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Críticas

O Baile

por Leca Perrechil

5 Comentários 24 September 2007

Aprenda História Bailando

Foto: Dalton Valério

Em um lugar perto da Praça Roosevelt, uma mulher com longo vestido preto entra no Baile. Todos a olham admirados, enquanto um rapaz a tira pra dançar. Na disputa pra ver quem vai ficar com a dama, uma moça de cabelos curtos se aproxima dela, e tasca-lhe um beijo. Horrorizada, a elegante mulher foge. (passagem de tempo) Em outra década, um senhor de idade bêbado sobe em cima de uma cadeira e mostra a bunda. Só desce dali com a ajuda do garçom. (outra época) Na era de aquário, orgias, drogas e homossexualidade dão o tom da festinha.

Essas cenas poderiam ser parte de um espetáculo dos Satyros, também lá na pracinha. Tá certo que se fosse mesmo uma produção do grupo, a mulher da cena inicial não seria um homem vestido de mulher, descaracterizando o beijo “lésbico”; o bêbado faria questão de mostrar tanto o atributo de trás, quanto o da frente; e os participantes da orgia não se limitariam apenas a passar a mão, vestidos (no sentido de “com roupa”), sem aquele toquezinho a mais. Afinal, o espetáculo O Baile acontece no Cultura Artística, onde o público é formado por senhoras distintas com lindos vestidos longos e sapatos de salto alto, e os senhores com terno e sapato social. Não que a peça seja pior por causa disso, mas mostra bem duas maneiras tão diferentes de se fazer teatro, separados apenas por uma esquina e um bordel medieval.

Criada pelo diretor francês Jean-Claude Penchenat, do Théâtre du Campagnol, O Baile deu origem, em 1983, ao filme ítalo-francês de mesmo nome, dirigido por Ettore Scola. Segundo fontes seguras (tipassim, amiga cinéfila), a adaptação brasileira, dirigida por José Possi Neto, é bem fiel ao filme. Ambos trazem personagens propositadamente caricatos, cenas totalmente sem falas, e uma proposta tri-boa (não, não tem nada a ver com POA em Cena… a amiga cinéfila é de Porto Alegre mesmo).

A idéia da peça é simples: retratar a história recente do país, do suicídio de Getúlio Vargas em 1954 até os anos 2000 – com suas músicas de batidas putzputz, que geram saudades nos personagens dos bailados de antigamente. Para isso, foram reunidos um quinteto musical, 20 atores e 150 peças de figurino, estas mostrando a moda representativa das quatro décadas retratadas.

O elenco, aliás, lembrava um pouco o de uma novela das seis da rede Globo dos anos 90, com nomes como Cláudia Mauro, Cláudio Lins, Beth Lamas e Tássia Camargo – uma das produtoras da peça. As duas últimas, além de dançar, também cantaram. Tássia acaba até se empolgando demais e peca um pouco quando começa a cantar sem microfone “Era um garoto, que como eu…”. Ok, a gente releva. Outra curiosidade no elenco é o nome de Carlinhos de Jesus, que só reconheci nos letreiros (é, tem letreiros!), também responsável pelas coreografias.

Diferente do filme de Scola, na peça a narrativa demora mais a engrenar. No início, parece que está sendo apresentado um programa de dança, parecido com a Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão. O período não é bem representado, pois possui pouco conteúdo histórico. Tirando roupas e música, o comportamento e o enredo poderiam acontecer em qualquer década. Esse longo período inicial só é quebrado quando se anuncia no rádio o suicídio do Getúlio Vargas, abalando a personagem mais rica e, possivelmente, mais conservadora do baile.

A partir daí, podemos embarcar na história política do país apenas por meio daqueles bailes no salão. E está ai o grande mérito da peça: transmitir com muitos poucos recursos e bastante criatividade as fases mais marcantes do Brasil. Entre elas, a Copa do Mundo de 58, o Golpe Militar e o movimento das Diretas Já. Alguns desses períodos são mais explorados do que os outros, e uns personagens envelhecem incrivelmente mais. Enquanto a senhora de 1954 parece rejuvenescer, a personagem mais nova dessa época, surge em 2000 como a mais caquética.

Quando retratam o nacionalismo representado pelo slogan “Brasil: Ame-o ou Deixe-o“, os atores se posicionam como uma multidão apática com bandeirinhas de plástico do Brasil – aquelas que só saem do armário na época de Copa – e cantam sem expressão “Eu te amo meu Brasil”, música de 1970, composta por Dom e Ravel. Nesse momento, os senhores (grande maioria) da platéia que viveram o período se empolga mais uma vez e batem palmas pela crítica.

