Fotos: Deivyson F. Teixeira
O Teatromáquina é um grupo de Fortaleza (CE).
O Cantil é sua adaptação da peça didática A Exceção e a Regra, de Bertolt Brecht, escrita em 1929, na Alemanha.
Em São Paulo, no ano de 2008, as regras, bem como as exceções, se assemelham às expostas por Brecht. De regras temos um espaço econômico/financeiro que orienta as relações políticas, sociais e humanas – essa é, invariavelmente, a grande questão dos últimos séculos: aceitar essa premissa ou rechaçá-la. Não caberia aqui, entretanto, defendê-la, mas dialogar com ela é o ponto de partida necessário para falar sobre o espetáculo de Fortaleza (ou sobre Brecht).
Dessa primeira regra desdobram-se milhares outras e assim por diante, numa ramificação contínua e incessante, que mascara suas bases e sua visualização enquanto processo. Naturalizada. Ou seja, não mais podemos enxergar, em geral, a trajetória dos homens ao longo da História, o que, por sua vez, nos faz ver o mundo como “inevitável”. Não à toa, após a Guerra Fria, com o fim da URSS, decretou-se o “Fim da História” (tese defendida pelo economista norte-americano Francis Fukuyama).
A impossibilidade de enxergar as rodas da economia nos faz bonecos de movimentos lineares e previsíveis, que só podem se preocupar com a resolução de seu particular.
O Teatromáquina assume, já na concepção do espetáculo, essa situação. São bonecos os personagens centrais (comerciante e o cule – espécie de carregador); os outros dois atores são os manipuladores. O comerciante quer alcançar seu objetivo comercial, para isso explora e maltrata o cule que quer, por sua vez, cumprir suas funções e receber seu pagamento.
Mas a sensação de “inevitabilidade” dos processos sociais produz também as exceções. No caso, a exceção acontece quando os dois encontram-se perdidos no deserto, sem mais água nos cantis. O cule dirige-se a seu patrão para oferecer-lhe água restante de seu próprio cantil. O patrão assusta-se, acha que é uma pedra, e lhe dá um tiro.
O espetáculo do Ceará termina aqui. A peça de Brecht não.
Brecht expõe ainda o processo de julgamento do comerciante e a sentença do juiz, que vale a pena ser transcrita aqui:
O Tribunal considera provado que o carregador aproximou-se do patrão, não com uma pedra, e sim com um cantil d’água. Ainda partindo dessa premissa, porém, era muito mais provável que ele estivesse pensando em matar o patrão, com o cantil, do que em lhe dar de beber. O carregador pertencia a uma classe que tem, efetivamente, razões para sentir-se prejudicada. Para pessoas da classe do carregador, defender-se contra um abuso que o deixasse lesado na partilha da água era uma simples questão de bom senso. Para pessoas desse tipo, com seus pontos de vista limitados e unilaterais, aferrados a um único aspecto da realidade, pareceria até bastante justo vingar-se dos que as maltratam: no dia do ajuste de contas só teriam a ganhar. O comerciante não pertencia à mesma classe do carregador, de quem só podia esperar o pior. O comerciante jamais poderia acreditar em qualquer gesto de camaradagem por parte do carregador, a quem ele havia confessadamente maltratado: o bom senso lhe dizia que sobre ele pesavam as mais graves ameaças, e o despovoado da região devia trazê-lo cheio de apreensões. A ausência de polícia e de juízes possibilitava ao empregado arrancar-lhe à força a sua ração de água, e o encorajava mesmo a fazer isso. O acusado, portanto, agiu em legítima defesa tanto no caso de apenas sentir-se ameaçado. Dadas as circunstâncias, tinha razões para sentir-se ameaçado. Isto posto, absolve-se o acusado, e não se toma conhecimento da queixa da mulher do morto.
A dialética presente neste exemplo mostra uma lógica absolutamente clara. Dentro da configuração sistêmica em que estamos envolvidos, sobre a qual o Direito exerce uma soberania regulatória calcada em pretensos valores universais, não é possível conceber uma lógica diversa desta exposta acima.
