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Críticas

NuConcreto

por Juliene Codognotto

Nenhum Comentário 28 December 2009

NuConcreto, que esteve ocupando a Funarte em novembro e dezembro, foi para mim várias experiências. Assisti a peça duas vezes, uma com amigos que nunca vão ao teatro, outra com pessoas que super-sempre vão ao teatro; uma num dia de chuva e com a platéia quase vazia, outra na última apresentação lotada; uma com um final, outra com outro. Some-se a isso minhas expectativas anteriores e temos como resultado esse texto: uma mistura. Ou, pra quem prefere discurso mais direto: uma bagunça!

Pra começar, retomo um tema que desenvolvi pouco no Especial sobre o Festival Mundial de Circo. Nas minhas poucas experiências com o universo circense – seja falando em circo tradição ou na tendência do polêmico “novo circo” – sempre tive sincera dificuldade de encontrar um propósito, um compartilhamento de ideias, um posicionamento crítico, enfim, qualquer intenção ou busca de contato com o público por parte dos artistas que fosse além do simples espetáculo de divertimento – ou mesmo de pavor, no caso de pessoas que, como eu, morrem de medo de que o acrobata caia “justo hoje que eu tô aqui vendo!”.

Em outras palavras, sem contar o caso do Circo Social, que tem na função social sua razão mesma de existência, sempre foi muito raro ver as técnicas circenses usadas para além do show. Casos como a apresentação francesa Arcane, no FIT de São José do Rio Preto deste ano, por exemplo, me faziam pensar – sempre na chave do teatro – “nossa, isso ficaria bacana numa peça” ou “ah, como seria legal usar essa técnica pra comunicar alguma coisa!”.

Essa longa introdução sobre meus preconceitos ou minha busca por motivações outras pra compartilhar uma criação artística é só pra dizer que quando saí de casa para ver NuConcreto ainda tinha dúvidas se encontraria uma peça ou uma exibição sofisticada de técnicas circenses. E encontrei uma obra que tinha realmente colocado as técnicas de seus atores-acrobatas em função de um “algo a dizer” conectado com o nosso tempo.

A tal temática, no entanto, era tão bagunçada quanto as minhas impressões sobre a obra. Explico, pra não soar agressivo: sabe quando ao falar de muitas coisas temos dificuldade em definir um foco e explorá-lo profundamente? É mais ou menos por aí. Como diz a chamada dessa crítica, NuConcreto fala de dinheiro, consumismo, manipulação, mídia, casa própria, violência, exclusão, comércio, esperteza, riqueza, bancos, fluxos de capitais, guerras, queda da bolsa, crise financeira mundial, preservação do meio ambiente, esperança, ingenuidade, café e suco de caju, entre muitos outros temas, com algumas metáforas e imagens muito reveladoras – como a do jogo de amarelinha que representa a propriedade e exclusão e a cena em que uma boa propaganda faz vários personagens comprarem um café que não atende suas necessidades e que, além de tudo, é horroroso, mas fingirem que está tudo ótimo pra se manterem “in”. Ou, ainda, a frustração do idealismo ingênuo que quer matar a fome de crianças na África sem agir em sua origem e os áudios de pessoas tentando definir neoliberalismo e globalização, que por sua vez não são metafóricos, pelo contrário, são informações diretas que mostram a ignorância e a alienação caminhando juntas.

Com isso, o grupo constrói uma espécie de vista panorâmica bastante crítica da nossa sociedade e sua lógica de consumo, exclusão, lucro. No entanto, o panorama fica superficial, sem novidades. É uma espécie de vista embaçada que não define um ponto para explorar a partir do qual o todo fique mais claro. E, numa sociedade complexa como a nossa, talvez não baste dizer que o dinheiro manipula as pessoas e que mesmo os nossos corpos são uma espécie de produto manipulado pelo capital, sem dar ferramentas para pensar os fluxos desse capital, suas origens históricas, seus braços etc – sob o risco de nos limitarmos a odiar o banqueiro, como se a exploração e as injustiças fossem pessoais ou individuais e não estruturais.

Essa questão, aliás, lembra uma cena do documentário The Corporation, em que manifestantes vão à casa do presidente da Shell para protestar e acabam sentados no jardim tomando chá com ele e a esposa, que também são pessoas doces que sentem dó dos peixes que morrem com petróleo grudado nas brânquias. Ou seja, entendem ali – não sem nos encher de angústia – que a estrutura está muito mais emaranhada e que a Shell, como todas as outras corporações e o mercado, e o capital e tudo mais não são personalizados e, por isso mesmo, são muitos mais difíceis de combater. Ou lembrando as idéias do Paulo Arantes: porra, cadê o nosso inimigo? (Não, o Paulo não disse a parte do “porra”).

Claro que é preciso considerar que a opção por colocar arquétipos desenhando tipos da nossa sociedade e não indivíduos simplesmente já procura quebrar com essa idéia simplista de culpar uma única pessoa, mas não rompe com outros simplismos como o de traçar um perfil único para o rico, o excluído, o ativista. Enfim, continuamos limitados nesse ponto e a obra abre mão da oportunidade de apontar esse estado de ausência do que combater ao personalizar todas as injustiças e as violências do sistema capitalista, do neoliberalismo, da globalização, no banqueiro ou nos ricos.

Outra escolha do grupo que vale mencionar é a busca de uma relação totalmente atípica com a platéia, investindo num estado de desconforto e instabilidades permanentes. Colocar a escolha pessoal como fator de alteração do coletivo e evidenciar essa possibilidade – ou mesmo essa esperança – é uma busca louvável. A mim faltou apenas saber o que eu estava escolhendo, sobre o que estava tomando uma decisão para que, aí sim, eu me apropriasse da minha escolha e dos resultados dela e fizesse a conexão disso com a minha vida. O problema é que escolher ingenuamente sem conhecer as possíveis conseqüências me distancia da situação, já que eu não poderia alterá-la racionalmente. Talvez esse seja, inclusive, um dos retratos mais importantes da nossa presença e atuação na sociedade que a peça expõe e evidencia: a tomada de decisões e escolhas por impulso e pressão, sem qualquer envolvimento ou consciência das possíveis conseqüências.

3 aviões de papel dando vôos rasantes

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