Críticas

O Caminho para Meca

por Leca Perrechil

3 Comentários 22 April 2008

Cleyde Yáconis aponta o caminho

Foto: Divulgação

o-caminho-para-meca-foto.jpg

Dois aspectos – não necessariamente importantes para grande parte dos espectadores de teatro – me chamaram a atenção e me levaram a assistir à peça O Caminho para Meca, com direção de Yara de Novaes. O primeiro foi o local da apresentação: o recém-inaugurado Teatro Cosipa Cultura, novo espaço na zona sul, pertinho do metrô Conceição. Quem mora por esses lados (como eu) sabe como é difícil encontrar espetáculos pertinho do lar, sem a necessidade de atravessar a cidade para ver uma peça. Assim, valia a pena conferir o novo espaço perto de mim, e longe de todos os outros bacantes. O segundo motivo era Cleyde Yáconis, de 84 anos de vida e uns 50 e poucos de teatro. Apesar de não ser um dos motivos da revista VIP para ir ao teatro, a irmã de Cacilda Becker é uma dessas atrizes que você precisa ver pelo menos uma vez no palco.

Depois de quase duas horas de peça, descubro outras boas razões para estar lá. É claro que os motivos iniciais não sofreram decepções – voltar do teatro pra casa foi tão rápido que deu até gosto de estar lá e a Cleyde Yáconis realmente comove e faz com que não consigamos tirar os olhos dela, além de ser tão fofa que dá vontade de abraçar. Mas a encenação traz, além disso, sensibilidade e sutileza a temas como solidão, velhice, segregação racial e diferenças, que levam os espectadores a acompanharem mais de perto a narrativa.

 O texto do dramaturgo sul-africano Athol Fugard traz uma história inspirada na vida real de Helen Elizabeth Martins, uma artista plástica da África do Sul, que viveu entre 1897 e 1976, e não era muito bem compreendida por sua arte. Depois da morte do marido, ela começou a construir no jardim a sua “meca” pessoal, com esculturas abominadas pelo resto do povoado, mas que, para ela, representavam a liberdade.  

A peça toca em temas como a solidão sentida por Helen, isolada numa comunidade que a discrimina por ser diferente, numa sociedade racista e preconceituosa, guiada com rigor pelo dogma religioso. E as conturbadas amizades com Elsa (Lúcia Romano, de VemVai – O Caminho dos Mortos), que admira o trabalho de Helen, mas não agüenta ver a amiga perdendo o controle da própria vida; e com o pastor da comunidade (Cacá Amaral), que acredita que Helen não consegue cuidar mais de si e a critica por ter abandonado a Igreja.

Normalmente não costumo me interessar por montagens naturalistas, caso de O Caminho para Meca, que com mais algumas paredes e outro tipo de iluminação, poderia estar numa minissérie na televisão. Mas essa montagem consegue fazer o espectador se interessar pelo tema e acompanhar esse momento conturbado na vida de Helen, em todas as suas camadas, ao vivo e de corpo presente.

  3,25 π corujas em cena

O que a galera acha

3 comentários até o momento

  1. Olá Leca!!!
    Nos conhecemos em Curitiba, se lembra de mim?

    Eu assisti a esse espetáculo ha duas semanas e fiquei impressionado por ver um espetáculo tão bem feito.
    Senti falta na sua crítica de comentar a direção, cenografia (apesar de ter falado das corujas hehe), iluminação e os os outros dois ótimos atores que estão em cena com Cleyde Yaconis.

    Realmente Cleyde está divina, representando uma “velhinha” mais de 10 anos mais nova do que ela. É incrível ver o trabalho de interpretação aonde o corpo serve como emissor de uma emoção que atinge o espectador na medida certa. Vale a pena também falar sobre a relação da atriz com o texto. Como aquelas palavreas saem naturalmente de seus lábios.

    Mas na verdade eu quero falar do trabalho da Lúcia Romano. Já tinha visto seu trabalho no espetáculo TAUROMAQUIA, dirigido por Maria Thais, e era bem interessante. Agora em “Caminho para Meca” seu trabalho está consistente, maduro. Sua interpretação da está no mesmo nivel de qualidade e intensidade do trabalho de Cleyde, que generosamente sabe como jogar na cena para que todos brilhem na mesma intensidade.

    O trabalho de Cacá também é muito interessante, ele se utiliza do texto para surpreender o espectador….

    Cansei. É isso. Tá tarde

    Beijos

  2. melina says:

    Assisti à peça e achei tudo maravilhoso! As atuações(todas), o cenário,iluminação, a trilha maravilhosa. Não sei falar de direção, mas pelos atores e pelo que vi e senti acho que a direção é perfeita. Tudo no lugar. E simples, sensível! Chorei como nunca chorei no teatro! Vale a pena! Muitas razões pra ver O Caminho para Meca. Ainda tenho frases, rostos e cenas na minha cabeça.Inesquecível!

  3. Leca Perrechil says:

    Olá, Pedro

    Desculpe a demora em responder.

    Apesar de também ter gostado da atuação dos dois outros atores, optei por não comentar. Como não tinha nenhum aspecto mto relevante da atuação deles que queria destacar, me ative mais na Cleyde mesmo, que me comoveu. Mas os dois também estão bem. Já tinha visto o trabalho da Lúcia em VemVai, que também curti.

    Sobre o cenário, acho que beirou o naturalismo… ficou numa linha estreita entre aquele palco com todos os móveis certinhos e uma piraçãozinha em alguns elementos, como a das corujas. E a iluminação brincava com o medo da “escuridão”, aquela de quando as pessoas morrem mesmo, e com o clima das velas. Achava engraçado quando a Cleyde apagava a vela, e a iluminação caída incrivelmente… mas é teatro.

    Obrigada pelo seu comentário, ele complementa minha crítica.

    Melina,
    é bem bacana quando a experiência do teatro fica por mais tempo na nossa memória.

    Bjos pros dois.


E você, o que acha?

Deixe seu comentário

   A Bacante é movida a Wordpress e seu conteúdo é Creative Commons.
   Alguns direitos reservados (BY-NC-SA).