Discussão (medíocre) sobre a mediocridade
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Ambiente corporativo. Não dá pra negar que, além de ser muito chato, esse é um universo que precisa ser repensado e discutido – pra não dizer eliminado (se pudéssemos eliminá-lo, o mundo seria mais feliz e haveria mais golfinhos e botos cor-de-rosa, mas o capital internacional não gosta de gente feliz. Fazer o quê?) Pois bem, Nunca ninguém me disse eu te amo (peça que concorre à ainda inexistente categoria “maior título do ano” do Prêmio Bacante) propõe justamente essa discussão, apesar de o nome estar mais pra um dramalhão amoroso, com o perdão do pleonasmo.
De cara, a crítica fica explícita. Estamos falando aqui de pessas pessoas que desperdiçam suas vidas pra que as empresas em que trabalham vendam mais. E que, depois, claro, se arrependem disso. No caso desse texto, uma executiva exemplar e “excelente profissional” (expressão repetida 77 vezes na peça) é demitida após 25 anos vendendo sabão em pó e se perde num vazio de significados.
O exemplo do sabão em pó é radical, mas, convenhamos, ainda que a empresa vendesse chocolate (que todos sabemos ser um enorme bem para a humanidade, especialmente para sua parcela feminina), continuaria sendo pequeno e depressivo demais desperdiçar potência humana num ambiente tão burro e cruel como é o de qualquer empresa. Burro porque, em geral, incentiva o desenvolvimento de uma inteligência mais técnica do que criativa e quando incentiva a criatividade, procura cercá-la de regras, metas e do conceito limitante de produtividade. Cruel, bem, pelos mesmos motivos somados ao tempo precioso roubado da vida de cada funcionário. Desculpem a generalização, mas aqui estou realmente incluindo qualquer empresa, mesmo a Promon, considerada a Melhor da Década, na edição de 2006 do Guia EXAME — Você S/A das Melhores Empresas para Você Trabalhar.
Até aí, pensando nos objetivos da peça, tudo ia bem. O problema fica por conta dos já difamados clichês. Boas atrizes interpretam personagens muito previsíveis e rasos, com falas excessivamente impostadas, piadas forçadas e nenhum exagero provocador, nem investimento em simbolismo. Aliás, um exagero: o tamanho do texto, que explicava em detalhes tudo o que eu já tinha visto nas imagens.
Neste ponto, devo ressaltar que o cenário, em muitos momentos, é mais representativo do que as muitas falas. Todo vermelho, repleto de pastas e arquivos – estes últimos formando uma parede opressora ao fundo do palco – ele simboliza as limitações de uma padronização imposta cotidianamente. O figurino também contribui para evidenciar o quanto os profissionais que se enterram nesses ambientes – iniciantes ou extremamente experientes – são iguais na sua mediocridade, com a diferença de que, em geral (mas não sempre), os mais experientes são menos iludidos.
Se estamos falando de corporações, funcionários corporativos e, claro, de venda, por que não fazer um convênio para a sua empresa e aí todos os seus funcionários vão poder pagar 20% a menos? Ou, ainda, encomendar um espetáculo fechado só pra vocês? Afinal, o teatro também trabalha de acordo com a demanda. E se o texto é todo feito de piadinhas internas voltadas para um público tão específico, nada melhor do que incentivar que as empresas obriguem seus funcionários a ver a montagem. É, minha gente, interessante perceber que a arte também pode ser dinâmica motivacional. Bem… melhor do que disputar corrida de saco com o chefe, com o nobre intuito de aprender a trabalhar em equipe, não? Se você se interessa, acesse o site www.nuncaninguemmedisseeuteamo.com.br/conv.htm e faça seu pedido.
777 arquivos vermelhos na parede
PS.: Quero compartilhar uma dúvida. As personagens tomam café e uísque durante a peça, mas a xícara e os copos – vermelhos – vêm sem líquido dentro, tipo faz de conta, sabe? Isso tem algum significado? Será que representa o vazio da vida? Ou o cenógrafo ficou com medo das atrizes engasgarem? Ou, ainda, delas ficarem bêbadas? Este último problema era fácil… era só trocar o uísque por guaraná sem gás, né? Falando sério, achei que viria um sentido daí, uma metáfora, talvez. Não veio.



