Críticas

O Grande Cerimonial

por Paulo Bio Toledo

Nenhum Comentário 29 September 2010

Obs.: Entre os dias 02 e 12 de setembro de 2010, Paulo V. Bio Toledo participou do 25º Festivale, em São José dos Campos, como crítico convidado pelo festival. O texto a seguir foi originalmente publicado na página do 25º Festivale (veja aqui)

Onde está nosso “Vazio”?

Foto: Viviani Leite

Nas conversas com os grupos que se apresentam neste 25º FESTIVALE, quase sempre surgiram inquietações a respeito de quais são os assuntos abordados nas obras. Pela terceira vez neste festival – no debate com o diretor Reginaldo Nascimento, de O Grande Cerimonial – a resposta perpassou temas como “o vazio contemporâneo”; “a incomunicabilidade” etc. Não por acaso, nas três vezes que a resposta foi essa, o assunto pareceu algo relegado ao segundo plano do debate de modo que, no fundo, o que realmente importava ali era as discussões sobre as estéticas. Ou seja, o assunto surgia então como mera JUSTIFICATIVA para a pesquisa teatral e, como tal, determinação horizontal nas obras, isto é, sem qualquer aprofundamento ou contextualização de si. Alinhando-se, ao que parece, à reprodução passiva dos signos da moda semiológica na pós-modernidade.

O espetáculo do Teatro Kaus Cia. Experimental encena a obra O Grande Cerimonial de Fernando Arrabal, autor espanhol próximo aos procedimentos do que se convencionou chamar Teatro do Absurdo. Um homem “perturbado” chamado Cavanosa vai ao parque toda noite na busca por mulheres para realizar seu cerimonial sanguinolento em companhia de sua mãe, com quem possui doentia relação: o paroxismo da psicanálise. A encenação do Teatro Kaus optou por uma interpretação expressionista onde as personagens movimentam-se como bonecos, marionetes saídas dos velhos filmes de Fritz Lang ou das obras de Edvard Munch.

Foto: Gilmar Dueñas

Na primeira cena do espetáculo, o ator Alessandro Hernandez (Cavanosa) e a atriz Amália Pereira (Menina) realizam muito corretamente a proposição, o diálogo no banco da praça impressiona pela estranheza “natural” com que os atores passeiam por sua movimentação extremada e pelo “absurdo” das sentenças. De fato, a absurdidade ganha vida, a cena configura-se como “situação” concreta e consegue superar aquela velha “demonstração” do absurdo, tão comum em espetáculos do tipo. Entretanto, não é possível dizer o mesmo das outras duas personagens (a Mãe e o Amante) o que cria uma disritmia no espetáculo.

Porém, tal disparidade não compromete a proposta e o espetáculo consegue se mostrar como um instigante objeto estranho, que, por sua vez, impõe a dúvida sobre o que significa aquilo em meio a tão violenta padronização estética da indústria cultural contemporânea. O efeito é visível no espaço onde foi representado, o Teatro do SESI, pois, ao que parece, seu público é composto por muitas pessoas que não freqüentam teatro constantemente: assim, o estranhamento potente de O Grande Cerimonial desequilibra as certezas paradigmáticas do senso comum. Só que tal “força” parece ter fundo falso.

A reiteração da temática da “incomunicabilidade” contemporânea, dos “abismos psicanalíticos” ou, nas palavras do diretor: “um grande jogo sobre o vazio” faz com que o estranhamento pela forma aponte para um arcabouço filosófico bastante descontextualizado e sem nenhuma profundidade para além do mero apontamento “up to date” de velhas filosofias do pós-guerra europeu (principalmente). Também presente no debate, o diretor Robson Corrêa (do espetáculo Companhia) contou que o Brasil foi o segundo país do mundo a encenar um texto específico de Samuel Beckett. E disse que muitos não se conformavam e perguntavam: “o que essa filosofia decadente tem a ver conosco?”. Embora o diretor estivesse ridicularizando este tipo de indagação, é urgente enfrentá-la e resistir a disseminação – estilo papagaio-tropical – das estruturas de pensamento que se originam num entorno histórico e geográfico absolutamente diverso do nosso. Incorporar tais filosofias como “verdades universais” da contemporaneidade é reviver o imperialismo eurocêntrico e fechar os olhos a nossa montanha contraditória: Brasil, América Latina, Terceiro Mundo em ascensão econômica. Enfrentar tal realidade não significa excluir temas como o “vazio”, “abismos comportamentais” e/ou a “incomunicabilidade”, mas sim verticalizar o olhar sobre tais “verdades” e compreendê-las dentro de um contexto histórico específico, dinâmico e em veloz transformação – muitíssimo diferente do contexto Europeu.

O espetáculo O Grande Cerimonial é provocativo e esteticamente surpreendente, mas parece faltar-lhe a disposição de compreender a obra de Arrabal de forma menos reverente e, portanto, abrir a janela do debate às nossas ruas sinuosas e contraditórias.

Foto: Viviani Leite

O espetáculo foi assistido gratuitamente dia 09 de setembro às 20h no Teatro do SESI-Bosque dos Eucaliptos em São José dos Campos como parte da programação do 25º Festivale

1 absurdo

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