Fala
“Fiquei sabendo que vai ter no SESC Consolação a nova peça da Marília Gabriela, dirigida pelo Fagundes! Mas vai ser aquela coisa de dormir na porta pra conseguir ingresso”, informou uma senhora pras suas duas amigas dentro do elevador do SESC Av. Paulista, a caminho do espetáculo O Que Eu Gostaria de Dizer.
Na entrada, as senhoras vendo que metade dos lugares já estavam ocupados (e levando em consideração que pegaram o primeiro elevador depois da mulher do SESC informar que a sala já estava aberta), proferem: “Nós, senhoras, ficamos lá embaixo esperando enquanto as pessoas sentam… Vamos pra lá, pra gente ficar de frente!”. O lugar escolhido por elas, em frente de uma poltrona, era apenas um dos três ambientes delimitados por estruturas vazadas de metal (um pra cada personagem) que compunham o cenário em um palco estilo arena. Provavelmente elas viram um espaço com um banquinho, outro com uma cadeira e o último com a poltrona, e pensaram que o Luis Melo estaria na poltrona, logo, o centro da cena (na verdade, eu pensei tudo isso. Se elas pensaram também, todo mundo acertou, Luis sentou na poltrona. Mas elas acertaram onde sentar. Eu não. Luis ficou de costas pra mim).
Toda essa introdução foi só pra dizer que o espetáculo era estilo arena – com o público ao redor e perto da ação cênica (portanto teoricamente sem “frente” ou “trás”), mas com prejuízo de visão em alguns ângulos (tipo, não vi direito o Luis colocando suas calças enquanto estava sentado na poltrona) -, tinha o Luis Melo (conhecido da galera por novelas como O Cravo e a Rosa e do povo de teatro por suas peripécias com Antunes) e três ambientes. Se não gostou da forma como o texto começa, é só reclamar no e-mail naogosteicomootextocomecapqnaotemmuitoavercomapeca@bacante.com.br.
O espetáculo já havia feito uma espécie de pré-estréia-ensaio-aberto no início do ano, na Mostra de Teatro Contemporâneo (eufemismo de Mostra Oficial) no Festival de Curitiba, com o nome provisório de Deserto. Na época esse fato causou polêmica (não muita… mais no estilo, tipo,… alguns jornalistas comentando uns com os outros) pelo fato de ser apenas um esboço de espetáculo, um experimento ainda inacabado em uma “mostra oficial”. Me disseram que o Luis fazia exercício de voz no palco (eu não vi na época, então não posso dar detalhes). Mas também teve gente que gostou de ver um processo em desenvolvimento.
Diz a lenda (e o programa da peça) que o texto foi desenvolvido pelos três atores (Luis, Bianca Ramoneda e Mário Vito) e pelo diretor Mario Abreu, em um sítio em São Luís do Purunã (PR), nas instalações do Projeto de Residência Artística ACT no Campo. O texto também traz adaptações livres dos poemas de Gonçalo M. Tavares. A impressão que se tem depois de assistir ao espetáculo é a de que os criadores tinham boas idéias de diálogos, ótimas frases e vontade de lidar de maneira mais lírica e poética com temas como solidão, relacionamentos, relações humanas, modos de exteriorizar pensamentos e sentimentos internos – mas não sabiam muito bem como amarrar tudo isso.
Na trama, uma mulher quer sair de um relacionamento em que não vê mais sentido enquanto o marido não quer deixar acabar uma relação construída durante anos, uma espécie de estabilidade que lhe dá uma segurança acomodada. Ela tenta exteriorizar seus sentimentos em uma carta e ele tenta de todas as formas expressar seu ponto de vista em palavras e metáforas, sem muitos sucessos. A inabilidade dele de conseguir expor seus argumentos (e sentimentos) mostra a dificuldade de lidar com as relações humanas e os relacionamentos amorosos. E, ao mesmo tempo, ela só consegue fazer isso através de uma carta, não demonstrando muito mais facilidade de comunicação que ele.
Pelo desgaste da relação, as discussões entre o casal se tornam banais, como a em que divergem sobre as pausas e entonações da música “Meu bem, meu bem… Você precisa acreditar…” (cantada saudosamente também pelo senhor ao meu lado). O bate-boca do casal também traz diálogos inusitados, como um em que ele chega à conclusão de que ela não pode se comparar a um caracol porque este é um molusco imbecil que acha que sua casca é uma casa (isso totalmente fora do contexto e com outras palavras, já que não levei meu gravador de fita). Alguns dos diálogos ficaram um pouco longos e cansativos durante a encenação, e a verborragia impera em cena.
O terceiro personagem, o de Luis Melo, fica um pouco a parte. Meio como uma espécie de filósofo-poeta-onipresente, um tipo de narrador que não narra, mas filosofa sobre alguns assuntos da peça, sobre a vida e a morte (como quando conta que salvou um suicida, que viveu pra continuar extremamente infeliz), e ocasionalmente insinua referências ao casal. Com bastante presença em cena, Luis representa a linha de ligação da trama com os assuntos dos quais ela trata, e também se expõe como uma espécie de anfitrião, falando para a platéia, com seu devido distanciamento, sem encarar o público e se dirigindo diretamente a ele apenas uma vez, quando dá uma rosa que parecia de papel pruma senhora. No fim, o personagem de Luis Melo pergunta: “Do que se trata?” Tipo, “pra quê viver?”, “Por quê estamos aqui e nos relacionamos?” ou, com mais liberdade poética, “pra quê essa peça?”. Vai saber.
Um personagem que é contemporâneo e, portanto, não gosta de poesia, segundo o mesmo

