Críticas

O Homem com Flor na Boca

por Maurício Alcântara

Nenhum Comentário 14 April 2008

Poulain sem Lexotan

A sinopse apresentava o protagonista do monólogo O Homem com Flor na Boca como “um homem que passa a dar mais atenção às pequenas coisas”, e logo me lembrei da personagem serelepe de Audrey Tatou em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (filme coloridinho do francês Jean-Pierre Jeunet, um dos prediletos do público culturete) que, privada da interação social com outras crianças, desde pequena passou a cultivar também seus “pequenos prazeres”.

O personagem interpretado por Cacá Carvalho passa a observar as pequenas coisas por um motivo mais árido: ao descobrir um câncer na boca (ou você achava que ele carregava uma rosa vermelha? Que clichê!), passa a observar todo o mundo ao seu redor sob a ótica de quem tem apenas oito meses de vida. Se fosse uma minissérie da Globo ou filme sentimentalóide de Hollywood, ele certamente buscaria viver estes oito meses da forma mais intensa e alegre possível, curtindo a vida adoidado, como em Antes de Partir ou Doce Novembro. Mas como estamos falando de Luigi Pirandello, as coisas são um tanto diferentes.

Mais do que uma busca pelo prazer e pela beleza, o personagem abandona sua casa e esposa para se dedicar à observação da sociedade como uma espécie de flâneur obsessivo, e cada constatação o torna uma pessoa mais áspera e solitária, incapaz de conviver com pessoas que não enxergam as mesmas sutilezas que ele vê. Como sempre ocorre na obra de Pirandello, é a partir de pequenices aparentemente inocentes (como a forma como os lojistas da cidade grande embrulham graciosamente os presentes, ou a maneira como são organizadas as salas de espera de médicos) que o personagem estrutura as denúncias das contradições da sociedade moderna, sobretudo das convenções sociais que artificializam vidas, comportamentos, ambientes e até mesmo cidades inteiras.

E não é só de um puta texto que o espetáculo se compõe, grazadeus. Na platéia, os rostinhos conhecidos da “classe” se misturavam com o do público civil por outro motivo: o paraense Cacá Carvalho. A performance do ator impressiona sobretudo pela minúcia de seu repertório físico, que faz um espetáculo essencialmente pautado em partituras de ações que, o tempo todo, significam e ressignificam tudo o que é dito (e o que não é dito também!), num raro exemplo em que o corpo dá vida ao texto sem, no entanto, privar a platéia de suas próprias conclusões e sua própria imaginação. É claro que há ali traços e cacos de interpretação carregados pelo ator (Jamanta vai matar Sandrinha!), mas observar as nuances de sua interpretação não deixa de ser um exercício de observação das “pequenas coisas” a que o texto se refere.

Para tornar esse monólogo ainda mais redondo (literalmente), o público se dispõe em formato de arena, sendo que alguns “sortudos” são simpaticamente convidados a se sentarem no centro do círculo (meus pais inclusive, mas escapuliram antes do espetáculo começar, assim como tantos outros casais – em contraponto, outras pessoas pareciam querer aparecer a todo custo…). Durante a peça, a simples presença dessas pessoas as transformam em personagens, o que já serve de réplica para o ator.

Tudo isso (público inclusive), vejam só, acomodado no palco do Teatro SESC Anchieta – aquele que o Antunes deve achar que lhe pertence e onde ele, a propósito, não deixava um jovem Cacá Carvalho pisar nos tempos de outrora – segundo declaração do próprio Cacá, após os aplausos. É bom saber que atualmente aquele palco é dividido com outras produções, muitas bem mais ousadas e intrigantes do que as montagens do bom velhinho do CPT…

4 embrulhinhos delicados pendurados nos dedos

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