Ou seja, o veredicto do Juiz, tal como exposto por Brecht, é justo! Tendo como parâmetro, obviamente, a própria instituição justiça (que não é universal, mas sim de classe). Assim, de maneira louvável, Brecht demonstra uma das complexidades do capitalismo: as regras são oriundas de um processo histórico as exceções apontam sua disritmia – desse modo, deveriam ser pensadas como deflagradores de um sistema baseado na opressão e não como fato pontual, particular de uma injustiça. No texto de Brecht, o juiz, o comerciante e o próprio cule exercem seus papéis particulares de maneira certa. Nenhum deles foge a um comportamento “lógico”. O comerciante tem de chegar o mais rápido possível a seu destino, se não perderá dinheiro e irá a falência; o cule, como trabalhador não sindicalizado, tem de aceitar tudo ou morre de fome; o juiz aplica corretamente a lógica pura dos cânones do Direito que apontam diretamente e sem curvas à sentença proferida. Seja assim, o problema da injustiça não está em nenhum dos indivíduos retratados, está na própria constituição das relações sociais.
O espetáculo do Teatromáquina é positivo no realçar a fábula da peça, no uso de bonecos (que ampliam o acontecimento, retirando-o do âmbito do fato e colocando-o na exemplaridade – como pedem as peças didáticas) e na simplicidade e limpeza da cena. Mas ao retirar grande parte das conjunturas que circundam a situação o grupo minimiza a complexidade da ação o que causa a leitura provável de que o comerciante é simplesmente um indivíduo maquiavélico. Por exemplo, nada no espetáculo mostra que o “opressor” é um comerciante ávido por chegar antes que seus concorrentes. A menos que se conheça o texto, fica, portanto, a impressão de que são dois homens iguais, perdidos no deserto, e que um oprime o outro, simplesmente. Também as complexidades que envolvem a aceitação irrestrita do cule são removidas – o fato de não ser sindicalizado, por exemplo – dando a entender que ele é “oprimido” pela força e não por questões de classe.
Gera-se, assim, um paradoxo: os bonecos possibilitam uma leitura pela dês-individualização, o que é justo à fábula, mas a ausência da conjuntura volta a dar impressão de um fato pontual ou, se não, pior, de natureza humanamente ética. Ou seja, se visto para além do indivíduo o espetáculo tende a uma exemplaridade da maldade opressora, que, nesses termos, só poderia ser resolvida com evolução ética dos homens. Brecht mostra, didaticamente na peça, justamente o contrário: a ética e a humanidade não têm lugar no sistema capitalista. Seja assim, ele é histórico e não natural.
Afora isso, o final do espetáculo não deixa claro o fator principal da peça – que é o que possibilita contradição: não é claro, pela ação dos bonecos, que o cule estava oferecendo sua própria água ao comerciante, que o comerciante pensou ser uma pedra e que o matou por causa disso.
De qualquer maneira, o texto de Brecht e a evidência do mesmo pelo Teatromáquina jogam luz a questões que vão sendo cada vez mais soterradas pelo senso de status quo predominante. Todavia, a enorme crise financeira mundial embaralha um pouco as cartas: quando o crescimento econômico vertiginoso de boa parte do mundo criava a ilusão de que caminhávamos para o tão esperado capitalismo justo “social-democrata” a crise vem derrubando todas as expectativas, mas a recessão que se avizinha dá sinais de um fortalecimento corporativo (vide os monopólios que vêm se formando), que, pela lógica (que é regra), transferirá seus trilhões de prejuízos pós-crise para os desfavorecidos. Por outro lado, a crise revela, com letras (e números) de aço, o sentido histórico do capitalismo – o mesmo que Brecht e todos os teóricos do materialismo histórico já apontavam, mas que, ano após ano, foram engavetados no arquivo intitulado “datado/anacrônico”.
1 crítica insensível que pouco se importa em contar o final da peça.
Confira também a crítica de Astier Basílio para O Cantil.





Conheço o texto, mas não vi a peça… Infelizmente!
