Now streaming: Gerald Thomas
Não é todo dia que é possível apresentar aos leitores da revista o espetáculo, na íntegra, juntamente com a crítica, permitindo que a leitura seja feita ao mesmo tempo em que o leitor assiste. É este o caso de O Cão que Insultava as Mulheres – Kepler, The Dog, de Gerald Thomas e sua companhia Ópera Seca.
Trata-se, como o próprio Gerald comenta ao final do vídeo, de uma doideira – ele partiu de textos e comentários de seu blog para construir o que ele batizou como blognovela. É o primeiro de outros capítulos que devem aparecer por aí.
Muitas das características do que se vê na tela são facilmente relacionáveis ao nome e à obra de Thomas – uma montagem textocêntrica e sem linearidade, entrecortada por milhares de assuntos, embalada por imagens construídas com rigor, muita fumaça, jogos de luzes e narração em off dublando personagens em cena. Nada disso é novidade, mas aqui há muito mais do que a tradicional relação forma/conteúdo: ganha força também o fator meio (nã-não, não o centro, tô falando do medium por onde o espetáculo é transmitido) – e as influências que esse meio impõe à forma do que é produzido.
Não pude ver a única apresentação ao vivo da obra, no SESC Avenida Paulista, mas tive a paciência de assistir à uma hora da encenação na telinha minúscula de meu computador (Jesus, como assistir vídeos longos na web – ainda mais em baixa resolução – é chato!) – e creio ser muito mais interessante pensar no que significa uma obra teatral ser concebida para a rede, produzida a partir de postagens e comentários no blog do dramaturgo e diretor.
Quem acompanha o blog do Gerald já viu sua empolgação com a pluralidade dos comentários acerca de suas postagens sobre os assuntos mais diversos (empolgação esta que ficou ainda maior depois que seu sítio mudou para um portal que lhe dá mais visibilidade). Esta multiplicidade que ele veio descobrindo ao longo do tempo é, na verdade, a base das quase duas décadas da internet comercial: a premissa de conhecimento e opinião compartilhados – o que apenas se multiplicou com as ferramentas participativas que hoje facilitam a vida de todos, caso dos blogs.
Assim como a colaboração na web não é novidade, também não o é a apropriação artística deste material na produção de obras autorais. Acontece que, independentemente de possuir ou não algum caráter de ineditismo, a experimentação de Gerald e seus atores (e, claro, seus colaboradores virtuais) faz pensar numa produção artística realizada em tempos de tamanha instrumentalização tecnológica. Mais que isso, levanta questionamentos sobre o quanto (e como) o teatro pode se apropriar da tecnologia em suas produções – isso quando a própria forma do espetáculo não sofre mutação, caso do espetáculo em questão.
Mas diferente dos roteiros escritos por Samuel Beckett para a TV, por exemplo, Kepler, The Dog visto pela mediação da tela do monitor não passa de um espetáculo concebido para o palco – ainda que sua realização visasse a transmissão pela rede. Por mais que tenha surgido a partir da internet e só faça sentido considerando este fato, o primeiro capítulo da blognovela de Gerald Thomas ainda é teatro filmado, com toda a importância que o registro da efemeridade do palco pode ter, mas também com toda a precariedade e ingenuidade de câmeras que tentam dar conta de captar o todo de forma documental e com pouco diálogo com o meio a que a obra se destina (vale ressaltar que a busca por atores via internet, por meio do envio de vídeos, dialoga muito mais com o meio do que o próprio resultado final).
Para os próximos episódios desta blognovela, fica a expectativa de que além da inspiração na atividade colaborativa, haja maiores apropriações (e por que não questionamentos e subversões?) da tecnologia como forma de transformação (e não apenas reprodução/propagação) da produção teatral – além da torcida para que o produto final transmitido pelos precários serviços de banda larga brasileiros seja minimamente estimulante a quem não está num teatro escuro cheio de fumaça (e cujos focos de atenção não estão condicionados a seguir os movimentos de luz e som que ocorrem em cena).
59 minutos de teatro filmado


Relexão legal, Maurício. Pegou no ponto.