Críticas

O Cantil

por Astier Basílio

1 Comentário 23 September 2008

Quando os desertos conversam

Foto: Deivyson F. Teixeira

TESE:

Aprendi com Tânia Brandão que posso começar uma abordagem crítica com a expressão “Eu acho”. Então, como gosto muito de usar as coisas que aprendi, tipo quem compra roupa e sai se exibindo pros amigos, lá vou eu usar um começo aprendido no workshop de crítica normativa que tive com a crítica, professora e teórica fluminense.

“Eu achei” a peça Cantil, do grupo Máquina, com direção de Fran Teixeira, chatíssima. Apresentada no Teatro Raquel de Queiroz, no Festival de Guaramiranga, a peça mais parecia uma corrida de Fórmula 1 com dois Rubens Barrichellos na pista e os dois pilotos chegando em último. Aliás, o figurino lembrava os macacões de, mas sem nenhuma estampa de patrocínio. Achei até que a peça poderia ter outro nome: “Visitando Godot”.

Como aprendi com a mestra, “me irritam profundamente”   determinadas importações que me soam apenas efeitismos. Quando a apresentação acabou, fui lavar a alma com vodca e fanta exibindo o meu cachecol verde comprado na Zé Paulino, afinal eu estava em Guaramiranga e lá faz frio e se toma vinho. Quando atravessei as mesas dos bares, ouvi de esguelha um papo do Fernando Yamamoto do Clowns sobre o vigor, o ritmo,  “um rigor europeu” de Cantil. As exclamações e interjeições sucediam-se. Na minha cabeça só conseguia me lembrar de uma coisa: Théâtre du Soleil.

Mês passado eu fiz uma oficina relâmpago de cenário e o professor nos mostrou um vídeo com o espetáculo “Tambours sur la Digue“, daquela companhia  que reaproveitava a tradição de bonecos fazendo com que atores manipulavam atores…

Sério. Não tive como tirar as imagens impactantes do grupo francês: sua agilidade e delicadeza alternadas, além da precisão de cada movimento. Nada disso me saía da cabeça enquanto a peça cearense se arrastava quadro a quadro como uma seqüência de fotografias.  Tudo eu via em detrimento, comparando. O ritmo ágil do Soleil era sinônimo de precisão técnica; o arrastamento da Máquina, incompetência…

Vejamos o enredo: quatro atores no palco. Os personagens, de branco, comportando-se como se fossem bonecos, enfaixados até o rosto. Os manipuladores, todos de preto. Um carrega uma carroça, o outro aponta o caminho. O personagem que aponta o caminho se cansa. O personagem que carrega a carroça serve-lhe, põe uma cadeira. Quando a viagem é seguida, a cadeira é jogada. Um terceiro manipulador, este completamente de preto – pequeno esclarecimento para evitar confusão: os outros dois manipuladores estão de preto, mas se vê o rosto, ok? desse carinha aí, que faz uma contraregragem atuada, não se vê nadica. Anoitece. A luz apaga. O cenário brilha em estrelas ao fundo. Vemos barracas. Os personagens dormem. O personagem que aponta o caminho sai, fuma. Joga o cigarro no chão. Pisa o cigarro. Aparece uma seta. O personagem que carrega a carroça serve o cantil com água para o personagem que aponta o caminho.

Com mínimas alterações, mas nada de muito significativo, estas cenas se repetem à exaustão (do espectador).

ANTÍTESE:

Acordei perturbado. As imagens de Cantil não me saíam da cabeça. A trilha compassada. A manipulação a nu. O figurino branco. O figurino e o cenário sendo quase uma coisa só. Como se o deserto, ambiente onde a peça se passa e os dois personagens, que erravam por aquelas areias, fossem uma mesma matéria, uma coisa só. Era como se os personagens fossem feitos da mesma matéria que o sonho, o sonho de sair daquele nada, daquele deserto.

Aprendi com Tânia que posso dar minha opinião mesmo sem saber bem do assunto. Então, vou citar artes plásticas pra dar uma pinta ao meu texto. Da mesma forma que  Amílcar de Castro extrai variações do preto, pintando e repintando sobre a mesma cor, de modo semelhante,  as camadas sobrepostas de branco em Cantil, aliadas à estilística da repetição das cenas e dos gestos, acabam trazendo novos sentidos ao que parece ser apenas  variação do mesmo.

Enquanto bebia minha vodca, soube que houve problemas na projeção de imagens, daí a intensificação do ritmo lento, além do que se pretendia a encenação. Soube que a montagem adaptava uma peça de Bertolt Brecht, A Exceção e a Regra. E que a manipulação dos personagens se prestava, antes que um mero efeitismo, a uma perspectiva de leitura do que seja o termo manipulação, cujo signo também pode remeter à opressão – muito presente na relação entre os dois e uma recorrência na poética de Brecht. Assim,  o tom arrastado, quase como se exibisse cada fotograma de um road-movie no Saara, constituía uma partitura de sentido engendrando uma unidade ao espetáculo.

Os gestos constituíram quase uma exibição metalingüística de um filme com o seu making of simultâneo, numa conjugação corporal bem trabalhada entre os atores-manipuladores com os atores-personagens.

SÍNTESE

Xadrez, de Jorge Luis Borges

II

Rei tênue, torto bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
por sobre o negro e o branco do caminho
buscam e libram a batalha armada.

Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este a peleja.
Que deus por trás de Deus a trama enseja
de poeira e tempo e sonho e agonias?

tradução de Renato Suttana

Um espetáculo que continuou sendo encenado mesmo depois das cortinas se fecharem

Confira também a crítica de Paulo Bio Toledo para O Cantil.

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