Críticas

O Incrível Ladrão de Calcinhas

por Leca Perrechil

4 Comentários 16 July 2007

O Incrível Ladrão de Calcinhas

Fotos: Divulgação

Não vi muitos teatros de bonecos na minha vida. Quando era criança, vi alguns, mas nada muito marcante. Eu me lembro de um boneco dançando ao som dos Titãs, em um dos programas da Xuxa. Pouco empolgante. Confesso que foi com essas pobres referências que cheguei ao Teatro Unip, durante o FIT, o Festival Internacional de Rio Preto, para ver O Incrível Ladrão de Calcinhas, prevendo que viria por aí uma apresentação infantilóide, com bonequinhos esfarrapados feitos de pano velho, resultando em mais uma apresentação mediana e, portanto, não marcante.


Engano meu. O que o grupo Trip Teatro de Animação, de Rio do Sul, Santa Catarina, apresentou naquele sábado ensolarado e calorento foi um espetáculo muito bem preparado e executado, com bonecos articulados e cheios de detalhes, utilizados para contar uma história que mistura elementos clássicos dos romances de detetive – típicos de filmes noir de qualidade duvidosa – com toques de humor nonsense.

Na narrativa, detetive Bill Flecha é contratado por uma cantora de bar loira e fatal, Srta. Velda, para desvendar o mistério em torno do roubo de uma calcinha que ela herdara da avó. Contudo, logo o detetive percebe que o caso é mais complexo do que parecia inicialmente, envolvendo assassinato, manipulação e contrabando. Paralelamente a isso, a secretária do detetive tenta, desesperadamente, entender uma luz misteriosa que provém do arquivo do escritório. Há, ainda, um delegado que, conforme já é prache, sempre chega atrasado aos locais dos crimes. Logo no início das investigações, Bill encontra dois personagens muitos caricaturais, que estarão diretamente envolvidos com os crimes: um barman latino-americano e o namorado da Srta. Velda, Max Bambini, um italiano com trejeitos de mafioso.

Willian Sieverdt, que é quem manipula e dubla todos os bonecos em cena, também se coloca como personagem de duas maneiras: no início, quando se apresenta como se fosse ele próprio o Sr. Flecha e posterioremente, ao longo dos acontecimentos, como uma espécie de cúmplice dos bonecos, brincando com o fato de eles realmente serem controlados por uma força maior, no caso, ele. Tal brincadeira com a estrutura ajuda a dar o tom nonsesnse para a peça, reforçado pelas engraçadíssimas trocas de olhar entre os bonecos e seu manipulador.

Há, também, outras ricas fontes de humor na peça, como a reprodução de cenas clássicas do cinema. Exemplo muito divertido é a cena que se passa no bar, durante uma das apresentações da Srta. Velda, em que, muito sensualmente, a loira consegue envolver seu namorado e o charmoso detetive ao mesmo tempo.

O cenário, dividido em cinco ambientes, e o figurino luxuoso, trazem uma riqueza de detalhes, capaz de impressionar qualquer adulto, que dirá as crianças. Por exemplo, o detetive consegue ler jornal, perseguir um bandido nas docas e fumar seus cigarros proporcionais ao seu tamanho, sem derrubar seu aspecto de herói solitário. A cena em que ele fuma em um quarto de hotel, inclusive, está entre o grandes momentos da peça, já que Willian consegue fazer o boneco expelir a fumaça de maneira extremamente verossímil.

Muito influenciada pelo cinema, a peça utiliza, ainda, como referência importante, o expressionismo alemão, que fica claro em uma das cenas iniciais, quando a calcinha é roubada e, para omitir a identidade do ladrão, cria-se um jogo de sombras.

Com uma história muito bem amarrada e uma execução divertida e impecável, só o que incomoda é o espaço escolhido para a exibição, uma vez que o teatro Unip é muito grande e quem se sentou da metade da sala para trás, talvez nem tenha podido enxergar o pequenino cigarro, acendido pelo detetive, por exemplo, de forma que, certamente, perdeu boa parte da riqueza de detalhes – o grande destaque do espetáculo.

Ao final da apresentação, além de conceder entrevista para a WTN, Willian recebeu, em nome da Trip Teatro, um troféu entregue pelo organizador do FIT, Jorge Vermelho, agradecendo pela participação no Festival.

Como já assumi no início desta resenha, não tenho conhecimento pleno do assunto, portanto, procurei por uma fonte confiável para expor melhor como são os estes bonecos, pouco conhecidos no país. O que descobri é que foram construídos a partir de “modelos desenvolvidos por Hansjürgen Fettig”. Agora sim, tudo explicado.

5 Dick Tracys com inveja

O que a galera acha

4 comentários até o momento

  1. Rachel Coelho says:

    só uma pequena correção, leca: a trip teatro de animação é de rio do sul (sc) e não do rio grande do sul. eu também fiz essa confusão uam vez… rs!

  2. Leca Perrechil says:

    Obrigada, Rachel. Já corrigi lá. Bjos.

  3. Cansu says:

    …concordo com vc FRANK, e epsreo no futuro termos a mesma determinação do rodrigo. Felicidades irmão


Trackbacks/Pingbacks

  1. Blog da Bacante - 27. Mar, 2008

    [...] boca do boneco mexia algumas vezes sim e outras não, e já vi um espetáculo muito bom do gênero (O Incrível Ladrão de Calcinhas), esse não era dos melhores.  Quem passou essa tarde pela rua XV de Novembro, pôde ver um rapaz [...]

E você, o que acha?

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