Realmente essa história é complexa demais para ser mostrada simplesmente como o foi (Conheço o grupo, a diretora e a proposta do espetáculo)
Discordo, Jorge. Acho que a maneira simples (e não simplista) escolhida para a encenação não despreza a complexidade do texto, pelo contráriuo, coloca uma lente de aumento nos gestuais e estruturas de opressão, as atitudes ficam mais evidentes e isso valoriza muito a idéia por trás das palavras da dramaturgia. Ainda dá tempo de assistir…
Abraço,
Juli =)
Me parece que a crítica segue ainda por uma referência muito dependente ao texto original. “O cantil”, pelo trabalho que pude ver, assume não uma adaptação de “A exceção e a Regra”, mas uma transcriação do texto como modelo de ação, a partir do que o próprio Brecht propõe na teoria da peça didática. Dessa forma, a abordagem é contemporânea e aberta, sem uma filiação necessária ao texto original, nem a poética brechtiana. A ancestralidade dessas figuras, o patrão e o carregador, nos faz pensar sobre nossas ações de forma histórica, sem texto, sem julgamento.
Concordo sobre a transcriação do texto pelo espetáculo. E não tenho nenhum fetiche pela leitura canônica dos textos teatrais. Concordo ainda que a abordagem é aberta e criativa na releitura. Mas o que tentei levantar foi que a peça, se olharmos friamente (porque eu gostei demais quando vi), não dá os elementos de contradição. Ok, até aí pode ser uma opção do grupo. Mas, então, o que acredito que acontece é que sem contradição a leitura fica dualista. Opressor e oprimido se mostram como categorias éticas ao longo da história. E a opressão representada não se explica enquanto causa só enquanto conseqüência (e isso envolve sim julgamento!, do opressor).
Juli, em quais momentos você acha que o gestual põe uma lente de aumento na ESTRUTURA de opressão?
Pois, pelo que me lembro, apenas mostrava-se a opressão ultrajante (abuso crescente do poder, submissão total, e agressão deliberada). O único momento que esboçava uma complexidade era no sonho.
Acho que é um belo espetáculo, sem dúvida. Mas tentei no texto problematizar esse belo mesmo.
Beijos.
“coloca uma lente de aumento nos gestuais E estruturas de opressão”. Quis dizer que deixa mais evidentes:
1. As características de um ‘corpo acumulado’ de opressão e de outro que oprime. De maneira ‘dualista’, concordo, mas que, talvez por estar aumentada, deixe pra nós a tarefa de relacionar com nossas situações cotidianas.
2. As estruturas de opressão, no plural, não a estrutura em sua complexidade, até porque ela é hoje tão abstrata pra traduzir em gestos, mas algumas estruturas usuais, como a opressão pela intensificação do trabalho ou a opressão pela violência. Hummm… explicando agora penso que talvez “estrutura” não seja a melhor palavra, mas foi isso que eu quis dizer.
bjos,
Juli =)
Também acho que, num certo aspecto, e especialmente se conhecermos previamente o texto original, a leitura do espetáculo pode cair num dualismo simplista. Se conhecemos o texto, sentimos falta da discussão sobre um comportamento de regra e/ou de exceção, sobre o caráter histórico dos julgamentos. Daí o interesse em entender o projeto de encenação. A opção por uma exposição gestual apenas da relação entre os dois também é distanciadora, porque é extrema demais, exagerada. Algumas perguntas que podem surgir: por que o empregado continua a viagem se eles não sabem para onde vão, mesmo depois de tantos maltratos? O que faz do empregado esse ser tão submisso? A necessidade ou a ignorância? Quem é mais cruel: aquele que bate ou aquele que se deixa bater?
Boa essa discussão…
oi.
Eu deveria ter respondido antes, mas final de semestre é esse caos de sempre.
Nem sei se faz mais sentido agora…
Enfim..
