticas de Di Moretti e as de Bortolotto. Mas em momento algum da discussão ouvimos falar de o que do teatro influencia no cinema e vice-versa. Parece que existe somente o parâmetro do bem-fazer nos dois casos. E como é chato o bem-fazer!

É quase como se houvesse só algumas poucas maneiras legais de fazer teatro e cinema, sendo que ambos são diversos e cada um tem seus pesquisadores loucos. A postura de Bortolotto de “quem mexeu no meu queijo” é triste na medida em que pretende reconstituir a presença supervalorizada do autor, o indivíduo de onde partem todos os vetores da criação teatral. Pra mim esse autor morreu de vez no dia 11 de setembro de 2001. Todo trabalho que parte dessa lógica desde o início já parece nascer velho. Mas pior ainda é o que vem da indústria do cinema, com Di Moretti supostamente tornando a peça mais “cinematográfica”.

Qual é a natureza do teatro e qual é a do cinema? Assista na mesma semana um filme da Lucrécia Martel, outro do David Lynch e termine com um do Michael Haneke. Ao fim da semana, você tenta me explicar qual é a essência da linguagem e do roteiro cinematográfico. Depois, na semana seguinte, assista à montagens de uma peça do Mário Bortolotto, uma do Oficina e outra da Cia dos Atores. Então você me explica o que é a essência do teatro.

Então o Bortolotto coloca em cartaz a peça dele, com o texto original, imaculado, iluminado, trilhasonorizado e dirigido pelo próprio. Novamente lembro que o Behan, o cara que manja da crítica, na década de 60 já não se preocupava com a apropriação dos seus textos por quem os queria montar. Mas, é claro, essa parte o Bortolotto não publica. E aí chegamos a um ponto que é comum a mim, ao Behan e ao Bortolotto (talvez até ao Di Moretti): é por isso que eu (e todos eles) beb[em]o[s].

0,2% da crítica sobre a peça

O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. achei ótima esta peça, na montagem que vi no ccsp em 2004 ou 2005, não lembro. aliás, foi meu primeiro contato com o texto do bortolotto, que fez com que acompanhasse seu trabalho até hoje.

  2. Até o Paulo Coelho citou Brendan Behan na Revista Rolling Stones e o lance do crítico eunuco. Juntinhos Bortolloto e Paulo Coelho citando Behan.

  3. salvia says:

    Tá errado, Fabrício. O filme mediocriza demais a peça. Não por ser mídias diferentes, mas por mau gosto do roteirista e do diretor também. É só isso.

  4. Fabrício says:

    Não era esperado que o filme fosse mediocrizar a peça? O mau gosto do roteirista, apesar de inegável pela obra dele apresentada até hoje, não está em questão. O que interessa pra mim com esse texto é colocar em crise a posição de autor que Bortolotto assume, de onde todos os vetores da criação partem. A gente sabe que o cinema e o teatro não funcionam mais assim.

  5. Mateus says:

    A peça é do Bortolotto. O filme é do Di Moretti. Adaptação é releitura. Uma nova visão sobre um texto anterior. Ninguém nunca assistiu no cinema a um Romeu e Julieta de Shakespeare, porque ele nunca dirigiu cinema.


E você, o que acha?

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