Críticas

O Mistério do fundo do pote ou Como nasceu a fome

por Juliene Codognotto

1 Comentário 18 May 2009

Fome de relações verdadeiras

O Ventoforte fez 35 anos em fevereiro. Para comemorar, apresentaram duas peças no Sesc Pompéia: O mistério do fundo do pote ou como nasceu a fome e Se o mundo fosse bom o dono morava nele.

De longe, é muito comum confundir Ilo Krugli com Ventoforte. No entanto, a identidade do grupo vai além da figura doce que parece um boneco (a propósito, se você também acha que já passou da hora de fazerem um bonequinho do Ilo escreva para queremosbonecodoilo@bacante.com.br).

As peças do grupo são, sim, marcadas pela poesia “sem idades” do texto dele, mas a marca mais forte, a meu ver, é a capacidade de concretizar o encontro, a celebração da vida, das cores, da magia. E para isso, não basta o texto metafórico do Ilo, é preciso cor, presença, muitos atores, bagunça levemente coreografada no palco, música feita exclusivamente para a cena, com a cena. Isso tudo é o que caracteriza o trabalho do Vento, um encontro alegre e colorido que se dá primeiro no palco e depois extravasa para o público pelo olhar de atores e músicos.

Como a vida não é um mar de rosas, essas manifestações de alegria no palco não devem encobrir toda a estrutura que possibilita a realização destes encontros, que passa pelas questões que permeiam o funcionamento da cidade em si. Neste caso específico, as apresentações foram no Sesc, que provavelmente pagou por elas, mas, normalmente, o Ventoforte se apresenta em sua própria sede, um espaço grande e arborizado, composto por três galpões e um coreto, no meio do Parque do Povo – de onde um circo e muitas casas foram tirados pelas “mãos fortes” da especulação imobiliária.

(Falar especulação imobiliária parece falar do capital internacional ou quando meu professor japonês de química falava de colóide)

Se, por um lado, os ventos têm trazido boa sorte – como ganharem o Fomento várias vezes ou ganharem o apoio do super-questionável Andrea Matarazzo para não serem expulsos da própria sede, por outro lado, tudo isso vem sempre com bastante tensão, como a eminência de ser expulso ou a expectativa de, logo mais, não ter como pagar a conta de luz porque a verba atrasou ou nem virá na próxima edição.

O mistério do fundo do pote

Seremos todos cegos à lógica segundo a qual decidimos viver e, sobretudo, nos relacionar, mediados pelo dinheiro e pela política pseudo-representativa?

Sim, dizem que essa peça é infantil.

A história tem início estabelecendo a metáfora da comunidade em que nunca falta comida porque há uma casa com potes de grãos que nunca terminam. A partir disso, começa uma fábula que passa pela chegada do trem, do telefone e do rádio neste local para nos contar como isso afetou a vida das pessoas que ali vivem.

Embora haja uma vilã inspirada e uma mocinha adocicada, não há maniqueísmos aqui. O texto vilaniza, sim, a busca desenfreada pela riqueza, a política centralizadora que transforma aquele que seria representante dos demais em celebridade, o indivíduo querendo impor-se à vida comum, coletiva. No entanto, nem pedras preciosas, nem dinheiro, nem telefone, nem trem, nem rádio, nem o “desenvolvimento” são tratados como essencialmente ruins. A abordagem é simples, mas não simplista, e parte da idéia de que é a partir das relações entre as pessoas que se forma a essência das relações que estas pessoas estabelecerão com todos os demais elementos de sua realidade.

Então, quando as questões coletivas se tornam menores do que as ambições pessoais – idéia representada quando a tradição de levar as coisas da casa (mesa, colher, porta, colchão) para passear em dia de festa se quebra, porque há muita inveja e cobiça – torna-se mais seguro guardar tudo consigo e fechar-se para o mundo. Nascem, a partir disso, todas as necessidades desnecessárias (e, aprofundando isso, o buraco propício para a “criação” eterna de necessidades desnecessárias), os medos e as limitações característicos do indivíduo. E ficamos cegos para a afirmação da coletividade que nos fazia prósperos. E ficamos famintos de vida.

5 músicas para cantarolar no ônibus de volta pra casa

O que a galera acha

1 comentário

  1. Lohanna says:

    Eu sou aqui do Acre e o grupo de teatro VENTO FORTE já deu as caras por aqui e eu tive o imenso prazer de assistir algumas de suas peças, entre elas O MISTERIO DO FUNDO DO POTE, particularmente gostei muito da peça muito mesmo e quero aproveitar e parabenizar os atores da peça, pois a peça foi muito bem encenada. Espero que logo logo o grupo volte por aqui.


E você, o que acha?

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