Apesar de descordar com alguns comentários sobre o espetáculo, tentei encarar essa crítica exatamente como o própria montagem propõe. Não os ví defendendo a organização de trabalho dentro das empresas, mas sim suscitando uma discussão e reflexão acerca de como cada um de nós somos tragados por um sistema e como este pode transformar nossas relações. Não preciso trabalhar no meio corporativo para entender e me fazer pensar em tais questões. Mesmo porque, estamos todos envolvidos por este sistema.
O teatro pode e deve ser utilizado exatamente pra isso. Levantar a questão da organização de trabalho dentro das empresas como emblema para um turbilhão de outras questões. Isso é TEATRO!!
Mas enfim, quando li as observações sobre os copos, guaranás e afins caí na gargalhada.
Como uma pessoa capaz de fazer uma observação desse porte pode se atrever a escrever sobre teatro. Quer guaraná?? vai ver novela!!
Maria Carolina
Concordo plenamente com a Maria Carolina, essa resenha(se é que se pode chamar isso de resenha)apenas demonstra quão à parte do teatro está essa Juliene. Começamos pelo título, que ela mesma nem sabe se é (medíocre) ou não o que ela assistiu, a julgar pelos parênteses. Depois o discurso sobre a eliminação do mundo corporativo, que segundo ela deveria ser eliminado.Pois se assim fosse nem mesmo esse espaço ela teria para divulgar sua percepção, em minha opinião equivocada, do mundo, ou ela se esquece que para se ter um blog, é necessário o aporte de um provedor, de uma conexão com a internet etc. Ela questiona o simbolismo,e depois discorre sobre a cenografia. Será que ela pensa que uma peça é montada por partes? Me dá meia dúzia de textos, agora um quilo de cenário, mais um par de figurinos!!!! Parece que ela não consegue enxergar o conjunto dos fatores que transformam palavras escritas num espetáculo teatral. Questiona exagero provocador e se incomoda com copos vermelhos e ausência de bebida?!!!Só rindo mesmo. Aliás com todo o respeito, li diversos textos postados nesse blog e sinceramente, essa provocação “supostamente” bem humorada que vocês tentam fazer é rasa e nem de longe atinge o bom-humor.
Oi, Maria Carolina. Você discorda de mim, eu concordo com você. Sim, a reflexão sobre o corporativismo é a parte mais relevante da peça! O tema é extremamente importante e interfere na vida de todos nós – trabalhemos nós ou não em corporações. Deixei isso claro no início do texto. O que me incomodou, portanto, não foi o assunto. problema é que o texto virou um apanhado de piadas clichês sobre ambientes empresariais e chefes comendo estagiários. É verdade (inclusive a parte dos que se comem na mesa da direção), mas é muito pouco, muito raso.
Que bom que você caiu na risada! Sempre que quiser cair na risada estamos a disposição!
Finalmente, acho que qualquer pessoa deve se “atrever” a escrever sobre teatro ou sobre qualquer coisa, na medida em que se interesse por isso e procure diálogo. Viva a internet! Não estou impondo nada, estou fazendo exatamente isso que você disse: me atravendo! E tá bem legal…
Anônimo,
A piada: “Me dá meia dúzia de textos, agora um quilo de cenário, mais um par de figurinos” foi ótima. Inclusive, a Bacante está selecionando consultores em “bom-humor”. Para participar, envie um email para eutenhomaisbomhumorquevoce@bacante.com.br. Desde já, agradecemos sua participação.
PS.:(Quando eu falei no boto cor-de-rosa não foi suficiente pra sacar que a idéia de eliminar o corporativismo é utópica e exagerada? Desculpe. Prometo mandar o desenho do boto da próxima vez.)