Marco Nanini para prefeito
Mais uma vez o palco imenso do Cultura Artística – aquele que, por mais chique que seja sua platéia, não foi incluído pelo público paulistano na lista dos 10 melhores da cidade. Depois do pesadelo que foi a eltonjohniana montagem disnéica de Aída, o último palco onde se apresentou Paulo Autran agora recebe a montagem da Companhia dos Atores para O Bem Amado, de Dias Gomes.
Que esperar de uma peça da mesma turma que ensaiosamente desconstruiu Shakespeare e Tchekhov, e protagonizada pelo grandefamílico Marco Nanini? Um ensaio.diasgomes? Ou será um Amado: tema para um espetáculo curto? Bem, a resposta é: nem um, nem outro.
O imenso telão com o trailer da peça acompanhado da projeção do nome do patrocinador já indicava que o que seria apresentado ali teria grandes chances de assumir um formato mais comercial – e logo essa percepção se concretiza. A história de Odorico Paraguaçu, o prefeito corrupto que pauta sua plataforma de governo na construção do cemitério da cidade de Sucupira, é traçada numa forma facilmente embrulhável para presente. É o teatrão comercial em pacote completo: teatro monumental com distinção social por meio dos ingressos (que variam de 25 a 120 reais), ator famoso da TV – marconanínicamente encabeçando o elenco – e estereotipação carioca do universo nordestino como bem sabe fazer Guel Arraes.
Sim, você leu direito. Guel Arraes assina a adaptação, junto com Cláudio Paiva, e ainda é responsável pela produção artística do espetáculo. O resultado é uma pequena saladação de Grande Família, Auto da Compadecida, minisséries-da-Globo-em-geral e “uns pegas” em coisas mais pesadas – como Casseta & Planeta (as figuras do bêbado e do coveiro não negam) e até mesmo os besteiróis da Brigadeiro (não, um personagem em sotaque soteropolitanamente forçado cantando Daniela Mercury como piada pronta pra sair de cena NÃO é legal). Para um espetáculo caça-níqueis faltou apenas um intervalo no meio para estimular o alcoolismo espumante (que se bobear, seria anunciado com um plim-plim).
Não encontrando a experimentação já mencionada no segundo parágrafo, e diante de uma apelação para recursos humorísticos muito mais superficiais do que aqueles explorados pela Companhia dos Atores, por exemplo, em sua pesquisa pelas entranhas do melodrama, resta curtir o texto de Dias Gomes, que seria ingênuo se, apesar da simplicidade como as relações políticas se apresentam, não sintetizasse tão pizzaiolicamente a política brasileira, ainda muito mais interessada em visibilidade e benefício próprio do que em ações que, como a própria palavra “política” quer dizer, beneficiem a “pólis”.
E para não deixar de mencionar a paraguaçústica interpretação de Marco Nanini, fico me perguntando: afinal, seu desempenho se destaca deste formato “nada-demais” por seu talento, ou será que o vemos tão odoríquicamente bem como o protagonista porque é uma produção que preguiçosamente pega carona nesse carisma desde o início para ganhar dinheiro? Vai ver que não, é só mais uma descrença minha – talvez influenciada pela política.
2 pizzas à carioca. Com catchup.

