Histórias em torno da história
Batuques, cheiro de fumaça, cenário quase limpo – sem contar um material meio estranho que havia no chão, que parecia areia, mas não era, e parecia mini-bolinhas de chumbo, mas também não devia ser porque se fosse seria dolorido pro bumbum pelado dos atores. Nós, público, somos, desde que entramos, transportados para uma África de muitas histórias que se embaraçam com a oficial, ainda que a história oficial, geralmente, passe pelas demais com a distância que a ciência costuma manter das estórias com “e”. Sabe aquelas músicas que você não entende nada, mas que se ninguém estivesse te ouvindo você tentaria cantar junto por que parece muito divertido? Então, todo o elenco te recebe cantando e batucando, como que pedindo licença pra contar uma história esquisita.
Um senhor e depois um muleque são o narrador (isso mesmo, são a mesma pessoa), que fala de um acontecimento do período imediatamente após a independência de Moçambique. Ricos em lendas repletas de imagens e sons tão característicos, os países africanos parecem, pelo menos para nós, ter uma relação muito mais ritualística com a contação de histórias e o compartilhamento de vivências. Talvez essa capacidade de produzir imagens – somada à valorização do momento de encontro em que essas histórias são divididas – seja justamente o que justifica basear um espetáculo numa história tão simples e quase linear. Essa escolha é arriscada, pois aponta por um caminho que, em geral, já perdeu muito do seu potencial de tocar o público.
Cinco soldados das forças de paz da ONU morrem em Moçambique de forma misteriosa – esse é o fato gerador dos acontecimentos, que, no entanto, passam longe de estarem restritos a ele. Ao mesmo tempo em que é muito simples, a história apresenta complexidades escondidas. Para começar, não bastasse desaparecerem de maneira misteriosa, os soldados deixam um, digamos, sinal de sua individualidade: o seu pipiu. O que poderia ser o mote perfeito para um quadro fixo do Zorra Total não descamba para o humor fácil, indo buscar o recheio da história em outras fontes mais criativas.
É então que passamos a desprezar a história oficial dos soldados da ONU e até mesmo da corrupção assassina que predomina na Moçambique pós-guerra, para nos deixar envolver pelo entorno, pelo conhecimento e pela vivência popular, que no fim das contas, com todas as suas distorções, dizem mais que documentos e relatórios oficiais. Conhecemos a mãe do narrador, uma mulher que, por problemas no parto, não consegue enxergar o próprio filho. É cega somente para ele, mas, quando morre, passa a vê-lo com os olhos da alma e mantém com ele a relação intensa de uma mãe que pode protegê-lo e aconselhá-lo. Aparece, ainda, uma mulher com corpo de moça e rosto de velha, que carrega consigo uma maldição e que, por isso, precisa evitar que suas lágrimas molhem o chão sob o risco de que nasça algo muito ruim da terra.
Dentre as tantas figuras, destaca-se o pai do narrador, um homem sábio e recluso que observa o rio. Um homem que não aceita as conclusões fáceis sobre a história de seu país e que é, ao mesmo tempo, profundamente humano em seus erros (não agüenta o fato de a mulher ser infértil e a abandona, por exemplo), e místico, sábio, em suas falas e ensinamentos para o filho. Um senhor que literalmente pendura os ossos para poder descansar, numa cena surpreendente. Um homem que percebe e mostra ao filho e ao investigador italiano enviado pela ONU que, às vezes, é preciso parar o mundo pra entendê-lo ou, ainda, que talvez seja preciso uma pausa, um começo do zero para (re) construir uma história em e de paz.
3 costelas guardadinhas numa caixa, enquanto eu descanso da correria do FIT BH.



Desculpe,
mas onde está a ficha táecnica do espetáculo?
este vôo é o de BH, dirigido pelos Bicalho?
(seria bom se toda matéria oferecesse os dados básicos do espetáculo…)
Sim, é o de BH.
Não, não é uma matéria.
Tá desculpado, Umberto.
A ficha técnica tá por aí num monte de lugares. Mas indico esse, que ainda tem sinopse (!): aqui
Vc é de BH?
Valeu por comentar.
Abraço.