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Críticas

Once

por Juliene Codognotto

2 Comentários 01 July 2008

Sem concessões – uma peça que pode assustar as crianças

Foto: Sergey Kuznetzov

Não vou contar a história de Once. Não vou, nem adianta insistir. A história é boba e piegas e poderia estar em qualquer novela com a Thalía no elenco. O que vale comentar aqui não é o que a história diz, mas o que esses russos fazem com ela, virando de ponta cabeça, jogando em cima da platéia, colocando luz verde, muita fumaça, porcos cor-de-rosa, quadros vivos, cacto metálico gigante. Oi? Tá achando tudo muito maluco e esquisito? Pois é, nem começaram.

Os personagens são tipos construídos com uma partitura corporal muito específica e quase óbvia, mas sempre radicalizada. A mocinha com seus trejeitos lembra, por exemplo, as heroínas das histórias de circo-teatro. A exploração da dança também ajuda a mostrar relações entre personagens dispensando completamente os diálogos verbais. Os corpos conversam. E como conversam! Basta ver o que o palhaço-principal consegue nos dizer e o quanto nos faz rir por meio dos mais bobos gestos que levam à ressignificação de objetos tão banais como um pedaço de cano.

Trazer personagens extremamente comuns para o palco, seja para desconstruí-los, seja para radicalizar o estereótipo, é uma opção que se torna mais intensa quando, além de explorar o que realmente acontece, a peça vai também para o mundo dos sonhos. E não pense que é um mundo de mil maravilhas, não. No mundo dos sonhos as coisas não são lindas e fáceis. Para se ter idéia, o palhaço estrangula a mulher que ama, enquanto ela dança com outro. No mundo dos sonhos, há castelos assustadores, carecas manipuladores que controlam os movimentos da mocinha, e estrelas cadentes que funcionam como as vassouras funcionavam para as bruxas de contos de fada. No mundo dos sonhos há muita fumaça. Em tudo tem muita fumaça, na verdade. E tenho certeza de que não pegou fogo em nada, não, porque tinha muita fumaça nos dois dias que assisti.

Felizmente, o sonho não é fuga para o grupo, nem se torna o espaço para as pirações em oposição ao espaço do comum e do habitual, o que teria tornado a proposta óbvia e limitada. Não. O cupido bizarro com flechas tortas, por exemplo, não aparece com os efeitos de luz e trilha que têm os sonhos, ele surge no plano do real e é onde faz suas besteiras. Portanto, calma, não precisa esperar que no fim “tudo foi um sonho”, como é comum em historinhas por aí. Dessa vez, aliás, o fim – uma das partes mais inesperadas – não abre concessão ao que você – espectador que torce desesperadamente por aquele palhaço tão simpático, apesar de tão torto e estranho – está esperando como solução para todos os problemas. Aliás, fim? As performances que encerram a montagem são daquelas que dão vontade de subir no palco e brincar junto; daquelas que nos mostram o quanto os atores estão curtindo o que fazem; das que ressignificam a separação entre obra de arte e vida.

once-finale-credito-sergey-kuznetzov.jpg

4 gotinhas de Champanhe no cabelo

 PS: Ok. Você está morrendo de curiosidade pela historinha, né? Abaixo, a sinopse oficial. Mas já aviso que não tem nada a ver com o espetáculo.

Numa cidade viviam duas pessoas solitárias: ele e ela. Ela era bonita, mas um pouco superficial, quase estúpida. Ele era gentil e de bom-coração, mas azarado. Em um de muitos dias chuvosos, o trovão do amor atingiu seus corações. Nesse conto de fadas sobre amor, lágrimas e corações partidos, desfilam personagens como o cupido pessimista, dragões das cavernas, as nuvens da montanha, o policial de papelão, o capitão dos nove mares, o juiz bochechudo, o farol, o idiota com seu carrão, passando pela morte boba, até o final desconhecido. E a história se desenrola entre lágrimas e risadas.

O que a galera acha

2 comentários até o momento

  1. Luciana Lima says:

    Eu assisti a essa peça uns bons anos atrás, quando passou aqui por São Paulo (acho que no SESC Anchieta – o google poderia confirmar essa informação, mas estou em um dia arrogante e não vou ceder). É simplesmente linda, e o etéreo ocupa mais espaço do que qualquer possível referência (tá, isso ficou meio Gerald Thomas). Os gestos, os movimentos, o burlesco e a atmosfera errante e onírica (é, ficou de novo…) tornam a peça um sonho mambembe à Tim Burton (e aqui me contradigo, já que acabei de dizer que não há referências ocupando espaço).

    Pra resumir (o que eu deveria ter feito desde o começo), adorei ler sobre a peça aqui. Principalmente por ser das peças mais legais de todos os tempos!

  2. RR says:

    Peça boa. Merecia outra temporada com toda a certeza. Vale o ingresso.


E você, o que acha?

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