Acho que essa discussão é muito boa mesmo (e se assemelha a outra que eu acabei de ler na crítica do Kiko). Por que, no fundo, é muito difícil dissociar a percepção (subjetiva?) individual do olhar material (objetivo?) sobre a obra. E, entretanto, a discussão só transitou por características materiais… acho isso muito bom…
Eu concordo bastante com vocês, nos pontos levantados, e nas perguntas que você faz Regina. Acho que são questões que possibilitam debate mesmo, e reflexão.
Mas minha visão é justamente sobre a palavra estrutura Juli. No sentido de que (eu acho… sem qualquer fundamento) as reflexões possíveis não tocam os “alicerces” da coisa.
Obviamente, alguém que já tem na cabeça um pensamento construído sobre as estruturas de opressão pode vislumbrar lá muita coisa que se equivale.
Mas, sobre o contexto social (e mundial) que se insere a peça a reflexão não consegue sair do campo da ética, pois não provoca justamente as nossas (genérico) concepções naturalizadas. Pra tornar isso objetivo, temos que as questões levantadas por vocês são questões que, embora muito pertinentes, não são negadas pela sociedade, que estão aí, até nas telenovelas, nos jornais etc., mas que, na maioria das vezes, são respondidas com uma validação total do próprio sistema que as gerou! O Lukács fala uma coisa muito interessante (e complexa): que o pensamento filosófico burguês redunda sobre ele mesmo pois não consegue superar o olhar “especializado” e “reificado” de seus próprios instrumentos… gerando um abismo entre práxis e conteúdo (é bem mais complexo que isso.. mas eu ainda não consigo entender isso tão bem pra expor claramente)
Sei lá… acho que é isso…
(espero que alguém ainda leia aqui…)
ummmm massa
Não bastasse toda a humanidade ter aturado o fim das “ágoras” gregas, resultando em processos políticos degradantes de velorização das retórias inúteis que só podem visar a hipnose dos incultos, temos que suportar críticas ruins dos retoricos sobre um espetáculo tão sublime, estraído da obra prima de Bertold Brecht. Nada a acrescentar ao grupo, que foi magnífico, ao meu ver que só poderia ter caprichado um pouco mais no ferramental de projeção, para podermos então, nomear perfeição. Até entediante classificaram o espetáculo, absurdo literal. A falta de senso crítico e de “importar-se com” obviamente é quem comanda críticas absolutamente irreais sobre o espetáculo, que nos faz refletir muito na saída do teatro, sinal evidente de um grande espetáculo. Bahh, críticos burgueses e mimadinhos, viva a arte , viva Brecht..
Oi Osmar,
Que bom que você refletiu muito depois da peça. No entanto acho que isso não é critério pra classifica-la certo?
No entanto, você faz uma série de juízos de viés subjetivo.
Ao dizer que a peça é ’sublime’ um ‘grande espetáculo’, grupo ‘magnífico’ é você quem o está classificando vorazmente.
Quando nos propomos a conhecer a obra de Brecht a fundo, aprendemos muito. Primeiro que se escreve Bertolt e não ‘Bertold’. Segundo que o próprio jamais classificaria como ‘obra-prima’ uma de suas peças didáticas que tinham por objetivo justamente encerrar com essa separação burguesa entre ‘artista genial’ e ‘público contemplativo’. (Eram peças a serem apresentadas em fábricas, sindicatos… Onde os próprios trabalhadores construissem a cena e discutissem seus aspectos dialéticos durante a representação)
Por fim, se ainda existissem as Ágoras gregas creio que seu comentário não seria muito bem visto, isto porque você parte de uma sensação subjetiva e puramente pessoal para julgar, sem muito engajamento e com uma série de julgamentos acerca tanto da obra como do interlocutor crítico.
No fim, ao me classificar de “burguês mimado” você foge ao debate numa tentativa de desqualificar seu interlocutor (no caso eu).
Então, pela sua lógica, se eu sou um “burguês mimado” portanto tudo que eu escrevi é uma besteira. Assim, você julga pela desqualificação prévia. Isso, caro Osmar, é a origem retórica do preconceito.
Valeu pela visita e pelo comentário
Se quiser debater a peça estou sempre disposto (embora faça bastante tempo que assisti)
Abraços