Digo mais uma vez, porque já haviam batido palmas no início, após cada uma das músicas e dancinhas. Curiosamente, o único momento em que eles não bateram palmas para o espetáculo foi durante a era de aquário, representada pela música “Aquarius/Let the sunshine in”, de James Rado, Gerome Ragni e Galt Mac Dermot, do musical Hair, dos anos 60. Nesse momento, os atores entraram vestidos de hippies e derivados, usando drogas, simulando sexo grupal e, pela liberdade sexual, relações homossexuais. A cena podia ser muito avançada para o pessoal do Culturão (pelo menos o daquele dia), mas os atores deixaram um pouco a ousadia de lado, e ficaram no basicão. Afinal, se tinha tantos beijos entre os casais heterossexuais, citar e não levar em frente ta mais pra novela global com cowboys gays.

Em falar nos espectadores, esses se divertiram bastante no espetáculo. Uma moça deu tchauzinho pra alguém em cena, provável conhecido. O senhor na minha frente, a cada mudança de época, fazia questão de comentar com a mulher sobre o período da ditadura. Em dado momento, em uma das cenas mais tristes da peça, quando estão se escondendo da repressão, os personagens começam a cantar sem o acompanhamento dos músicos. De repente, um coro da platéia começa a ganhar força. (confesso que de início achei um momento bem brega, mas depois até que foi legalzinho).

Assim como acertam em críticas políticas, também produzem algumas cenas bem, digamos, bregas. Há momentos em que tudo vira um pouco pastelão, como um homem sem braço tentando dançar com a mulher que rejeitou há anos e um rapaz que vomita após beijar mulher “feia”. Em uma dessas cenas, a platéia também se identificou com um senhorzinho que festeja ao conseguir descer a escada. Até aplaudiram… mas bateram palmas pra quase tudo mesmo, né!

No fundo do palco, atrás do salão de dança, tinha um telão onde eram mostradas imagens das épocas nas passagens de tempo, e um plano de cima do salão na maior parte da peça. Assim, o espectador podia ver por cima as imagens formadas ao longo das danças. Sabe aquelas coreografias sincronizadas com um monte de gente, tipo Embalos de Sábado à Noite, em que o diretor sempre mostra um plano aéreo? Então, na peça dava pra brincar com isso também, utilizando bem o recurso audiovisual.

No fim, fica a imagem saudosista dos bailes e alegrias de antigamente, época em que se podiam usar roupas largas e coloridas, e cabelos estilo Maria Bethânia, que ninguém falava nada.

3 senhorinhas relembrando os tempos de outrora

O que a galera acha

5 comentários até o momento

  1. Ronaldo Ventura says:

    O problema é o Possi Neto, né? Tem que ter coragem para assistir algo dele, e depois contar para os outros….

  2. Leca Perrechil says:

    Hahahahaha…
    Não conhecia o trabalho dele, mas na Wikipédia diz que ele “é respeitado no meio artístico e um requisitados profissional da área” (o erro de concordância fica por conta deles mesmo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Possi_Neto). Rs. Mas como na Wiki qualquer um pode escrever,…

    Ah, tb descobri no mesmo site que ele é irmão da Zizi Possi.

    Bjos.

  3. Ronaldo Ventura says:

    Ele fez uma montagem do Evangelho segundo Jesus Cristo do Saramago. Só que só a parte da névoa (já leu?), e a Madalena era a Maria Candido e o Jesus era o… Qual o nome dele? Aquele que fazia o namorado da Ana Paula Arósio na Terra Nostra?

    Bem…

    Não fui ver claro. Não é necessário passar por isso…

    (oba! dimuíram o numero de letras da verificação!!!)

  4. Juli =) says:

    Thiago Lacerda!

  5. Maurício Alcântara says:

    Ronaldo, era dele essa montagem? Eu assisti acho que na segunda temporada, há muuuuuuito tempo. Eu devia ter uns 17 anos. Era com a Beth Goulart, Eriberto Leão, o Frateschi, o Paulo Goulart e a Walderez (depois teve algumas mudanças no elenco). Na época que assisti e acho que gostei (eu nao tinha muitos critérios pra falar de teatro, era a época que eu gostava de tudo que via, então não conta).

    Só lembro que na época eu já achei a adaptação bastante redutora, como a maioria das adaptações. Pessoalmente, adoro esse livro do Saramago.


E você, o que acha?

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