Eu e mais quatro
Foto: Edson Kumasaka
Volto à Maquinaria, mas dessa vez não é pra tomar cerveja e ouvir algumas músicas. O texto agora é do Gógol (autor russo, muito anterior ao Google, para aqueles que esperam a piada fácil): O Capote, clássico que já tinha conferido num infantil, feito com bonecos. Desta primeira montagem, guardo na lembrança uma grande quantidade de personagens que permeiam a realidade de Akaki Akakievitch, protagonista da história. Por isso, fui conferir essa nova releitura, que tem Nelson Peres no papel do protagonista e de todos os outros personagens do texto original.
O capote é o objeto de desejo. Akaki remenda seu casaco por muitos anos, até que seu alfaiate se recusa a continuar fazendo remendos e sugere que Akaki compre um capote novo, feito sob medida. O desejo se instala na cabeça e ele passará meses com apertos financeiros pra conseguir a grana prum novo capote. Mais ou menos como a gente vai fazer pra conseguir pagar o novo sistema de publicação da Bacante, mas essa é outra história.
Nelson Peres está na sala, de branco, sem capote, só com luzes e nada mais. O monólogo, feito a partir de um texto com muitos diálogos e algo de comentários literários e oniscientes, pede sutilezas na atuação que Nelson soube pesquisar. Akaki está lá, em corpo, voz e fragilidade. A mulher do alfaiate, apresentada somente pela voz e pela imagem dos pés ao lado de uma lâmpada fraca, também é muito sugestiva. Vemos ali todas as mulheres cujas vozes estão presentes no cotidiano de seus maridos, comparsas e amantes; mas que nunca chegamos a conhecer.
A dramaturgia de Gógol foi adaptada ao monólogo, no entanto, houve alguma aceleração estranha do texto. Na procura de mais agilidade entre as cenas, perderam-se silêncios preciosos. Talvez o desafio de fazer vários personagens, ou talvez a própria ausência de objetos de cena e outros recursos de caracterização, tenha levado pra esse caminho. Em contrapartida, outras opções arriscadas são acertos que devem ser lembrados dessa montagem extraordinariamente simples, como o uso e a interação com lâmpadas incandescentes (gerando a idéia de lugares escuros, lugares de imaginação) e a ausência do objeto central do texto, o capote (sugerindo que o capote pode ser qualquer coisa, até o sistema de atualização de um site).
A proporção ator/platéia estava em um pra cinco. Se todos os personagems que Nelson Peres interpretou ganhassem vida, fariam maior número que a platéia. Revi um esforço do ator em fazer daquele momento de encontro, único. Teatro feito sem o conforto do público certo. Em que cada apresentação é uma guerra, batalha de um homem só.
Pelo menos um personagem por pessoa da platéia
Ps: Juro que nunca mais uso qualquer trecho de música do Engenheiros do Havaí como destaque, nem como parte do texto. Sob risco de furar meus olhos e ouvidos.

