Vai um remedinho pra lembrar do passado?
Foto: Divulgação.
Espaço CPT. Superadas as más lembranças recentes do Prêt-à-Porter (bate na madeira: toc-toc-toc), entro e me sento em meu lugar e espero pelo início da peça O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade. Ainda dá tempo de reconhecer aquele pessoal bonito, arrumado, perfumado e maquiado que sempre vemos ali presente pra “prestigiar” (é jogar chocolate prestígio? Nunca entendi) os trabalhos da turminha mais pop do teatro paulistano. Pra onde vão essas pessoas com essa maquiagem depois da peça, eu juro que não sei. Que outras peças assistem? Também não sei. Mas que elas sempre estão ali, ah estão!
De cara, algumas coisas já lembram Antunes, como bonecos em tamanho real na cena aberta, além de muitas cadeiras – que são tão características que estão por todos os lados no saguão do CPT, ambientando a exposição dos 10 anos do Prêt-à-Porter (toc-toc-toc). Eu já falei que tenho medo do Prêt-à-Porter (toc-toc-toc)? Já, né?
No texto, uma família esburacada, como sempre vemos por aí: o pai, médico, abandona a esposa e a filha, e retorna anos depois para visitá-las. Encontra uma filha debilitada, em uma cama, e uma esposa aposentada e hipocondríaca. O que, em sinopse, poderia lembrar Lagarce, na cena remete mais a Beckett em seu Fim de Partida, mais na forma do que no conteúdo: personagens impossibilitados de saírem de um mesmo espaço – físico ou emocional. Também é possível lembrar de Sarah Kane em alguns momentos dos diálogos, e isso me faz pensar: será que o grande barato da dramaturgia contemporânea é o fato de todo mundo se parecer com todo mundo em alguma instância? Ou será que essa característica é só de projetos que buscam assumida e formalmente encontrar essa “contemporaneidade”?
A direção de Eric Lenate opta por um registro de interpretação quase expressionista, além de aproveitar a verborragia positivamente, dando tanta velocidade e intensidade às falas qu e o textocentrismo se torna o elemento ditador do ritmo da montagem. Dá gosto ver, por exemplo, Patrícia Carvalho falando enquanto arruma-desarruma-arruma os remédios em uma mesinha, em uma compulsão infinita. Ou a reação de Paula Arruda quando sua personagem finalmente recebe a Coca-Cola que pede ao longo da peça.
Apesar de gostar de tudo o que vi em cena, fica claro que a montagem já nasce velha. Por ser a segunda encenação de algum dos cinco textos do Círculo de Dramaturgia do CPT publicados em 2005 pelo próprio SESC (o primeiro foi O Canto de Gregório, de 2004), ficam várias perguntas. Por que os demais textos não foram encenados até agora? Não faria sentido encampar a encenação de todos, se possível ao mesmo tempo, para que essa pesquisa não perca sua validade? Qual o sentido de uma cisão tão grande entre dramaturgia e encenação? É impressão minha ou um único livro e duas encenações são muito pouco para tanto tempo de pesquisa? Considerando-se que essa pesquisa seja, portanto, vedada ao público, a quem ela é voltada, então? Mais uma vez, saio do CPT com a cabeça cheia de dúvidas…
2 encenações em 3 anos



concordo!!!em genero numero e grau, e confesso, eu também tenho medo do pret a porter, ninguem ousa mais não? atores sabem só seguir o mestre, e ficar a sua espreita, não criam seus processos, suas duvidas e fazem delas seus trabalhos…
Edu, você acertou em cheio a expressão: “siga o mestre”.
E não se aplica apenas aos atores, mas também ao público. Sempre me lembro da frase que eu ouvi da platéia quando fui ver um dos Prêt-à-Porter: “É num diálogo desses que a gente vê quanto conhecimento eles têm.” É triste…
Mais engraçado é que no final das contas, este espetáculo (O céu 5 minutos…) é bem bom, mas essa aura toda em torno do CPT torna tudo muito questionável.
Vamos ver como vai ser essa Senhora dos Afogados que estréia logo mais…
O que eu acho? Acho que tem gente falando muita bobagem por aí. Devem estar vendo muita televisão no lugar de aprender com os velhos mestres da crítica teatral.
Não entendi a sua colocação Pedro?ver televisão ao lugar de aprender com os mesrtres? claro que sim, mas nem sempre os mestres tem algo dito tão novo pra mostrar, já vi muitas cenas do pret a porter, que pareciam ter saído de alguma novela, essa aura que cerca não me convence, , claro que já vi trabalhos preciosos de Antunes, longe de mim questionar seu trabalho, mas essa idéia de novidade, das pessoas atônitas ao ver o espetaculo pra mim não passa de mito, alguem querendo ser ou parecer cult, cada um tem sua opinião, claro e a minha definitivamente é bem vclaro, não gosto e não acredito neste trabalho, mas não é por isso que ele deixa de existir visto completarem 10 anos, tem gente que gosta, e assim vai se vivendo…vendo televisão, ou aproximando-se dela.
Pedro (puxa, você é o ex-ministro??),
Claro que há muita coisa para aprender com “os velhos mestres” – inclusive, muita referência daquilo que NÃO queremos fazer. E acredite, muita gente é referência pra gente nesse sentido. Na verdade, dependendo do “velho mestre” a ser seguido, juro que prefiro ver televisão ou escrever bobagens por aí… E olha que eu detesto TV…
Mas já que você está falando das nossas bobagens, o que VOCÊ acha? Não do texto, mas da peça e das opiniões expostas? Pode ser uma opinião sua ou dos seus “velhos mestres”, o que importa é o debate.
Abraço.
Velhos mestres? Tipo o Mestre dos Magos? Uau… boa idéia!
E se o Vingador e o Mestre dos Magos forem a mesma pessoa?
ahahahahahhaha
adoro o mestre dos magos
sempre me falaram que aquela Yunie era o diabo
será?
O debate, muitas vezes, acaba se perdendo em si mesmo. E não me refiro à brincadeira da ‘caverna do dragão’, mas de como a vaidade distorce e anima uma discussão paralela, cujo fim nada tem a ver com o tema originário. O que foi levantado pelo Maurício é algo relevante, porque por trás de qualquer produção, há um discurso, uma ideologia que, mesmo se incalculada e impensada por quem a profere, deve ser refletiva. Em outras ocasiões, além deste discurso alicerce e subliminar – que é anterior e ulterior -, há um outro, mais fino e abstrato, mais camuflado, embora muito capaz. E é disso que trata o texto do Maurício. Não caiamos no incopetente e inútil debate sobre a busca, ou não, de referência nos clássicos. Nenhuma inovação se dá ou se deu a partir do nada e da falta de referências. Portanto, para-além da estéril e fútil argumentação de que nada presta na TV, é preciso refletir sobre o que se vende e se consome, tanto através da ‘industria cultural’, quanto pela arte ‘b’ – seja de visível procedência popular ou erudita. Grande Abraço.